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	<title>Jogo de Área &#187; Luís António Coelho</title>
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	<description>Artigos de opinião e Análise desportiva</description>
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		<title>Carlos Manuel: Um golo de sonho</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 13:14:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Futebol Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Selecções Nacionais]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa semana em que a selecção portuguesa vai ter dois jogos decisivos para chegar ao Mundial de 2010, na África do Sul, oportunidade para recordar um golo que há 24 anos nos permitiu alcançar uma qualificação que parecia inatingível.
O sonho do Bom Gigante
Foi a 16 de Outubro de 1985 que Carlos Manuel marcou o golo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa semana em que a selecção portuguesa vai ter dois jogos decisivos para chegar ao Mundial de 2010, na África do Sul, oportunidade para recordar um golo que há 24 anos nos permitiu alcançar uma qualificação que parecia inatingível.</p>
<p><strong>O sonho do Bom Gigante</strong><br />
Foi a 16 de Outubro de 1985 que Carlos Manuel marcou o golo que até hoje mais me fez vibrar em toda a minha vida. Foi no jogo decisivo de Portugal para se qualificar para o Mundial do México 86. À partida para a última jornada de qualificação, Portugal estava praticamente fora da corrida. Tinha de ganhar em casa da poderosa RFA (na altura a Alemanha ainda estava dividida pelo Muro de Berlim) e esperar que a Suécia perdesse com a Checoslováquia. As hipóteses de essa conjugação de resultados ocorrer era tão remota, que o nosso seleccionador, José Torres, antes da partida para Estugarda, até desabafou uma frase que, desde logo, ficou célebre: Deixem-me sonhar. A frase do Bom Gigante poderia até parecer derrotista, mas havia também um resquício de fé nesse desabafo que diz muito sobre aquilo que era Portugal na altura. Não só enquanto selecção, mas enquanto país. Um país que só podia sonhar e esperar que as coisas acontecessem por si.</p>
<p><img class="attachment wp-att-2716 alignleft" style="margin-top: 4px; margin-right: 10px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/09/carlos-manuel-portugal.jpg" alt="Carlos Manuel" width="300" height="213" align="left" title="Carlos Manuel: Um golo de sonho" />Mas a verdade é que naquele dia 16 de Outubro de 1985 as coisas aconteceram mesmo. A Suécia perdia com a Checoslováquia e Portugal entrava no Neckarstadion de Estugarda, onde três anos depois o Benfica perderia uma final da Taça dos Campeões Europeus por penalties contra o PSV Eindhoven, com uma pequena possibilidade de se qualificar. Era contra a RFA que íamos jogar, não era contra o Azerbaijão nem contra a Finlândia. Era contra a selecção vice-campeã mundial, treinada por Franz Beckenbauer, e com craques como Karlheinz Rummenigge, Peter Briegel, Pierre Littbarski, Thomas Allofs, Karlheinz Förster e o guarda-redes Toni Schumacher, um dos jogadores mais odiados e temidos no mundo &#8211; em França ficou mesmo à frente de Hitler numa votação para eleger o homem mais odiado de sempre por esse país, depois de quase ter assassinado Patrick Battiston em plena meia-final do Mundial de Espanha em 82. Mas se conseguíssemos ganhar à RFA, seria a primeira vez, desde o Mundial de 66, que estaríamos numa fase final. A primeira vez, em 20 anos, que o nosso hino seria transmitido em directo para todo o mundo, enquanto a câmara filmava em travelling o rosto dos nosso jogadores e nos fazia sentir um pouco mais orgulhosos por termos nascido neste país.</p>
<p><strong>Um remate para a História</strong><br />
Dizer que o jogo foi um sofrimento seria o mesmo que dizer que o Hamlet ou o Macbeth, daquele rapaz, o Shakespeare, até são peças um bocado dramáticas. A bola bateu no poste da nossa baliza, bateu na trave, o Bento fez defesas impossíveis, mas naquele minuto 53&#8230; quando o meu jogador preferido, do meu clube preferido, aquele a quem chamavam na altura Carlão, ou a locomotiva do Barreiro, pega na bola a meio-campo e começa a correr na direcção da baliza, naquele estilo de fuga para a frente, sozinho, mas decidido, e se liberta de um adversário no lado esquerdo do terreno, puxando a bola para o centro para a rematar ao ângulo superior direito da baliza alemã&#8230; parece que ainda estou a ver o Schumacher a olhar para a bola com a impotência de quem nada pode fazer. Um gigante alemão a olhar para uma bola rematada por um português e a sentir que não havia nada a fazer.</p>
<p>Não sei se vocês percebem o que é que isto significava na altura. Para mim, que tinha sete anos e do mundo apenas sabia que o futebol era a coisa mais importante que existia, aquilo já era muito mais do que um simples golo. Parece que ainda estou o ver o Jaime Pacheco a querer agarrar o Carlos Manuel, e Carlão a agitar os braços com aquela felicidade que não cabe no corpo. Parece que ainda estou a ver os jogadores alemães a discutirem uns com os outros durante o jogo. Eles há muito que já estavam qualificados, mas uma derrota em casa contra Portugal era absolutamente impensável para os germânicos.</p>
<p>Claro que no México acabámos por ter uma prestação horrível. E claro que, depois disso, Portugal cresceu muito como selecção, principalmente devido ao facto de ter jogadores a emigrarem para os principais campeonatos europeus. Vibrei com o golo do Rui Costa contra a Irlanda no jogo que nos apurou para o Euro de 96, vibrei com os golos com que virámos o resultado contra a Inglaterra no Euro 2000, principalmente o do Figo (a maneira como o guardião inglês, Seaman, ficou a olhar para a bola fez-me lembrar o Schumacher a olhar para o balázio do Carlos Manuel), e com todos os golos do Euro 2004 e do Mundial de 2006. Mas nunca mais voltei a sentir aquela felicidade, aquela transcendência, depois de um golo de Portugal. Talvez porque na altura tinha sete anos e ainda acreditava em super-heróis. É que, para mim, o golo do Carlos Manuel tinha sido um feito só ao alcance de um super-herói.</p>
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		<title>Helmuth Duckadam &#8211; o Herói de Sevilha</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2009 22:17:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Leste Europeu]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[É possível admirar para sempre um jogador que só tenhamos visto actuar uma vez? Sim, se esse jogador tiver defendido 4 penaltis do Barcelona numa final da Taça dos Campeões Europeus!
 Quatro defesas para a História
Foi a 7 de Maio de 1986 que Helmuth Duckadam, guarda-redes do Steaua de Bucareste, defendeu quatro penaltis do Barcelona [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É possível admirar para sempre um jogador que só tenhamos visto actuar uma vez? Sim, se esse jogador tiver defendido 4 penaltis do Barcelona numa final da Taça dos Campeões Europeus!</p>
<p><strong> Quatro defesas para a História</strong><br />
Foi a 7 de Maio de 1986 que Helmuth Duckadam, guarda-redes do Steaua de Bucareste, defendeu quatro penaltis do Barcelona e ajudou assim a equipa de Valentin Ceausescu (irmão do ditador Niculae, da Roménia) a vencer o todo-poderoso conjunto catalão. O jogo, disputado em Sevilha perante 55 mil espanhóis e nem uma sombra romena, tinha terminado com 0-0 no final dos 90 minutos. Idem aspas, após o prolongamento.</p>
<p>O deus até então desconhecido da baliza do Steaua (onde jogava também um tal de Laszlo Bölöni, como avançado) já havia feito as defesas impossíveis da prache frente a Schuster, Archibald e companhia, mas foi no desempate por penaltis que atingiu o estatuto mítico. Ainda me lembro do nome dos quatro jogadores do Barcelona que viram Duckadam negar-lhes o golo: Alexanco, Pedraza, Pichi Alonso e Marcos. O Steaua acabou por ganhar a Taça por 2-0, sendo Lăcătuş e Balint a converter os dois tentos da vitória.</p>
<p><strong><img class="attachment wp-att-2573 alignleft" style="margin-top: 4px; margin-right: 10px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/07/duckadam2.jpg" alt="Helmuth Duckadam" width="300" height="198" align="left" title="Helmuth Duckadam   o Herói de Sevilha" />A lesão</strong><br />
O mais impressionante de tudo, no entanto, é que pouco tempo depois dessa inesquecível final, Duckadam, com apenas 27 anos, deixou de jogar futebol. Segundo parece, depois de sofrer uma trombose que deixou parcialmente paralisado o lado direito do seu corpo. Houve na altura especulações acerca do que o regime de Ceausescu lhe teria feito para o impedir de se transferir para uma equipa de um país ocidental. O Steaua de Bucareste não era uma equipa qualquer na altura, e não foi por acaso que ganhou essa final e que dois anos mais tarde alcançaria a meia-final da Taça dos Campeões (eliminado pelo Benfica) e em 1988/89 a final (derrota com o AC Milan). Era a equipa patrocinada pelo Ministério da Defesa romeno e naquele tempo era tão impensável ver um futebolista de um país comunista transferir-se para um clube ocidental como imaginar o Benfica alguma vez entrar em campo sem um único jogador português. Falou-se em vários clubes italianos, nomeadamente a Juventus, mas já se sabe como são estas coisas.</p>
<p>Às figuras míticas só as lendas fazem justiça. Na verdade (e não há nada como a verdade para nos surpreendermos) Duckadam já estava com dores antes da final de Sevilha. Mas não contou a ninguém, claro, para pelo menos poder fazer esse jogo e entrar para a História do futebol. Tinha uma artéria pulmonar demasiado ampla para o sangue fluir para outros vasos sanguíneos e foi esse afunilamento que lhe provocou a lesão e o impediu de continuar a carreira profissional.</p>
<p>Em 1989 ainda voltou a fazer uns jogos, num clube da segunda divisão romena, o modesto Vagonul Arad. Mas até isso torna ainda mais gloriosa aquela noite de 7 de Maio de 1986.</p>
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		<title>Greg Lemond: Renascer das cinzas</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Jul 2009 13:07:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Modalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Dez anos antes de Lance Armostrong ter derrotado o cancro e vencido pela primeira vez a Volta à França em bicicleta, um outro americano cometeu uma proeza semelhante: vencer a maior prova velocipédica do mundo, depois de ter estado às portas da morte.
O acidente no auge da carreira
Em 96 edições, a Volta à França já [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dez anos antes de Lance Armostrong ter derrotado o cancro e vencido pela primeira vez a Volta à França em bicicleta, um outro americano cometeu uma proeza semelhante: vencer a maior prova velocipédica do mundo, depois de ter estado às portas da morte.</p>
<p><strong>O acidente no auge da carreira</strong><br />
Em 96 edições, a Volta à França já teve grandes campeões, grandes momentos, grandes conquistas e grandes desilusões. Mas se tivesse de escolher uma edição só para explicar a grandeza da prova, seria a de 1989, ganha por Greg Lemond na última etapa. Um contra-relógio de 24 km, em que o ciclista americano teve de recuperar os 50 segundos que tinha de atraso em relação ao francês Laurent Fignon, acabando por vencer a prova pela mais curta diferença de sempre: 8 segundos. E se ainda hoje me lembro tão bem dessa etapa é porque acho que nunca vi no ciclismo uma manifestação de querer tão grande como a de Lemond nesse dia.</p>
<p>É preciso esclarecer vários coisas de antemão e a primeira é a seguinte: Lemond ganhou a prova sozinho. Ao contrário de quase todos os campeões desde sempre nesta competição, praticamente não tinha uma equipa a ajudá-lo. Corria pela ADR, uma equipa sem expressão no pelotão, enquanto Fignon corria pela Super U-Raleigh-Fiat (antiga Système U), dirigida por Cyrille Guimard. Mas há algo que torna a vitória de Lemond ainda mais impressionante: é que dois anos antes, o ciclista tinha estado entre a vida e a morte, após um acidente estúpido numa caçada na Califórnia, em que o próprio cunhado o atingiu acidentalmente no peito com uma bala. Isto ocorreu em Abril de 1987. Até essa altura, Lemond tinha disputado 3 Tours: em 1984, tendo-se classificado em 3.º lugar, uma prestação brilhante para qualquer debutante na prova. Em 1985, em que foi 2.º, e só não venceu porque corria na equipa de Bernard Hinault, a La Vie Claire e tinha a missão de ajudar o campeoníssimo francês a igualar Jacques Anquetil e Eddy Mercx na 5.ª vitória no Tour. E em 1986, em que se sagrou vencedor, à frente de Hinault, para irritação de muitos franceses, porque impediu o compatriota destes de se sagrar o recordista de vitórias na prova.</p>
<p>Aos 25 anos Lemond estava no auge da sua forma. Os americanos nunca tinham feito nada de relevante no ciclismo, mas agora era um americano que dominava a modalidade. E foi então que ocorreu o acidente. A descarga de chumbo nas costas deixou-o debilitado não só em termos físicos, mas também psicológicos, porque pensava que nunca mais iria poder correr.</p>
<p><img class="attachment wp-att-2583 alignleft" style="margin-right: 10px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/07/greg_lemond_.jpg" alt="Greg Lemond (1989) Tour de France" width="300" height="200" align="left" title="Greg Lemond: Renascer das cinzas" /><strong>Uma vitória de sonho</strong><br />
Mas há algo no espírito de competitividade dos grandes atletas, e que Lance Armstrong voltaria a provar uma década mais tarde, e que se revela nestes momentos: a vontade de se suplantarem a si mesmos ou àquilo a que parecem estar limitados. Para Lemond, voltar a poder correr dois anos mais tarde já foi uma grande vitória, mas para quem, como ele, amava tanto o Tour, correr significava sempre lutar pela vitória. Para quem se lembra, a Volta à França de 1989 foi aquela em que o português Acácio da Silva esteve de amarelo durante alguns dos primeiros dias da prova. Claro que, quando as etapas chegaram às montanhas, um sprinter como Acácio da Silva começou a perder gás e relevância. E aí começaram a impôr-se os grandes nomes do ciclismo da época: Laurent Fignon (que já havia vencido o Giro desse ano), Pedro Delgado (vencedor do Tour do ano anterior) e&#8230; Greg Lemond.</p>
<p>A camisola amarela mudou de dono algumas vezes, principalmente entre Lemond e Fignon, mas a certa altura começou a parecer inevitável a vitória do francês (que já havia vencido a prova em 1983 e 84). Só que nesse Tour aconteceu algo que (infelizmente, para mim) raramente acontece nestas grandes provas: a última etapa era um contra-relógio. E aí, não há equipas que valham. Aí, ganha mesmo aquele que é melhor. Só que, mesmo assim, 24 km parecia uma distância demasiado curta para Lemond recuperar os 50 segundos de atraso. Era preciso quase voar para o conseguir. E, no fundo, foi isso que o americano fez, ao atingir a velocidade média de 54,5 km/h.</p>
<p>Lemond ainda ganharia nesse ano o campeonato do Mundo de Estrada (repetindo a vitória de 1983), sendo eleito o desportista do ano pela revista Sports Illustarated, mas tal como o próprio afirmaria, o auge da sua forma já tinha passado. Talvez tivesse ganho mais Tours se não tivesse sofrido o acidente de 1987. Ao contrário de Lance Armstrong, que atingiu a sua melhor forma depois de ter sofrido o cancro na próstata, Lemond estava no auge na altura em que ocorreu o acidente. A partir de 1991 foi o espanhol Miguel Indurain que se começou a impor na prova, vencendo por 5 vezes seguidas a maior comeptição velocipédica. Ainda assim, alguns anos mais tarde, Indurain confessou que se pudesse escolher uma vitória no Tour, gostava que tivesse sido a de 1989. Ele sabe que esse tipo de vitória é o sonho de qualquer desportista.</p>
<p><br/>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=AyvwtOQYQ-E"><img src="http://img.youtube.com/vi/AyvwtOQYQ-E/default.jpg" width="130" height="97" border title="Greg Lemond: Renascer das cinzas" alt="Greg Lemond: Renascer das cinzas" /></a><br />
<span style="color: #888888;">Contra-relógio na Volta a França 1989</span></p>
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		<title>O Eterno Clássico do Futebol Mundial</title>
		<link>http://www.jogodearea.com/2009/06/o-eterno-classico-do-futebol-mundial/</link>
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		<pubDate>Fri, 19 Jun 2009 09:42:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Itália]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Brasil e Itália são as duas selecções com mais títulos conquistados na história dos Mundiais de futebol (5 para o Brasil, 4 para Itália). Aliás, juntas têm mais títulos do que todas as outras selecções.
Jogos decisivos
Já jogaram entre si 13 vezes, com 6 vitórias para a “canarinha”, 5 para a squadra azzurra e 2 empates. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Brasil e Itália são as duas selecções com mais títulos conquistados na história dos Mundiais de futebol (5 para o Brasil, 4 para Itália). Aliás, juntas têm mais títulos do que todas as outras selecções.</p>
<p><strong>Jogos decisivos</strong><br />
Já jogaram entre si 13 vezes, com 6 vitórias para a “canarinha”, 5 para a <em>squadra azzurra</em> e 2 empates. Apesar de sempre terem possuído, ao longo da sua história, jogadores de grande técnica e carisma, sempre tiveram também estilos de jogo completamente diferentes uma da outra. O Brasil um futebol mais ofensivo e livre de amarras tácticas, a Itália um futebol mais cínico e de contenção. Já por duas vezes discutiram a final de um Campeonato do Mundo: em 1970, no México, com uma das melhores (para muitos, “a melhor”) selecção brasileira de sempre (Pelé, Jairzinho, Tostão, Gerson) a derrotar a Itália por 4-1 – no final do jogo, o defesa italiano Tarcisio Burgnich diria a seguinte frase sobre “o rei”: &#8220;Eu disse para mim mesmo antes do jogo: ele é feito de pele e ossos como qualquer um – mas estava errado.&#8221;; e em 1994, nos EUA, com Roberto Baggio a falhar o famoso penalti que deu ao Brasil a vitória numa das mais desinteressantes finais de sempre de um Mundial.</p>
<p>Há, no entanto, um jogo entre o Brasil e a Itália que ultrapassa todos os outros em termos de simbolismo: o jogo que disputaram no Mundial de Espanha em 1982. Um jogo que teve até direito a uma magnífica peça de teatro, escrita pelo italiano David Enia, e que chegou a ser encenada em Portugal em 2004 pelos Artistas Unidos. Se eu tivesse de escolher uma só partida para descrever as características de cada uma dessas selecções seria precisamente esse mítico Itália-Brasil 3-2 que, para os brasileiros, ficou conhecido como “a tragédia de Sarriá”. Siarrá era, na altura, o estádio do Espanyol, mas foi demolido em 1997, por dívidas do clube, que teve de o vender os terrenos a uma empresa de construção.</p>
<p><strong>O Mundial de 1982</strong><br />
O Brasil, treinado por Telé Santana, chegou a esse mundial na condição de super-favorito. Tinha aquela que, ainda hoje, é considerada a melhor selecção “canarinha” pós-Pelé, com um grupo de artistas que fazia as delícias de qualquer fã do futebol-espectáculo, composto por Zico, Sócrates, Falcão Cerezo e Éder, todos eles no auge da sua forma. Durante a primeira fase do torneio derrotaram a União Soviética por 2-1, a Escócia por 4-1 e a Nova Zelândia por 4-0. Mais do que derrotarem os adversários, os brasileiros encantavam e faziam jus à sua condição de favoritos, com jogadas de antologia e golos para todos os gostos. Podiam até dar-se ao luxo de ter um guarda-redes vulgar (Waldir Perez) e um ponta-de-lança também medíocre (Serginho, que anos mais tarde jogaria no Marítimo), que a técnica de Zico e Sócrates, os balázios de Éder e o pulmão de Falcão que, como escreveu David Enia na sua peça, era um jogador que parecia estar em todo o lado sem nunca dar sinais de cansaço ou esforço, resolvia tudo.</p>
<p>Muito diferente foi a qualificação da Itália para a segunda fase da prova. Empate a zero com a Polónia e a um golo com Peru e Camarões, a Itália qualificou-se para a segunda fase apenas por ter marcado mais um golo do que os Camarões. Para a própria imprensa do país, a trajectória da selecção constituía uma vergonha e as expectativas para a segunda fase eram baixíssimas. Mesmo que tivesse estrelas como Dino Zoff, António Cabrini, Cláudio Gentille, Marco Tardelli, Bruno Conti e Paolo Rossi.</p>
<p><strong><img class="attachment wp-att-2264 alignleft" style="margin-right: 8px; margin-top: 5px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/06/mundial82-brasil-italia-pele-socrates-paolo-rossi.jpg" alt="O Eterno Clássico do Futebol Mundial" width="300" height="195" align="left" title="O Eterno Clássico do Futebol Mundial" />A “tragédia de Sarriá”</strong><br />
Nesse mundial não houve oitavos nem quartos-de-final, mas sim uma segunda fase de grupos, cada um com três selecções e em que apenas a primeira classificada seguia para as meias-finais. O grupo da morte seria precisamente composto por Brasil, Itália e Argentina. Depois de a Itália vencer a selecção de Maradona por 2-1, foi o Brasil a derrotar os seus grandes rivais sul-americanos por 3-1. Ou seja: para o Brasil, bastava um empate no jogo com a Itália para se qualificar. Mas quem conhece a História (principalmente a história da perda do Mundial de 1950) sabe que não há nada pior para uma selecção brasileira (principalmente, quando se trata de uma selecção que não sabe jogar à defesa) do que só precisar de um empate. Foi nesse jogo que, para os italianos, nasceu a lenda de Paolo Rossi como seu bambino d&#8217;oro. Rossi tinha sido seleccionado para esse Mundial de forma absolutamente inesperada. Tinha estado quase dois anos impedido de jogar, após um escândalo conhecido como Totonero, quase tão grande como o calciocaos. Numa altura em que já jogava na Juventus, Rossi tinha sido acusado de estar envolvido num resultado combinado entre o Perugia (o seu antigo clube) e o Avellino da época anterior. Rossi declarou-se sempre inocente dessa acusação, preferindo até cumprir a totalidade do castigo do que admitir uma suposta culpa e ver assim reduzida a sua pena. Para a maioria dos tiffosi, a titularidade de Rossi tratava-se apenas de um capricho do seleccionador Enzo Bearzot. E os primeiros jogos nesse Mundial pareciam dar razão aos adeptos. Rossi mal se via em campo, tão discretas foram as suas primeiras prestações nesse Mundial. Parecia um jogador a menos, um homem invisível. Mas, tal como David Enia escreve na sua peça, “como é que se marca um jogador que parece invisível?”. E foi isso mesmo que os defesas brasileiros terão pensado quando viram Paolo Rossi corresponder com um cabeceamento perfeito ao cruzamento de Antonio Cabrini, aos 5 minutos, para abrir o marcador. Nada de alarmante, terão pensado os brasileiros, que já haviam dado a reviravolta ao resultado nos jogos contra a União Soviética e a Escócia. E assim, parecia ser quando, aos 12 minutos, após uma abertura de Zico, o capitão Sócrates coloca a bola no único espaço existente entre o corpo de Zoff e o poste esquerdo da baliza e empata. Só que aos 25 minutos, após um mau passe de Cerezo interceptado por Paolo Rossi (“como é que se marca um jogador que parece invisível?”), a Itália volta a adiantar-se no marcador. A tarde de 5 de Julho já era quente, mas as emoções em campo ferviam ainda mais. Na segunda parte, com o Brasil sempre a carregar, a Itália a defender-se não com um autocarro mas com um muro e o defesa Gentille a marcar Zico com tanto empenho que até lhe rasga a camisola, a canarinha chega ao empate, aos 68 minutos, com um remate de fora da área de Falcão. A manifestação de alegria deste grande jogador (considerado o segundo melhor do Mundial pela FIFA, apenas atrás de Paolo Rossi) ao comemorar o grande golo que marcou é um dos momentos mais vibrantes desse Mundial. Agora, sim, a ordem natural das coisas parecia estar a impor-se. Mas 6 minutos mais tarde, após um lance confuso na área brasileira, a bola sobra para novamente para Paolo Rossi (“como é que se marca um jogador que parece invisível?”) que faz o 3-2 e tira aos brasileiros aquilo que lhes parecia estar destinado.</p>
<p><strong>O significado da vitória</strong><br />
No final do jogo, Sócrates disse o que muita gente pensou sobre o significado da vitória do pragmatismo italiano sobre a magia brasileira: “Foi mau para nós, mas pior para o futebol”. Tal como a selecção húngara de Puskas em 54 e a “laranja mecânica” de Cruyff em 74, o Brasil de 1982 ficou na história por não ter ganho. Só que, às vezes, a grandeza de um vencido é tão marcante que nem a derrota o impede de ficar na memória de todos. Lembro-me de há uns anos Bebeto e Dunga criticarem o facto de se falar tanto na selecção brasileira de 1982 em detrimento da “sua selecção” campeã em 94. Pelos vistos, ainda ninguém tinha lhes explicado que a memória dos adeptos não é feita só de resultados, mas também de sensações. E nenhum adepto que tenha visto a selecção brasileira de 82 lhe conseguiu ficar indiferente. O mesmo já não se pode dizer da selecção de 94.</p>
<p>Para os italianos esse encontro foi muito mais do que um jogo de futebol, foi um evento histórico. Foi o dia em que derrotaram uma selecção que a própria imprensa italiana designava de “extraterrestres”. Claro que ainda havia o jogo das meias-finais (em que a Itália derrotaria a Polónia por 2-0) e depois o da final (vitória sobre a RFA por 3-1), mas a prova de fogo, a verdadeira quimera já tinha sido ultrapassada. Em 2002, Paolo Rossi lançou uma autobiografia intitulada “Fiz o Brasil chorar”. E em 1982, no dia seguinte ao jogo com o Brasil, a Gazetta dello Sport, fez manchete com uma frase que explicava de forma perfeita o significado que teve para a Itália derrotar essa selecção de “extraterrestres”: “O BRASIL SOMOS NÓS!”</p>
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		<title>Coreia do Norte: Heróis Esquecidos</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2009 10:46:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Ásia]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 19 de Julho de 1966 os jogadores da Coreia do Norte fizeram História ao eliminarem a poderosa Itália do Campeonato do Mundo. Um ano depois, foram condenados pelo regime do seu país ao exílio e impedidos de jogar futebol.
Uma questão de honra
A Coreia do Norte, única representante do continente asiático na fase final [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 19 de Julho de 1966 os jogadores da Coreia do Norte fizeram História ao eliminarem a poderosa Itália do Campeonato do Mundo. Um ano depois, foram condenados pelo regime do seu país ao exílio e impedidos de jogar futebol.</p>
<p><strong>Uma questão de honra</strong><br />
A Coreia do Norte, única representante do continente asiático na fase final em 66, era vista como uma selecção alienígena na prova, pelo total desconhecimento que o resto do mundo tinha acerca do seu valor. Nomes como Ring Jung-sun, Pak Doo-Ik, Han Bong Jin, Yang Song Guk e o guarda-redes Ri Chan Myong podiam ser famosos no seu país, mas eram completos desconhecidos para o resto do mundo. O facto de virem de um país comunista e extremamente fechado face a qualquer interferência estrangeira era a principal causa desse desconhecimento. Para além disso, havia a particularidade de a Coreia do Norte, enquanto nação, não ter relações diplomáticas com a Inglaterra e nem sequer ser reconhecida por esta. É que 12 anos antes, a Grã-Bretanha tinha participado na Guerra da Coreia. Para as autoridades britânicas o hasteamento da bandeira da Coreia do Norte e o tocar do hino significavam o reconhecimento daquela enquanto nação e uma afronta aos seu aliados da Coreia do Sul. A negação do visto de entrada aos norte-coreanos no país de Sua Majestade chegou a ser colocado em causa, o que, desde logo, fez com que os jogadores desse país se sentissem em território inimigo e receassem represálias. Talvez aos olhos de hoje esta questão pareça ridícula, mas no auge da Guerra Fria era uma questão que colocava os países em sobressalto.</p>
<p>Chollima era o nome pelo qual a selecção norte-coreana era conhecida. Chollima, conforme a mitologia coreana, é um cavalo alado, mas era também o nome de um movimento que visava acelerar e apoiar a reconstrução do país, após a guerra que dividiu as duas Coreias. Antes da viagem da selecção para Inglaterra, o Presidente Kim Il Sung concedeu aos jogadores uma audiência particular e fez questão de enfatizar no seu discurso que eles deveriam jogar, acima de tudo, para defender a honra da pátria. Para isso deveriam ser unidos, velozes e manter sempre um espírito combativo. À semelhança do Chollima.</p>
<p>O início, no entanto, não foi famoso: derrota por 3-0 frente à URSS, na altura vice-campeã da Europa. Um jogo que trouxe ao de cimo a inexperiência dos coreanos, surpreendidos pelo poderio soviético, mas também pela sua própria inexperiência em provas deste gabarito. Mas no jogo seguinte, frente ao Chile (que no Mundial anterior tinha ficado em 3.º lugar), os coreanos conseguiram um empate a um golo. Para se qualificarem para os quartos-de-final teriam de alcançar a missão impossível: derrotar a Itália.</p>
<p><strong>Dois jogos para a História</strong><br />
&#8220;A queda do Império Romano não foi nada, comparado com este resultado&#8221;. Foi assim que o jornal Northern Echo classificou a vitória por 1-0 da Coreia do Norte sobre a Itália. Poucos, na altura, se atreveram a contestar a afirmação. O golo de Pak Doo-Ik originou o resultado mais surpreendente de sempre em jogos de fases finais. Mais ainda do que a derrota do Brasil contra o Uruguai no Mundial de 1950 ou da Hungria contra a RFA na final de 54. Ou do que a vitória da própria Coreia do Sul frente à Itália e à Espanha no Mundial de 2002. Afinal, os norte-coreanos em 66 não eram treinados por Guus Hiddink, não jogavam em casa e não tinham a arbitragem a ajudá-los.</p>
<p>Aos humildes jogadores coreanos, depois deste resultado, estava prometida uma medalha por parte do presidente do seu país. Para os ricos e famosos jogadores italianos, como Rivera, Mazzola e Facchetti, a eliminação do Mundial após este jogo fez com que, ao desembarcarem no aeroporto de Génova, fossem recebidos com uma chuva de tomates podres atirados pelos seus conterrâneos. Nunca a Itália, na altura bicampeã mundial, havia sofrido uma derrota tão humilhante. Em consequência disso, a Federação Italiana de Futebol proibiu a partir da época seguinte a entrada de mais jogadores estrangeiros nos clubes. Era urgente promover a formação de jovens futebolistas nacionais de maneira a voltar ter uma selecção capaz de honrar a sua história. Essa proibição (que impediu, entre outras coisas, que Eusébio rumasse ao Calcio) durou até 1982, ano em que a <em>squadra azurra</em> voltou a conquistar um Campeonato do Mundo.</p>
<p>Nos quartos-de-final os norte-coreanos jogariam na cidade de Liverpool contra Portugal, que havia mandado para casa o campeão em título Brasil. A apoiar a selecção asiática, não havia coreanos, mas antes 3.000 habitantes de Middlesborough, a pequena cidade operária onde os jogadores e equipa técnica tinham ficado alojados na primeira fase do torneio e com a qual acabaram por estabelecer grande empatia. Cada treino da selecção fora assistido com entusiasmo pelos habitantes locais que faziam jus ao lema: &#8220;support your local team&#8221;. Os italianos, certos da sua qualificação, já tinham agendado a sua estadia em Liverpool num seminário jesuíta. Como tal não veio a acontecer, acabaram por ceder essa mesma estadia à selecção coreana. Educados num regime comunista e sem qualquer conhecimento da simbologia e iconografia cristãs, os coreanos nunca tinham visto a imagem de um homem pregado numa cruz com uma coroa de espinhos, mas a verdade é que ela estava presente em todos os quartos do seminário e aterrorizou o sono da grande maioria dos jogadores.</p>
<p><img class="attachment wp-att-2175 alignleft" style="margin-right: 8px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/06/eusebio-coreia-norte-mundial-66.jpg" alt="Coreia do Norte: Heróis Esquecidos" width="300" height="183" align="left" title="Coreia do Norte: Heróis Esquecidos" />O encontro contra Portugal foi, como todos sabemos, uma partida de duas faces. A Coreia do Norte, aos 25 minutos de jogo, já vencia por 3-0 e dominava o adversário com o mesmo tipo de futebol com que havia derrotado a Itália e com que havia prometido ao seu líder honrar o país: velocidade e espírito combativo, bem como uma disciplina táctica quase militar. O futebol, na altura, era jogado a um ritmo muito mais lento do que hoje em dia e, por isso, a rapidez com que os coreanos faziam correr a bola e pressionavam os adversários desorientava esses jogadores. Só que na selecção portuguesa de então estava Eusébio, o melhor jogador e marcador da prova, que até ao intervalo reduziu a desvantagem para 3-2. Na segunda metade, mais dois golos de Eusébio e um de José Augusto acabaram por permitir a reviravolta, a maior de sempre ocorrida num jogo de um Mundial. A importância que este jogo teve para a popularidade de Eusébio, principalmente em Inglaterra, não pode ser subestimada. Pelos 4 golos que marcou, pela reviravolta que, praticamente sozinho, operou no resultado, por ser um jogo a contar para o Campeonato do Mundo e por outro facto extremamente importante: cada vez que Eusébio marcava um golo, ia buscar a bola ao fundo das redes e corria com ela até ao meio-campo, rejeitando os abraços dos colegas, para permitir que o jogo fosse reiniciado o mais rapidamente possível. E só festejou, após marcar o golo que deu o 4-3 para Portugal.</p>
<p><strong>O regresso a casa</strong><br />
Se a tomatada com que os jogadores italianos foram recebidos em casa é um episódio célebre, já o que aconteceu com os norte-coreanos, após a derrota com Portugal, sempre esteve envolvido em mistério. Durante anos nunca mais se ouviu falar de qualquer um deles. Só recentemente, após um documentário britânico intitulado &#8221;O Jogo das Suas Vidas&#8221;, se descobriu o que realmente aconteceu. Inicialmente, os jogadores foram recebidos como heróis pelo regime e a população do seu país, não só pela vitória frente à poderosa Itália, mas pelo facto de se terem tornado na primeira selecção asiática a ultrapassar a primeira fase de um Mundial. No entanto, após o período de euforia, o governo da Coreia do Norte abriu uma investigação a todos os jogadores e condenou-os a serem deportados ou feitos prisioneiros. O motivo? A descoberta da forma como eles celebraram a vitória contra a Itália: com música, mulheres e álcool. Uma ofensa aos ideais seguidos pela ditadura de Kim Il Sung e uma imperdoável manifestação de fraqueza moral e de desonra. Pak Doo Ik, por exemplo, o principal herói da vitória contra a Itália e apelidado de &#8220;dentista&#8221; nesse país pela dor que o seu golo infligiu numa nação inteira, ficou dez anos a trabalhar como lenhador no distrito de Daepyong. Só após a ascensão ao poder de Kim Jong-il, que sempre fora fascinado pelos &#8220;heróis do Mundial&#8221;, é que estes tiveram direito a serem reabilitados, sendo-lhes concedidas casas estatais na capital e a possibilidade de excercerem cargos técnicos em diversas equipas. Pak Doo Ik teria mesmo direito a receber um apartamento de dois andares e o posto de seleccionador nacional durante uns anos. Dos jogadores coreanos desse Mundial, já só sete se encontram vivos. Graças ao documentário que sobre eles foi feito, obtiveram uma raríssima autorização para saírem do país e, na companhia da equipa técnica responsável pelo documentário, regressarem à cidade de  Middlesbrough. Quatro décadas após o &#8220;jogo das suas vidas&#8221;.</p>
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		<title>Garrincha &#8211; O Anjo de Pernas Tortas</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Apr 2009 13:46:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Nasceu numa favela, no seio de uma família com um pai alcoólico e 14 irmãos. Teve poliomielite e, devido a essa doença, sofreu um desvio na coluna que o deixou coxo para o resto a vida, com a perna direita 6 centímetros mais curta do que a outra. A alcunha de &#8220;Garrincha&#8221; veio do facto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nasceu numa favela, no seio de uma família com um pai alcoólico e 14 irmãos. Teve poliomielite e, devido a essa doença, sofreu um desvio na coluna que o deixou coxo para o resto a vida, com a perna direita 6 centímetros mais curta do que a outra. A alcunha de &#8220;Garrincha&#8221; veio do facto de se assemelhar a um pássaro tão frágil que bastava uma rabanada de vento para ser levado para longe. E foi assim a infância do melhor futebolista brasileiro de sempre, a seguir a Pelé.</p>
<p><strong>O ídolo do Botafogo e da selecção</strong><br />
Como todos os rapazes no Brasil, mesmo os coxos e franzinos, Manuel Francisco dos Santos, seu nome de registo, gostava de futebol e cedo começou a pedir aos irmãos e colegas para jogar com eles. No início todos lhe diziam para se ir embora, que um coxo como ele não servia para nada, muito menos para jogar à bola, mas quando alguém se atreve a colocá-lo na sua equipa, nos jogos de rua, o espanto é geral: o rapaz é um fenómeno. Um malabarista capaz de ultrapassar e humilhar todos os adversários que lhe tentam roubar a bola, como se fosse a coisa mais simples do mundo, até ao cruzamento final ou remate para golo. Apesar de ser também conhecido, entre os amigos e irmãos, como Mané (um nome que, no Brasil, se refere aos homens meio tolos ou ingénuos), com a bola nos pés ele é um génio.</p>
<p>Após ter jogado no Esporte Clube de Pau Grande, o rapaz, incentivado pelos irmãos e amigos que antes menosprezavam a sua habilidade para o futebol, vai fazer um teste ao Botafogo. O Vasco da Gama e o São Cristovão já o tinham rejeitado, por causa das pernas tortas e do desvio na coluna, mas o Botafogo não caiu no mesmo erro. Logo no primeiro treino em que esteve à experiência, Mané passou várias vezes pelo defesa Nílton Santos, jogador titular da selecção brasileira da época, colocando-lhe a bola entre as pernas. Para ele, fazer dribles aos profissionais que lhe apareciam à frente no Botafogo era exactamente o mesmo que aos colegas do Esporte Clube de Pau Grande. Seria, aliás, o próprio Nílson Santos a sugerir ao presidente do clube a contratação daquele rapaz desajeitado de 19 anos.</p>
<p>Depois de se tornar no maior ídolo do Botafogo e de ajudar o clube a vencer o Campeonato Carioca, em 1957, Mané começa a preparar a sua nova conquista: a selecção. Em 1958, um ano antes de começar o Mundial na Suécia, marca num jogo de preparação, disputado em Itália, um dos seus golos mais famosos ao serviço do Brasil: depois de fintar quatro adversários, incluindo o guarda-redes, fica com a baliza aberta para marcar. No entanto, talvez por achar que marcar assim seria demasiado fácil, espera que um outro adversário tente tirar-lhe a bola, para também o fintar e só depois acaba por rematar à baliza. Esta proeza valeu-lhe, no entanto, a perda da titularidade, pois o seleccionador Vicente Feola classificou esse lance como &#8220;irresponsável&#8221;. Talvez tivesse razão. Mas era também uma jogada que demonstrava de forma exemplar a natureza de Garrincha: jogar futebol pelo prazer de jogar, com uma despreocupação quase infantil em relação a questões tácticas ou ao nome dos adversários que enfrentava. Para ele o futebol era alegria e liberdade. Ou seja, por maior que fosse o seu talento, seria sempre um pesadelo para qualquer treinador que o orientasse. Já durante o Mundial, depois de ficar de fora nos dois primeiros jogos (tal como Pelé), vê um grupo de colegas fazer pressão junto do seleccionador para que ele e Pelé sejam titulares na terceira partida. E foi nesse jogo, em que o Brasil derrotou por 2-0 a União Soviética, que a lenda de Garrincha, autor dos dois passes para golo, nasceu para o mundo. Depois de, na meia-final, bater por 5-2 a França de Kopa e Fontaine, a equipa aplicaria o mesmo resultado na final, frente à selecção anfitriã, com Garrincha a destacar-se uma vez mais pelas jogadas que deram origem aos dois golos de Vavá. Foi o primeiro Mundial ganho pelo Brasil.</p>
<p><strong><a href="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/04/garrincha-brasil.jpg"><img class="size-medium wp-image-1746 alignleft" style="margin-left: 8px; margin-right: 8px;" title="garrincha-brasil" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/04/garrincha-brasil-278x201.jpg" alt="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" width="278" height="201" /></a>O Mundial de Garrincha</strong><br />
Em 1962, o &#8220;anjo de pernas tortas&#8221;, como já era conhecido, chegou ao Mundial do Chile na mesma condição em que saíra da Suécia, 4 anos antes: como estrela maior, juntamente com Pelé, da selecção brasileira. No entanto, depois de Pelé sofrer uma lesão que o afastaria para o resto da competição, logo no segundo jogo, passou a ser Garrincha o líder da equipa. Um líder cuja influência, em termos de prestação individual na conquista de um Mundial, equipara-se à que Maradona teve para a Argentina no México 86. Foram de Garrincha as jogadas que deram origem aos golos de Amarildo (o substituto de Pelé) na vitória por 2-1 sobre a Espanha, na primeira fase. Nos quartos-de-final, marcou dois golos na vitória de 3 a 1 sobre a Inglaterra, com o outro golo do Brasil, marcado por Vavá, a ser conseguido após a recarga a um remate de Garrincha. Um episódio curioso neste jogo: durante a partida, um cão invadiu o campo e obrigou à sua interrupção. Depois de vários jogadores das duas equipas tentarem apanhá-lo, sem êxito, seria o avançado inglês Jimmy Greaves a conseguir segurá-lo. No entanto, como recompensa, viu o cão urinar-lhe em cima. Consta que Garrincha se divertiu tanto com a situação que acabou por ficar com o animal. Nas meias-finais, mais dois golos do &#8220;anjo de pernas tortas&#8221;, na vitória por 4-2 sobre a selecção anfitriã. Garrincha seria expulso no final dessa partida, depois de agredir um adversário que passara o jogo todo a agredi-lo. No entanto, o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, recorreu da expulsão e o jogador acabaria por receber a autorização da FIFA para disputar a final contra a Checoslováquia. Resultado: 3-1 para o Brasil. No final do torneio, Garrincha seria eleito o melhor jogador da prova. Ainda nesse ano, liderou o Botafogo na conquista de mais um Campeonato Carioca, batendo na final o Flamengo.</p>
<p>O ano de 1962 não acabaria sem antes ser realizado, por Joaquim Pedro de Andrade, um documentário sobre a vida de Garrincha, e cujo título traduzia na perfeição aquilo que o jogador representava na altura: &#8220;Garrincha &#8211; A Alegria do Povo&#8221;.</p>
<p><strong>O início da decadência</strong><br />
Em 1963 Garrincha parecia estar no topo do mundo, sendo mesmo disputado por dois dos maiores clubes italianos (Inter e Ac Milan). A transferência só não ocorreu porque o Botafogo não ficou satisfeito com as propostas feitas. No entanto, foi nesse ano que começaram a surgir os problemas no joelho do jogador, depois de ter actuado várias vezes pelo seu clube sem estar nas melhores condições físicas. Na altura, o Botafogo fazia várias excursões e uma coisa era o cachet que cobrava se jogasse com Garrincha, outra coisa (ou seja, metade) era o cachet que cobrava se &#8220;a alegria do povo&#8221; não jogasse. Uma prática que o Benfica também conheceu, nos tempos de Eusébio, e que também obrigou o &#8220;pantera negra&#8221; a jogar várias vezes lesionado. No ano seguinte, surgem as primeiras lutas de Garrincha com o seu clube. Devido à sua recusa em ir nalgumas excursões, foi multado em 50% do salário. As relações começaram a deteriorar-se de tal forma que Garrincha chega a ser chamado de &#8220;moleque&#8221; no próprio boletim do clube. Em 1966 dá-se a inevitável ruptura: o clube vende-o ao Corinthians, sem sequer avisar o jogador.</p>
<p>Mesmo assim, nesse ano, ele disputa o seu terceiro Mundial, em Inglaterra. É nessa competição (onde marca um golo na vitória sobre a Bulgária) que sofre a sua única derrota, em 60 jogos, com as cores da selecção brasileira, no encontro que opôs o Brasil à Hungria: 3-1 foi o resultado favorável aos magiares. Ficou, no entanto, um registo histórico. Como Pelé não jogou essa partida e Garrincha não participou no jogo em que a sua selecção perdeu com Portugal, a &#8220;canarinha&#8221; pode-se orgulhar de nunca ter perdido um único jogo no qual participassem aqueles que foram os seus dois maiores representantes.</p>
<p><strong>O fim da alegria</strong><br />
Depois de deixar o Corinthians, jogou ainda no Atlético Júnior (da Colômbia), no Flamengo, no Olaria e em vários clubes menores e amadores de outros países sul-americanos. Mas o &#8220;anjo de pernas tortas&#8221; já não era o mesmo. E se ainda era conhecido como &#8220;a alegria do povo&#8221;, era mais pelas memórias que o seu nome projectava do que pela capacidade de impor o seu futebol. Nas bancadas, já não era alegria que se sentia, mas angústia pela queda do mito que os espectadores viam a arrastar a sombra pelos relvados. Para além das lesões no joelho, agora havia outro mal a afectá-lo: o alcoolismo. O mesmo que o levou a ter o desastre de viação, em Abril de 1969, do qual resultaria a morte da mãe da sua segunda mulher. Em Dezembro de 1973 ainda foi realizado no Maracanã o jogo de despedida de Garrincha. Um jogo que colocou, frente a frente, a selecção do Brasil e uma outra da FIFA, composta principalmente por jogadores argentinos e uruguaios. Seria o último suspiro de dignidade de Garrincha, que saiu ovacionado a meio do jogo, em direcção ao túnel do estádio e do esquecimento público. Só voltaria a ser notícia em Janeiro de 1983, quando morreu, bêbedo e só, numa ruela do Rio de Janeiro, vítima de cirrose (tal como o seu pai). No velório, os familiares de Garrincha acusaram Vanderléia, a sua terceira mulher, de ter matado o antigo jogador e só não a conseguiram espancar devido à intervenção policial. Mas como é evidente, Garrincha foi apenas vítima de si mesmo. Do seu carácter ingénuo e do amor que sentia pelo futebol. Enquanto jogador, só se preocupava em desfrutar do prazer que sentia em jogar, negligenciando por completo o valor de mercado que o seu nome tinha e que Pelé, por exemplo, tão bem aproveitou. O final de Garrincha assemelhou-se bastante ao de George Best, não só pela forma com que os dois encaravam o futebol, mas também pela incapacidade de resistirem ao sexo feminino (Garrincha teve 14 filhos das 3 mulheres com quem viveu, e sabe Deus quantos mais teve de outras com quem se relacionou) e, claro, à bebida. Mas o destino do brasileiro foi ainda mais trágico. Best tinha consciência daquilo que era; Garrincha, não.</p>
<p>Tal como Carlos Drummond de Andrade escreveu após a sua morte, &#8220;se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.&#8221;</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=qx1jfndUXqk"><img src="http://img.youtube.com/vi/qx1jfndUXqk/default.jpg" width="130" height="97" border title="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" alt="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" /></a><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=FaVEexI8gfM"><img src="http://img.youtube.com/vi/FaVEexI8gfM/default.jpg" width="130" height="97" border title="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" alt="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" /></a><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=Tk2C4LUvaxc"><img src="http://img.youtube.com/vi/Tk2C4LUvaxc/default.jpg" width="130" height="97" border title="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" alt="Garrincha   O Anjo de Pernas Tortas" /></a><br />
<span style="color: #888888;">A memória de Garrincha</span></p>
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		<title>Paul Gascoigne – A Glória e a Degradação</title>
		<link>http://www.jogodearea.com/2008/10/paul-gascoigne-a-gloria-e-a-degradacao/</link>
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		<pubDate>Tue, 28 Oct 2008 22:11:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Reino Unido]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre gostei de equipas de futebol inglesas, mas nunca morri de amores pela selecção inglesa. Com uma excepção: a selecção que disputou o Mundial de 1990 em Itália. A selecção de Gary Lineker, John Barnes, Chris Waddle, Peter Beardsley, David Platt e… Paul Gascoigne. 
O Mundial de 1990
Desde que me lembro, o Mundial de 90 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="justify;"><span style="Verdana;"><span style="small;">Sempre gostei de equipas de futebol inglesas, mas nunca morri de amores pela selecção inglesa. Com uma excepção: a selecção que disputou o Mundial de 1990 em Itália. A selecção de Gary Lineker, John Barnes, Chris Waddle, Peter Beardsley, David Platt e… Paul Gascoigne. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="justify;"><span style="Verdana;"><span style="small;"><strong>O Mundial de 1990</strong><br />
Desde que me lembro, o Mundial de 90 foi o único em que estive verdadeiramente a puxar pela vitória da selecção inglesa (Portugal esteve ausente da fase final). Isso deveu-se, em grande parte,<span style="yes;"> </span>às exibições de Gascoigne (também conhecido por “Gazza”), uma espécie de jogador todo-o-terreno, ou um “carregador de piano”, como se dizia antigamente, capaz de liderar uma equipa, não só como maestro, mas também como executante. Gascoigne, então com 23 anos, pareceu sempre, ao longo do Mundial, um jogador em estado de graça. Como se estivesse a viver o momento mais feliz da sua vida. Enquanto espectador, chegava a ser vibrante testemunhar a forma como jogava, sempre com um disponibilidade física que parecia não ter limites, aliada a uma grande capacidade técnica. Isso viu-se principalmente no épico encontro dos quartos-de-final (talvez o melhor do torneio) em que a Inglaterra bateu os Camarões por 3-2, após prolongamento. A selecção inglesa acabaria eliminada nas meias-finais pela Alemanha, no desempate por grandes penalidades, mas durante esse encontro Gascoigne foi superior ao seu adversário directo: Lottar Matthäus. E o capitão germânico estava então no auge da sua carreira. É, aliás, desse jogo que guardo uma das imagens mais marcantes de todo o Mundial: o choro convulsivo de Gascoigne quando recebeu o cartão amarelo que o impediria de jogar a final, caso a Inglaterra se qualificasse para ela (já tinha recebido um cartão no jogo dos oitavos-de-final com a Bélgica).</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="justify;"><span style="Verdana;"><span style="small;"><strong><img class="attachment wp-att-2020 alignleft" style="margin-left: 8px; margin-right: 8px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/05/paul-gascoigne-tottenham.jpg" alt="Paul Gascoigne" width="290" height="180" align="left" title="Paul Gascoigne – A Glória e a Degradação" />A popularidade em Inglaterra</strong><br />
Antes de se tornar mundialmente famoso graças a esse Mundial, Gascoigne já havia há muito impressionado os adeptos do seu país. Na Europa, devido ao impedimento de as equipas inglesas participarem em provas internacionais após a tragédia de Heysel Park, é que era quase desconhecido, apesar de a sua transferência do Newclaste para o Tottenham, em 1988, ter sido na altura a mais cara do futebol britânico (2.3 milhões de libras). Essa transferência assinalou também a primeira polémica em relação ao jogador. É que, durante o defeso, ele tinha dado a sua palavra a Alex Ferguson em como aceitaria a proposta do Manchester United em ir jogar para os <em>red devils</em>. Ferguson era já o treinador do Manchester, mas a equipa na altura não era o colosso que havia sido nos anos 60 e que viria novamente a ser a partir da década de 90. E na época, a escolha pelo Tottenham não parecia assim tão descabida. Gary Lineker faria o mesmo, depois de sair do Barcelona. E foi no Tottenham, sob o comando de Terry Venables, que Gazza se tornou num dos melhores e mais populares jogadores ingleses do final do anos 80 e início de 90. Popular ao ponto de chegar a gravar música e alcançar êxito com o single <em>&#8220;Fog on the tyne&#8221;</em>. Ao serviço do Tottenham, acabou por conquistar a Taça de Inglaterra na final de 1990/91 contra o Nottingham Forest do lendário Brian Clough. No entanto, essa final assinalou também o início de uma série de graves lesões no joelho que Gascoigne iria sofrer ao longo da sua carreira, nomeadamente na Lázio, para onde já tinha acordado transferir-se na época seguinte. Em 1991/92 praticamente não jogou, não só devido a essa lesão, mas também por causa de um acidente sofrido num clube nocturno (o primeiro de muitos). </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="justify;"><span style="Verdana;"> <span style="small;"><strong>Em Itália e na Escócia</strong><br />
A sua estreia com a camisola da Lazio ocorreu em Setembro de 1992, numa partida contra o Génova, transmitida tanto pela televisão italiana, como pela inglesa. Apesar de as suas exibições, ao longe de três épocas na formação italiana, terem ficado aquém do esperado, a sua entrega durante as partidas, o seu carisma natural e o facto de ter marcado um golo importante à ultra-rival AS Roma no penúltimo minuto de uma partida, ajudou a cimentar a sua popularidade junto dos adeptos. Mas para Gazza, a transferência para o Glasgow Rangers em 1995/96 foi como que um reiniciar da sua carreira. Longe dos <em>media</em> italianos, para quem as suas “proezas” fora de campo sempre foram mais importantes do que aquilo que fazia quando jogava, efectuou logo uma das suas melhores épocas de sempre, conquistando o título escocês, a Taça e a admiração dos adeptos. Não foi por acaso que foi eleito o melhor jogador do campeonato. Nessa época ficou também famosa a cena em que o árbitro Dougie Smith deixou cair o cartão amarelo no relvado. Gascoigne, num acto típico do seu temperamento provocador, pegou no cartão e mostrou-o o árbitro, como se o estivesse a penalizar, o que não agradou muito a Smith, pois logo de seguida mostrou também o cartão ao jogador. Ainda nesse ano, durante o campeonato da Europa disputado em Inglaterra, Gazza comandou a selecção do seu país até às meias-finais (onde, para variar, seria eliminada pela Alemanha através do desempate por grandes penalidades), marcando até um dos mais belos golos de toda a História das fases finais de Europeus, frente à Escócia. Numa jogada individual só ao nível dos predestinados, ”Gazza” recebeu a bola com o peito dentro da área, passou-a por cima de Hendry e rematou de pronto, batendo o guarda-redes Goram. Em 2002, ano do último jogo realizado no mítico estádio de Wembley (demolido no ano seguinte), esse golo de Gascoigne foi eleito o melhor de sempre marcado naquele recinto londrino. Na época seguinte, voltou a ganhar o título e a Taça da Liga escocesa, marcando dois golos na final. Tudo parecia estar no melhor dos mundos: Gazza exibia todas as qualidades que manifestara no Tottenham e na selecção inglesa, encantava os adeptos da sua equipa e colocava os adversários (jogadores e adeptos) à beira de um ataque de nervos e prometia marcar uma era na História do Glasgow Rangers e do próprio campeonato escocês. Até que, em Janeiro de 1998, viu a sua vida ser ameaçada pelo IRA, depois de, numa partida contra o Celtic, ter feito um gesto considerado ofensivo para os adeptos do rival do Glasgow e a população católica em geral. Talvez por isso, acabou por aceitar o convite do Middlesborough para, em Março do mesmo ano, regressar a Inglaterra e ajudar a equipa a subir da Division One para a Premier League. Essa foi, no entanto, a única conquista que obteve no Middlesborough e, a longo prazo, a sua saída da Escócia acabou por representar um novo declínio na sua carreira. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="justify;"><span style="Verdana;"><span style="small;"><strong>A curva descendente</strong><br />
Depois do Middlesborough, transferiu-se para o Everton em 2000/2001, onde voltou a não ser feliz. Ainda foi parar ao Burnley, da Divison One, no fim da temporada 2001/2002. Em Janeiro de 2003 assinou um contrato como treinador/jogador com um clube chinês, o Gansu Tianma, mas não ficou lá muito tempo. A bebida e a depressão já há muito mandavam na sua vida. Depois de, em Abril desse ano, ir para os EUA para procurar tratamento, nunca mais regressou ao seu clube. Nesse mesmo ano ainda voltou a Inglaterra e esteve, imagine-se, à experiência no Wolverhampton, mas sofreu a humilhação de não ter sido aprovado. </span></span><span style="'Times New Roman';">Depois de pendurar as botas, o comportamento de eterno “rebelde sem causa” com atracção pela violência e pela degradação tornou-se ainda mais perigoso. Pancadaria em bares, tentativas de suicídio, overdoses, bebedeiras dia sim dia sim e violência doméstica têm sido as notícias associadas a Gascoigne nos últimos anos. É verdade que o jogador nunca foi um santo: quando festejava golos era provocador para os adeptos adversários, chegou a arrotar propositadamente numa entrevista em directo para a televisão italiana, e quando Glenn Hoddle o afastou da convocatória para o Mundial de 1998 (por ter sido apanhado a beber convulsivamente em pleno estágio), fez o favor de entrar no quarto do seleccionador inglês e dar largas às suas fantasias mais violentas. Custa-me, no entanto, que um jogador que em tempos admirei, e que tinha talento para ficar na história como um dos melhores da sua geração, se tenha deixado influenciar cegamente pela mediatização da sua imagem de <em>“bad boy”</em>. Mas nisso, não foi o primeiro nem será o último.</span></p>
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		<title>Yashin, o «Aranha-Negra»</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Sep 2008 14:24:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Leste Europeu]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi o único guarda-redes, até hoje, a conquistar o prémio de melhor futebolista europeu do ano, em 1963. A alcunha com que ficou conhecido devia-se ao facto de equipar sempre de preto. E de parecer ter oito braços quando defendia o indefensável.
À descoberta de Yashin
A primeira vez que ouvi falar de Lev Ivanovich Yashin foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="none"><span style="Times New Roman;">Foi o único guarda-redes, até hoje, a conquistar o prémio de melhor futebolista europeu do ano, em 1963. A alcunha com que ficou conhecido devia-se ao facto de equipar sempre de preto. E de parecer ter oito braços quando defendia o indefensável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="none"><span style="Times New Roman;"><strong>À descoberta de Yashin<br />
</strong>A primeira vez que ouvi falar de Lev Ivanovich Yashin foi em Maio de 1986, num artigo de imprensa sobre o guarda-redes Rinat Dassaev. Nesse artigo, onde se falava sobre alguns dos melhores jogadores que iriam participar no Mundial do México no mesmo ano, Dassaev, capitão e guarda-redes da ex-URSS, era descrito como o <em>&#8220;herdeiro de Yashin&#8221;</em>. Na altura eu era fanático por guarda-redes, e ainda hoje recordo muito mais facilmente os grandes guarda-redes dessa época do que de qualquer outra: Joel Bats da França, Jean-Marie Pfaff da Bélgica, Peter Shilton de Inglaterra, Pat Jennings da Irlanda do Norte (que disputou esse Mundial já com 41 anos), Toni Schummacher da RFA (que 4 anos antes, depois de quase ter matado o francês Battiston ao chocar violentamente com este durante uma jogada na meia-final em que a RFA eliminou a França, foi eleito a personalidade mais odiada em França, à frente de Hitler), Josef Mlynarczyk da Polónia (e do FC Porto), o nosso Manuel Bento e, claro, Rinat Dassaev, &#8220;o herdeiro de Yashin&#8221;. A partir dessa referência fui então à procura de dados biográficos e imagens do grande guarda-redes soviético. E, mesmo numa altura em que o passado ainda não estava à mão de semear, como hoje em dia com a internet, não demorei muito a compreender a importância que Yashin tinha tido na História do futebol.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="none"><span style="Times New Roman;"><strong><img class="attachment wp-att-2066 alignleft" style="margin-left: 8px; margin-right: 8px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/05/lev-yashin-2.jpg" alt="Yashin, o «Aranha Negra»" width="290" height="188" align="left" title="Yashin, o «Aranha Negra»" />Estilo e estatuto</strong><br />
As primeiras impressões, como todos sabemos, são marcantes. E a primeira impressão que tive ao ver imagens de Yashin foi de admiração. Pela figura imponente que ele tinha e à qual o equipamento todo negro transmitia uma aura ainda mais mítica. Pela forma simultaneamente ágil e autoritária como se movimentava na grande área e que serviu, na altura, de modelo a muitos outros guarda-redes. Yashin foi dos primeiros a socar a bola nos momentos de maior aperto junto da pequena área, a comandar e organizar os seus defesas nos lances de bola parada ou de perigo para a sua baliza, e a iniciar as jogadas de contra-ataque da sua equipa, lançando rapidamente a bola na direcção dos companheiros. Práticas muito comuns hoje em dia, mas que no seu tempo foram consideradas pioneiras. A famosa frieza de Yashin em campo devia-se, segundo o próprio, a um ritual a que ele se submetia antes de jogos importantes: fumava um cigarro para acalmar a tensão e, para soltar os músculos, tomava uma bebida que o próprio apelidava de <em>&#8220;um bocado forte&#8221;</em> (eu apostaria que era vodka, mas posso estar enganado). Rituais que muitos outros grande jogadores também praticavam, nomeadamente Cruyff (em relação aos cigarros) e Matateu (em relação à bebida, embora este preferisse a cerveja, no intervalo dos encontros). Mas houve também por uma imagem que nunca deixou de me impressionar e que diz respeito até a um golo sofrido por Yashin, durante um jogo contra Portugal no Mundial de 66. Depois de Eusébio lhe marcar de penalti o golo que daria a vitória à nossa selecção no jogo para o 3º e 4º lugar, a reacção do guarda-redes soviético foi&#8230; cumprimentar o seu adversário. Não era fácil marcar um penalti a Yashin. Afinal, ele defendeu cerca de 150 ao longo da carreira, muito mais do que qualquer outro guarda-redes em jogos oficiais. Mas o que sobressai nessa manifestação de desportivismo é a forma espontânea com que ele enalteceu o mérito do seu opositor. Estes gestos, em eventos como o Campeonato do Mundo, têm sempre um significado especial. E mais significado tinham numa altura em que a Europa estava dividida pela Cortina de Ferro, e em que Portugal e a URSS não eram propriamente aliados políticos. Mas para mim, este gesto ganhou ainda mais importância depois de ter lido a opinião de Yashin sobre esse histórico momento que foi a presença do primeiro homem no espaço, o astronauta e seu compatriota Yuri Gagarin: <em>&#8220;A alegria de ver Yuri Gagarin no espaço só é superada pela alegria de defender um penalti&#8221;.</em> A admiração que eu sinto por certos guarda-redes não resulta apenas da eficácia com que eles se lançam às bolas e defendem os remates adversários. Por vezes surge até da forma como reagem nos golos sofridos, porque o mais difícil é encontrar um guarda-redes que até a sofrer golos consiga ter classe. Que até depois de sofrer um golo consiga transmitir confiança à sua equipa e impor respeito aos adversários. Yashin era um desses guarda-redes. Em campo era ele o líder da sua equipa (fosse o Dínamo de Moscovo ou a selecção soviética) e só um guarda-redes que consegue atingir esse estatuto. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="none"><span style="Times New Roman;"><strong>Declínio e recuperação</strong><br />
O ponto mais baixo da carreira de Yashin foi durante o Mundial de 1962, quando foi considerado o principal responsável pela má campanha da sua selecção. Tanto a imprensa soviética como a ocidental eram unânimes em considerar que ele estava em declínio e, durante algum tempo, o próprio Yashin parecia acreditar no que sobre ele escreviam, considerando a hipótese de deixar o futebol. No entanto, no ano seguinte faria provavelmente a melhor época da sua carreira, sofrendo apenas 6 golos em 27 jogos e alcançando mais um feito que nenhum outro jogador na sua posição conseguiu repetir até hoje: vencer a Bola de Ouro, prémio para o melhor futebolista europeu do ano. Numa partida disputada contra a Itália, em Roma, na fase de qualificação para o Europeu do ano seguinte, Yashin fez uma das melhores exibições da sua carreira, defendendo até um penalti de Sandro Mazzola. No final do jogo, o próprio Mazzola, um dos melhores jogadores italianos da década de 60 e figura histórica do Inter, diria <em>&#8220;o Yashin joga melhor do que eu&#8221;.</em> Em 1966, a mesma imprensa que quatro anos antes o havia considerado acabado para o futebol, elegeu-o como o melhor guarda-redes do Campeonato do Mundo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="none"><span style="AR-SA;"><strong>O guarda-redes do século</strong><br />
Apesar de ter sido um dos melhores guarda-redes da História do futebol (em 1998, numa eleição realizada pela FIFA, foi mesmo eleito o melhor guarda-redes do século XX), Yashin começou a carreira no hóquei em gelo, defendendo a baliza da equipa da fábrica onde trabalhou durante a Segunda Guerra Mundial, no início da adolescência. Para o homem que foi eleito em 1999 como o melhor desportista do século XX pelos jornalistas do seu país, o futebol só surgiu aos 14 anos. E mesmo quando surgiu não foi em regime de exclusividade, pois continuou a ser guarda-redes de hóquei em gelo até meados dos anos 50, um pouco à semelhança do nosso Jesus Correia, um dos cinco violinos do Sporting que, na mesma altura, conciliava o futebol com o hóquei em patins. Mas para Yashin o início da carreira no futebol não foi fácil, uma vez que só três épocas após a estreia é que conseguiu agarrar a titularidade no Dínamo de Moscovo, o único clube que conheceu ao longo da sua carreira profissional (1950-1971) e pelo qual venceu 5 campeonatos soviéticos (1954, 1955, 1957, 1959 e 1963) e 3 Taças (1953, 1967 e 1970). Foi ainda eleito o melhor jogador do campeonato do seu país por 14 vezes. Pela selecção soviética, que representou em 78 jogos entre 1954 e 1970, foi campeão Olímpico em 1956 (quando eram mesmo os melhores jogadores do mundo que iam à competição) e o primeiro Campeonato da Europa de países, em 1960, tendo sido finalista 4 anos depois (derrota contra a Espanha). Disputou os Campeonatos do Mundo de 1958, 1962, 1966 e 1970, embora na última edição tenha sido suplente de Anzor Kavazashvili. Depois da retirada do &#8220;Aranha Negra&#8221;, a União Soviética só voltaria a participar num Campeonato do Mundo em 1982, talvez porque só nessa altura conseguiu finalmente descobrir o seu &#8220;herdeiro&#8221;.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="none"><span style="AR-SA;">O troféu da FIFA que premeia o melhor guarda-redes nos Campeonatos do Mundo de futebol, e que foi entregue pela primeira vez no Mundial de 1994, tem o seu nome. Em 1986, no ano em que eu fiquei a saber quem ele era, foi-lhe amputada uma perna devido a uma lesão no joelho. Morreria quatro anos mais tarde, com 70 anos. </span></p>
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		<title>Ascensão e Queda de uma Selecção Mágica</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Aug 2008 11:17:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Selecções Nacionais]]></category>

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		<description><![CDATA[Na história dos campeonatos do mundo de futebol, nunca houve uma selecção tão dominadora como a Hungria de 1954. Uma selecção que, antes de chegar a esse campeonato do mundo, não perdia um jogo há quatro anos e que, durante a competição, marcou 27 golos em 5 partidas. E não foi campeã do mundo.
O sistema [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na história dos campeonatos do mundo de futebol, nunca houve uma selecção tão dominadora como a Hungria de 1954. Uma selecção que, antes de chegar a esse campeonato do mundo, não perdia um jogo há quatro anos e que, durante a competição, marcou 27 golos em 5 partidas. E não foi campeã do mundo.</p>
<p><strong>O sistema de grupos</strong><br />
Em 1954, no ano em que a FIFA celebrou o seu 50º aniversário, disputou-se o 5º Mundial de Futebol, organizado pelo país que já na altura sediava aquela instituição: a Suíça. Foi o primeiro campeonato do mundo a ter cobertura televisiva. Competiram nessa prova 16 selecções, divididas inicialmente em 4 grupos. Cada um dos grupos era constituído por duas selecções classificadas nos oito primeiros lugares do ranking da FIFA (Áustria, Brasil, Inglaterra, França, Hungria, Itália, Uruguai e Turquia, esta última em substituição da Espanha, uma vez que a tinha eliminado na fase de qualificação) e por outras duas selecções que se tivessem apurado. Mas em vez do tradicional sistema de todos contra todos, cada selecção disputou apenas 2 jogos nessa fase. As selecções classificadas nos oito primeiros lugares do ranking, como cabeças-de-série, não jogavam entre si, e as outras duas selecções apuradas só jogavam contra os cabeças-de-série. Apenas em caso de igualdade pontual é que um terceiro jogo seria realizado. Só por curiosidade, este foi também o primeiro mundial em que a selecção brasileira se equipou de camisola amarela e calção azul, pois o equipamento anterior (camisola branca e calção azul, usado desde 1919) foi considerado um equipamento azarado, após a derrota com o Uruguai no Mundial de 1950<span style="Times New Roman;">.</span></p>
<p><strong>Os mágicos magiares</strong><br />
Capitaneada por Ferenc Puskás, considerado o melhor jogador do mundo na altura, a Hungria partia como grande favorita. Tinha sido campeã olímpica dois anos antes em Helsínquia, derrotando a Jugoslávia na final por 2-0. Tinha ganho o Campeonato da Europa Central em 1953, derrotando na final a Itália por 3-0. E tinha ganho por 6-3 à Inglaterra em Wembley, também em 1953, resultado que ficou para a História como a primeira derrota sofrida pela selecção inglesa no seu estádio nacional. No ano seguinte voltariam a derrotar os ingleses em Budapeste por 7-1, ainda hoje a maior derrota de sempre sofrida pela Inglaterra. Na fase final do Campeonato do Mundo, a Hungria ficou no mesmo grupo que a Turquia, a Coreia do Sul e a República Federal Alemã (RFA), um dos dois estados da Alemanha dividida pelos aliados em 1949. Contra a Coreia da Sul, a Hungria venceu por 9-0, um resultado que ainda hoje se mantém como o mais desnivelado em jogos a contar para o Campeonato do Mundo, juntamente com o 9-0 da Jugoslávia frente ao Zaire, em 1974, e o 10-1 da mesma Hungria a El Salvador, em 1982. Contra a RFA, que só tinha sido readmitida como membro da FIFA quatro anos antes, a Hungria venceu por 8 a 3, mas sofreu um grave contratempo: a lesão de Puskás, provocada por Werner Liebrich, e que obrigou os húngaros a ficar privados do seu líder nos dois jogos seguintes. Apesar dessa derrota, a RFA qualificou-se juntamente com a Hungria para os quartos-de-final, pois ganhou os dois jogos efectuados com a Turquia: o primeiro por 4 a 1 e o do play-off por 7-2.</p>
<p>Nos quartos-de-final a Hungria bateu outro candidato ao título, o Brasil, por 4 a 2, num jogo de tal forma intenso e violento que ficou conhecido como &#8220;A Batalha de Berna&#8221;. Não só pelo que ocorreu durante a partida (três expulsões e várias cenas de pancadaria), mas também pelo que se passou após o apito final do árbitro, com Puskás a ser acusado de ter acertado com uma garrafa num jogador brasileiro e os companheiros deste a invadirem os balneários dos húngaros e a prolongar a luta fora de campo. Pelo menos um jogador húngaro ficou inconsciente, e o seleccionador Gusztáv Sebes levou quatro pontos na cabeça depois de ter sido atingido por uma garrafa partida. Nessa mesma fase, a RFA, onde jogadores como Helmut Rahn, Hans Schfer e o capitão Fritz Walter começavam a notabilizar-se, derrotou a Jugoslávia por 2-0. Nos outros jogos, o Uruguai derrotou a Inglaterra por 4-2 e a Áustria venceu a Suíça por 7-5, no jogo com mais golos marcados até hoje em fases finais de campeonatos do mundo.</p>
<p>Nas meias-finais, enquanto a RFA derrotou a Áustria por 6-1, mostrando-se uma formação cada vez mais confiante sob a direcção do técnico Sepp <span style="Times New Roman;">Herberger</span>, a Hungria, ainda sem Puskás, mas com Zoltn Czibor, Nndor Hidegkuti, Jzsef Bozsik e Sndor Kocsis (o melhor marcador da prova com 11 golos), bateu o Uruguai por 4-2, após prolongamento, num dos mais espectaculares jogos da competição. Talvez hoje em dia o facto de vencer o Uruguai não pareça particularmente relevante, mas na altura significava bater uma selecção que havia ganho todos os Mundiais que tinha disputado e que ainda não tinha perdido qualquer jogo em fases finais. Entre as vitórias nos Mundiais de 1930 e 1950, o Uruguai tinha feito boicote ao Mundial de Itália em 1934, como resposta ao facto de muitas selecções europeias se terem recusado a participar no Mundial que o próprio Uruguai havia organizado 4 anos antes. Quanto ao boicote ao Mundial de 1938, este deveu-se ao facto de a escolha da França como país organizador ir contra ao acordo existente de alternar a organização de Mundiais entre a Europa e a América do Sul.</p>
<p><strong><img class="attachment wp-att-2060 alignleft" style="margin-left: 8px; margin-right: 8px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/05/world-cup-1954-switzerland.jpg" alt="Ascensão e Queda de uma Selecção Mágica" width="280" height="180" align="left" title="Ascensão e Queda de uma Selecção Mágica" />«O milagre de Berna»</strong><br />
Na final, disputada no Wankdorf Stadium, em Berna, perante 60 mil espectadores, a Hungria era obviamente favorita. Não só por contar novamente com Puskás, ainda que não totalmente recuperado da lesão. Não só pelos adversários fortíssimos que havia deixado pelo caminho (Brasil e Uruguai). Não só pela estrondosa vitória que havia infligido à RFA na primeira fase do torneio. Acima de tudo, por ser uma equipa que praticava um futebol dominador e que estava imbatível há 32 jogos (ainda hoje, recorde absoluto em termos de selecções). E, na verdade, durante os primeiros minutos de jogo, tudo parecia indicar que a vitória não lhe escaparia. É que bastaram seis minutos para Puskás inaugurar o marcador e mais dois para Czibor dilatar a vantagem, num golo muito consentido pelo guarda-redes alemão Toni Turek. A questão que se colocava na altura já nem era em relação ao vencedor da partida, mas em relação aos números com que a Hungria iria ganhar. Entre os adeptos alemães, para quem os anos do pós-Guerra haviam sido devastadores, o sentimento de impotência da sua selecção perante os húngaros era aceite com naturalidade. Só que aos dez minutos de jogo Max Morlock reduziu a desvantagem. E aos 19 Helmut Rahn empatou a partida. Quatro golos em menos de 20 minutos, com tudo a voltar à estaca zero. Na RFA era principalmente através dos relatos do famoso radialista Herbert Zimmermann que os alemães seguiam a proeza dos seus jogadores. E se há algo que esses relatos transmitem é, curiosamente, a admiração profunda que Zimmermann sentia pela qualidade de futebol da selecção húngara. Uma admiração que acabava por dar uma dimensão ainda maior à proeza que os jogadores alemães estavam a cometer, à forma como resistiam ao caudal ofensivo dos &#8220;mágicos magiares&#8221;. Nesse momento não eram só esses 11 jogadores, mas toda uma nação que estava a recuperar o orgulho e a reerguer-se literalmente das cinzas, após a capitulação sofrida na II Guerra Mundial.</p>
<p>Até que a seis minutos do fim da partida, Rahn voltou a marcar, tornando assim real o que antes do jogo parecia impensável: a derrota da Hungria. A importância que esse golo teve para a própria recuperação económica da sociedade alemã está espelhado na cena final do filme <em>&#8220;O casamento de Maria Braun&#8221;</em>, de Rainer Werner Fassbinder, sobre a Alemanha do pós-guerra. No preciso momento em que o radicalista Herbert Zimmermann grita golo de Rahn, o par de protagonistas principais do filme morre num acidente doméstico. Com esse golo fechava-se um dos mais miseráveis e humilhantes capítulos na história da Alemanha e iniciava-se um novo capítulo: de prosperidade económica e crença no futuro e na ideologia da RFA. E quem acha que a metáfora é exagerada, é porque ainda não compreendeu porque é que o futebol foi o maior fenómeno de massas do século XX. A dois minutos do fim do jogo, Puskás ainda colocou a bola no fundo das redes da baliza alemã, mas o golo seria anulado por indicação do fiscal de linha, já depois de o árbitro ter apontado para o centro do terreno. Pouco depois, a Alemanha sagrar-se-ia pela primeira vez na sua história Campeã do Mundo de futebol. E não seria a última vez que derrotaria na final a grande favorita à vitória: precisamente 20 anos depois seria a Holanda de Cruyff, Rep, Rosenbrink e Neeskens a sofrer o mesmo destino de Puskás e restantes mágicos magiares.</p>
<p><strong>O regresso a casa</strong><br />
No regresso à Alemanha, feito por comboio, os jogadores da selecção foram recebidos como deuses pelos seus conterrâneos. Não era caso para menos: eles tinham derrotado aquela que era provavelmente a melhor equipa de futebol de sempre. Anos mais tarde, no entanto, começaram a surgir acusações acerca do uso de doping por parte dos alemães. E em 2004, num documentário televisivo realizado a propósito do 50º aniversário desse encontro, o historiador Guido Knopp afirmou que os jogadores alemães tinham injectado substâncias dopantes no intervalo do jogo, usando seringas que haviam pertencido a um médico desportivo da União Soviética. Verdade ou não, o certo é que após o torneio alguns jogadores alemães começaram a sofrer de icterícia. No mesmo ano, uma reportagem para uma outra televisão alemã mostrou imagens que tentavam provar que o golo de Puskás que daria o empate a escassos minutos do fim foi legal. Independentemente da veracidade ou não destas afirmações, o que não pode ser negada é a importância que este encontro teve na História desportiva e política da RFA. Para a Hungria deu-se o efeito contrário: nunca mais conseguiu ter uma selecção tão forte. Apenas dois anos mais tarde, após a ocupação soviética que pôs fim à Revolução Húngara, os seus melhores jogadores abandonariam o país e, por conseguinte, a possibilidade de defenderem as cores da sua selecção. Para a História, no entanto, ficou uma equipa cujo estilo de jogo antecipou em cerca de duas décadas o &#8220;futebol total&#8221; praticado pela <em>Laranja Mecânica</em>.</p>
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		<title>«O golo que silenciou 200.000 espectadores»</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Jun 2008 16:50:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Euro 2008]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Selecções Nacionais]]></category>

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		<description><![CDATA[A selecção brasileira que disputou o Mundial de 1950 marcou, em seis jogos, 22 golos &#8211; mais do que qualquer outra selecção brasileira em fases finais de Campeonatos do Mundo, incluindo as de Pelé. E, no entanto, o único jogador dessa selecção que ainda hoje é recordado é o guarda-redes Barbosa. E por causa de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A selecção brasileira que disputou o Mundial de 1950 marcou, em seis jogos, 22 golos &#8211; mais do que qualquer outra selecção brasileira em fases finais de Campeonatos do Mundo, incluindo as de Pelé. E, no entanto, o único jogador dessa selecção que ainda hoje é recordado é o guarda-redes Barbosa. E por causa de um golo sofrido.</p>
<p><strong>Um Mundial único</strong><br />
O Mundial de 1950 foi um evento muito especial. Talvez o mais especial de toda a História de campeonatos do mundo. Não só por ter sido o primeiro a ser disputado após a II Guerra Mundial, interrompendo assim uma paragem de 12 anos (o último tinha sido disputado em 1938, em França); não só por ter sido o Campeonato que inaugurou o mítico Maracanã, então o maior estádio alguma vez construído, com lugares para 200.000 espectadores; não só por ter sido o primeiro Mundial a contar com a presença da Inglaterra que, apesar de se proclamar &#8220;inventora&#8221; do futebol, até então, sempre tinha menosprezado a competição; mas foi também um caso muito especial por ter sido o único campeonato, na História dos Mundiais, a não ser decidido através de uma final. Na verdade, o formato inovador, e nunca mais repetido desse mundial, contemplava inicialmente quatro grupos de equipas, com o primeiro classificado de cada um desses grupos a seguir para a poule final, na qual jogariam todos entre si. O campeão seria aquele que, nessa pole, somasse mais pontos. O Brasil, por jogar em casa e por ser a selecção com melhores jogadores, era claramente o favorito. Durante a primeira fase, bateu o México por 4 a 0 e a Jugoslávia por 2-0, consentindo apenas um empate por 2 a 2 com a Suíça (no único jogo que disputou fora do Maracanã), algo que não o impediu de se qualificar para a segunda e derradeira fase da prova. Aí, teria de enfrentar a Suécia, a Espanha e o Uruguai. E foi nos dois primeiros jogos dessa pole que a selecção brasileira demonstrou de forma impressionante todo o seu poder futebolístico, derrotando a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1. O terceiro e decisivo jogo seria com o Uruguai, que tinha empatado 2 a 2 com a Espanha e vencido a Suécia por 3-2. Ao Brasil bastava um empate para se sagrar campeão.</p>
<p><strong>Os vencedores antecipados<br />
</strong>199.954 bilhetes foram vendidos para a partida decisiva, mas segundo estimativas da época estiveram presentes mais de 200.000 espectadores. O jornal &#8220;O Mundo&#8221;, na véspera, tinha feito capa com a fotografia da selecção brasileira, usando a manchete &#8220;Estes são os Campeões do Mundo&#8221;, e era exactamente isso que cada um daqueles 200.000 espectadores tinha ido comprovar: a vitória dos seus ídolos. Entre eles, Ademir que, com 9 golos, seria o melhor goleador da prova, Zizinho, o melhor jogador da competição e o grande ídolo de Pelé, e José Carlos Bauer, apelidado de &#8220;o gigante do Maracanã&#8221;, que anos mais tarde, numa digressão a Moçambique como treinador da Ferroviária de Araraquara, descobriu um miúdo chamado Eusébio da Silva Ferreira, tendo-o posteriormente indicado a Bela Guttman do Benfica. O guarda-redes era Barbosa, titular indiscutível do Vasco da Gama, clube pelo qual já havia ganho 4 campeonatos cariocas e, em 1948, o Campeonato Sul-Americano de Campeões (precursor da actual Taça dos Libertadores da América). Barbosa fora precisamente o herói dessa prova, ao defender um penalti no jogo decisivo contra o River Plate. Pela selecção brasileira tinha também sido Campeão Sul-Americano em 1949.</p>
<p><strong>Os adversários<br />
</strong>O ambiente, entre o público no Maracanã, não era só de euforia. Era também de intimidação, pelo menos para os jogadores uruguaios, onde o único que não dava sinais de medo em campo era o capitão Obdulio Varela. O único capaz de manter a cabeça erguida depois de ver o Brasil adiantar-se no marcador com um golo, no segundo minuto da segunda parte por Friaça, e de gritar com os companheiros de equipa e obrigá-los a acreditarem na reviravolta. Varela era um duro, um general dentro de campo para quem cada jogo era uma verdadeira batalha. O escritor Nélson Rodrigues escreveu que Varela &#8220;não atava as chuteiras com cordões, mas com as veias&#8221;. Mas era também, à sua maneira, um romântico do futebol enquanto fenómeno puramente desportivo. Recusou sempre jogar com a camisola do seu Peñarol &#8220;profanada&#8221; com publicidade. A equipa entrava em campo com dez jogadores patrocinados e com Varela a ostentar a velha camisola de sempre do Peña. Foram a força e a liderança de Varela que permitiram à selecção uruguaia voltar a unir-se e a empatar o jogo com um golo de Juan Alberto Schiaffino, o segundo melhor marcador da prova, e grande estrela da equipa. Um golo que, no entanto, não desmotivou nem a selecção brasileira nem o público que a apoiava, crentes de que seria apenas uma questão de tempo até a sua superioridade voltar a resultar em golo. O único brasileiro que parecia preocupado era o treinador, Flávio Costa, que pedia para os jogadores defenderem. Mas como é que os jogadores podiam ouvir os avisos do treinador, quando tinham duzentas mil pessoas, à sua volta, já a festejarem o título?</p>
<p><strong><img class="attachment wp-att-2070 alignleft" style="margin-right: 8px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/05/world-cup-1950.jpg" alt="2000020210076" width="290" height="192" align="left" title="«O golo que silenciou 200.000 espectadores»" />O momento decisivo</strong><br />
Até que a dez minutos do fim da partida o impensável aconteceu: o uruguaio Alcides Ghiggia aparece pelo lado direito da área brasileira e, apesar de ter ângulo muito apertado, remata. Barbosa, o guarda-redes em quem todos confiavam, lança-se à bola, junto ao seu poste esquerdo, mas é incapaz de a defender. O que se seguiu foi o silêncio de 200.000 pessoas. Sabem o que é ter duzentas mil pessoas a olharem para vocês com um silêncio de desespero e incredulidade? Não deve ter havido, ao longo da História, muita gente a sabê-lo, mas às 16 horas e 50 minutos do dia 16 de Julho de 1950, Moacir Barbosa Nascimento ficou a saber. O Brasil já sofreu muitas tragédias, entre ditaduras militares, violência urbana e crimes ecológicos, mas para Nélson Rodrigues &#8220;esse golo foi a nossa Hiroshima&#8221;. Uma tragédia que chegou ao ponto de comover os próprios jogadores do Uruguai, como Schiaffino, que disse mais tarde &#8220;eu chorava de alegria, mas também de pena por vê-los sofrer assim. Eu chorava por eles&#8221;. Mas mais impressionante ainda foi a declaração do capitão Varela: &#8220;Fiz um país chorar de tristeza mais do que o meu país de alegria. E acho que se pudesse jogar aquela final novamente faria um autogolo.&#8221;</p>
<p><strong>A ressaca</strong><br />
Dez pessoas morreram no estádio de ataque cardíaco. Nos dias seguintes, inevitavelmente, houve vários relatos de suicídios e cenas de pancada em bares. Também inevitavelmente, Barbosa ficou marcado até ao fim da carreira por esse golo sofrido. Aliás, até ao fim da vida. Foi principalmente por causa desse golo que os guarda-redes brasileiros começaram a ser encarados com desconfiança. Por mais fortes que tivessem sido as selecções brasileiras seguintes, os guarda-redes eram sempre encarados como o elo mais fraco. Mas a humilhação suprema, para Barbosa, ocorreu em 1994, quando foi impedido de entrar no hotel onde a selecção brasileira estagiava para o Campeonato do Mundo, para não dar azar à equipa. &#8220;No Brasil a pena máxima para um homicídio é de 30 anos. Eu pago há 44 por um crime que não cometi&#8221;, disse Barbosa, falecido a 7 de Abril de 2000. O colega Zizinho era da mesma opinião: &#8220;Ele fez tudo com correcção. No golo do Schiaffino fechou o ângulo e o Ghiggia cruzou aberto para o companheiro. No segundo entendeu que Ghiggia ia repetir o lance e lançar aberto para Schiaffino. Então ele se afastou e foi para o centro da baliza. E Ghiggia rematou entre o poste e ele&#8221;. O único Campeonato do Mundo em que não foi jogada uma final foi o que teve a mais dramática final de todos. É aquele tipo de ironias de que a História é feita. Para além de Barbosa, os mais supersticiosos justificaram ainda a derrota com a mudança do local de concentração da equipa na véspera da final. O Brasil trocou a concentração de Joá pelo estádio do Vasco da Gama, em São Januário. Outros culparam o treinador Flávio Costa por ter imposto duas horas de missa na manhã do jogo aos seus pupilos, que rezaram de pé. Quaisquer que tenham sido os motivos, a inspiração e coragem dos jogadores uruguaios é bem capaz de ter o maior de todos, e a verdade é que para o Brasil esse Campeonato do Mundo continua, ainda hoje, a ensombrar a sua brilhante História futebolística. Como disse Luís Fernando Veríssimo, depois de o Brasil ter conquistado o seu quinto Mundial em 2002, &#8220;por mais campeonatos que o Brasil ganhe, nunca vencerá aquela final de 1950.&#8221;</p>
<p><br/>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=wYKzZRN0U6o"><img src="http://img.youtube.com/vi/wYKzZRN0U6o/default.jpg" width="130" height="97" border title="«O golo que silenciou 200.000 espectadores»" alt="«O golo que silenciou 200.000 espectadores»" /></a></p>
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		<title>A Última Dobradinha do Benfica</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Jun 2008 00:23:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaques]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[SL Benfica]]></category>

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		<description><![CDATA[Fez esta semana, no passado dia 7 de Junho, 21 anos que o Benfica conseguiu vencer pela última vez o Campeonato e a Taça na mesma época. Na altura, a terceira Taça de Portugal seguida para o clube da Luz. E a terceira dobradinha nos anos 80 (as outras tinham sido em 1981 e 1983).
A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fez esta semana, no passado dia 7 de Junho, 21 anos que o Benfica conseguiu vencer pela última vez o Campeonato e a Taça na mesma época. Na altura, a terceira Taça de Portugal seguida para o clube da Luz. E a terceira dobradinha nos anos 80 (as outras tinham sido em 1981 e 1983).</p>
<p><strong>A hegemonia do Benfica</strong><br />
Quando se diz que o FC Porto começou a deter a hegemonia do futebol português nos anos 80 está-se a contar apenas uma parte da História. Se é verdade que a nível internacional os dragões tiveram grandes conquistas nessa década, a nível interno o Benfica continuava a ser a equipa mais vitoriosa. Basta recordar os cinco campeonatos e seis taças Portugal que conquistou, contra os três campeonatos e duas Taças de Portugal ganhos pelo FC Porto, durante o mesmo período de tempo. Mesmo que, por vezes, o FC Porto ou até o Sporting tivessem melhores jogadores, era ainda o Benfica o grande dominador. E na época 1986/87 foi exactamente isso que aconteceu.</p>
<p><img class="attachment wp-att-2478 alignleft" style="margin-right: 10px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/07/benfica-86-87.jpg" alt="Benfica 86/87" width="300" height="195" align="left" title="A Última Dobradinha do Benfica" />O FC Porto era claramente favorito à conquista do campeonato. Porque tinha ganho os dois títulos anteriores. Porque tinha Madjer, Futre, Gomes, Celso, Juary, Mlynarczyk, Jaime Magalhães e Elói no plantel. E porque tinha ido buscar Jaime Pacheco e Sousa ao Sporting, e Casagrande ao Corinthians. O Benfica não tinha um plantel tão bom. Tinha perdido muitos nomes importantes nos últimos 2/3 anos anos (Humberto Coelho, Chalana, Stromberg, Nené, Bento tinha-se lesionado no Mundial do México 86) e, como jogadores acima da média, jogadores que pudessem de facto fazer a diferença, já só havia Carlos Manuel, Diamantino, Chiquinho Carlos e Rui Águas. O que restava era um conjunto de jogadores que dava tudo pelo emblema. Mas se calhar era a isso que se chamava mística. E se calhar foi isso que permitiu ao clube ultrapassar todas as adversidades ao longo da época, incluindo a derrota por 7 a 1 em Alvalade, a única derrota do Benfica nesse campeonato, mas talvez a mais traumatizante de toda a sua História. Pelo menos, do ponto de vista dos adeptos leoninos que, pela forma como a celebram anualmente, continuam a considerar esse feito como o mais importante do seu clube nas última três décadas.</p>
<p><strong>O primeiro ajuste de contas</strong><br />
Depois de ter estado na liderança do campeonato durante praticamente toda a temporada, o Benfica confirmou a conquista do título a 24 de Maio, ao vencer o Sporting na Luz por 2-1. Três dias antes de o FC Porto vencer o Bayern Munique na final da Taça dos Campeões Europeus em Viena, no famoso jogo do calcanhar de Madjer. Para o Benfica, esse triunfo sobre o Sporting representou um ajuste de contas não só pela humilhação que sofrera na primeira volta em Alvalade mas, mais importante ainda, pela derrota que o mesmo Sporting lhe tinha imposto um ano antes, em pleno estádio da Luz, e que tinha roubado o título ao &#8220;glorioso&#8221; para o oferecer de bandeja ao FC Porto. Muita gente já não se recorda, mas foi essa preciosa ajuda leonina no final da época 1985/86 que permitiu ao Porto celebrar, um ano depois, a conquista do seu primeiro título europeu.</p>
<p><strong>O segundo ajuste de contas</strong><br />
Depois da conquista do campeonato, faltava ao Benfica a Taça, onde ia defrontar na final o Sporting que, nas meias-finais, eliminara o FC Porto nas Antas, no último minuto do prolongamento. No dia 7 de Junho de 1987 o Benfica, ao bater o Sporting por 2 a 1, conquistou a 9ª dobradinha da sua História. O autor dos dois golos encarnados, e herói da partida, foi Diamantino Miranda, que já havia sido o jogador mais influente da equipa durante o campeonato. O primeiro dos seus golos foi na execução perfeita de um livre directo à entrada da área leonina que só deixa Damas reagir depois de a bola ter entrado. Mas o segundo é ainda melhor, um daqueles golos que demonstra que, mais importante do que ter visão de jogo, é ter a previsão de jogo. Num lance em que tem dois sportinguistas em cima, Diamantino demonstra essa capacidade de antecipar a reacção do adversário com gestos técnicos de pura classe e velocidade imparável, antes de fuzilar Damas. No final do jogo, um jornalista perguntou ao guarda-redes do Sporting se ele não podia ter feito mais no lance do segundo golo. Damas, com o desportivismo que sempre demonstrou, repondeu que, depois de uma jogada daqueles, até lhe ficava mal defender o remate. Só por curiosidade, o golo do Sporting, nesse jogo, foi marcado por Marlon Brandão.</p>
<p>No dia seguinte à dobradinha, o treinador do Benfica, John Mortimore, foi despedido. Dizia-se que tinha uma má relação com os jogadores. O seu substituto foi o dinamarquês Ebbe Skovdahl, de quem se esperava que viesse a ser o novo Eriksson. Era nórdico, relativamente jovem e simpático. E também trouxe um avançado alto e louro para o clube (Mats Magnusson).  Acabou por ficar apenas quatro meses, até ser substituido por Toni, devido a maus resultados.</p>
<p><br/>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.youtube.com/watch?v=eA5jaJRcmmw"><img src="http://img.youtube.com/vi/eA5jaJRcmmw/default.jpg" width="130" height="97" border title="A Última Dobradinha do Benfica" alt="A Última Dobradinha do Benfica" /></a><br />
<span style="color: #888888;">Lances da partida</span></p>
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		<title>FC Start &#8211; «O Jogo da Morte»</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jun 2008 13:58:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luís António Coelho</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Para a minha estreia no espaço Memória deste portal desportivo decidi homenagear uma das mais heróicas formações da História do futebol, que disputou o seu primeiro jogo há precisamente 66 anos. Uma equipa da antiga União Soviética que, durante a ocupação alemã na II Guerra Mundial, venceu todos os jogos que disputou, sendo que apenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Para a minha estreia no espaço Memória deste portal desportivo decidi homenagear uma das mais heróicas formações da História do futebol, que disputou o seu primeiro jogo há precisamente 66 anos. Uma equipa da antiga União Soviética que, durante a ocupação alemã na II Guerra Mundial, venceu todos os jogos que disputou, sendo que apenas por uma vez a vitória foi alcançada pela margem mínima. Uma equipa constituída por 11 atletas capazes de, literalmente, deixar a vida em campo só para defenderem a dignidade do seu clube e de uma população oprimida. O seu nome era FC Start. E os jogadores que a compunham foram quase todos detidos e fuzilados pelos nazis, pouco depois da sua última vitória em campo.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>A ocupação de Kiev</strong><br />
Tudo começou em Setembro de 1941, quando o exército alemão, quebrando o pacto de não agressão assinado dois anos antes por Hitler e Stalin, ocupou vários territórios soviéticos entre eles a cidade de Kiev. Duas consequências da guerra foram a fome e a proibição do futebol. Os jogadores, à semelhança da grande maioria da população, foram feitos prisioneiros ou tornaram-se vagabundos, sobrevivendo como podiam ao frio e à perseguição nazi. Entre eles, Nikolai Trusevich, antigo guarda-redes do Dínamo de Kiev e um dos melhores jogadores da Europa na sua posição. No entanto, num daqueles encontros fortuitos de que a História é pródiga, Trusevich foi abordado por Josef Kordik, um veterano da I Guerra Mundial, fanático pelo Dínamo de Kiev e que, devido à sua origem austríaca e ao facto de falar bem alemão, não era perseguido pelos nazis. Ao encontrar o seu ídolo doente e subnutrido, Kordik, que administrava uma das padarias responsáveis pelo abastecimento da cidade, tratou logo de contratá-lo como seu funcionário. E foi durante uma conversa com Trusevich que Kordik teve a ideia de procurar antigos jogadores que tivessem sobrevivido à ocupação.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>A formação do Start</strong><br />
O objectivo de Kordik não era só o de salvar esses atletas da miséria e empregá-los na sua padaria. Aproveitando a série de pequenas concessões que os nazis faziam para dar um aspecto mais normal ao quotidiano da cidade, como a realização de alguns jogos futebol no antigo estádio do Dínamo de Kiev, Kordik tinha o sonho de formar uma equipa. Como a proibição do Dinamo se mantinha, convenceu os alemães a aceitarem a formação de um novo clube, alegando que o desporto seria benéfico para a própria produtividade da padaria. O que ele não revelou foi que o seu clube seria formado por antigos jogadores do Dínamo de Kiev, do Lokomotiv e de clubes rivais do campeonato russo. E foi assim que nasceu o FC Start. E foi assim que, aproveitando os contactos de Kordik, o clube começou a desafiar equipas de soldados inimigos e selecções formadas pelo III Reich.<br />
<strong></strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>As primeiras vitórias<br />
</strong>O primeiro jogo do FC Start foi disputado a sete de Junho de 1942 contra o Rukh, equipa criada por Georgi Shvetsov, um ex-jogador do Lokomotiv Kiev. Shetsov era um nacionalista ucraniano que se opunha ao regime comunista e que se tornara aliado dos alemães após a invasão. Até então, os jogos disputados no antigo estádio do Dínamo, entretanto rebaptizado de Estádio Ucraniano, não conseguiam cativar o interesse da população local, e o motivo era simples: só os alemães e os seus aliados é que estavam autorizados a jogar. Esta era também a razão pela qual o Rukh era uma equipa incapaz de cair nas boas graças do povo. Shvetsov bem tinha tentado recrutar antigos ídolos do Dínamo e do Lokomotiv para as suas fileiras, mas nenhum dos funcionários da padaria de Kordik aceitou representar o lado dos invasores. Mesmo que isso tivesse significado uma melhoria significativa nas suas condições de vida.</p>
<p style="text-align: left;">Sem um equipamento adequado, os jogadores do Start apresentaram-se em campo para o seu primeiro jogo com calças cortadas, sapatos e camisas vermelhas que Trusevich encontrara nas ruínas de uma loja. O vermelho, para Trusevich, teria sempre de ser a cor da vitória contra os nazis. O único jogador do Start que tinha chuteiras apropriadas era Makar Goncharenko, que as conservara intactas durante a invasão, convicto de que nem a guerra o impediria de jogar futebol. Mesmo assim, e com seus jogadores em más condições físicas, uma vez que tinham passado a noite anterior a trabalhar na padaria, o Start goleou o Rukh por 7 a 2. Humilhado, Shvetsov fez com que os nazis proibissem o Start de entrar no Estádio Ucraniano, mas nem isso impediu a ascensão do clube. Kordik transferiu a sua equipa para o estádio de Zenit, no centro de Kiev, onde o Start se estreou a 21 de Junho com uma vitória por 6 a 2 contra uma equipa da guarnição húngara, que auxiliava os alemães na ocupação da União Soviética. Três dias depois foi a vez da guarnição romena sofrer 11 golos sem resposta.</p>
<p style="text-align: left;"><strong>Uma popularidade incómoda</strong><br />
No entanto, as coisas só começaram a tomar proporções verdadeiramente inquietantes para o lado dos invasores quando, no dia 17 de Julho, o Start despachou uma equipa do exército alemão, denominada PGS, por 6 a 0. A lenda do Start enquanto equipa imbatível estava lançada e a população de Kiev começou a comparacer em peso aos jogos. E nem o facto de a imprensa local, controlada pelos alemães, menosprezar ou mesmo ignorar as proezas do Start, travou o crescimento galopante da sua popularidade. As vitórias no futebol, tanto hoje como há 66 anos atrás, são a melhor forma de unir um povo, porque a energia, a coragem e a união que se manifestam em campo são transmitidas a quem a elas assiste. Aquilo que os alemães tinham planeado inicialmente como medida de pacificação ameaçava tornar-se num incentivo à revolta.</p>
<p style="text-align: left;">A 19 de Julho foi a vez da poderosa equipa húngara do MSG Wal falhar a nova missão encomendada pelos nazis para derrotar o Start. Mais uma goleada, desta vez por 5 a 1, a favor dos soviéticos, que voltaram a vencer a mesma equipa no jogo de desforra, uma semana mais tarde, por 3 a 2. Foi a única ocasião em que o Start derrotou um adversário pela diferença mínima. E nem mesmo o preço inflaccionado dos bilhetes, na tentativa de afastar o povo do estádio, impediu que uma multidão comparecesse e exultasse com a vitória dos seus ídolos.</p>
<p style="text-align: left;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>O primeiro encontro com o Flakelf</strong><br />
A dimensão épica da última vitória contra o MSG Wal, com o guardião Trusevich a efectuar uma das suas melhores exibições e a segurar o resultado nos últimos minutos, enfureceu os nazis. Para eles, derrotar o Start dentro de campo estava a tornar-se uma questão de honra. Por isso, foi marcado para 6 de Agosto um jogo entre Start e o Flakelf, a melhor equipa alemã da época e aquela que era utilizada como instrumento de propaganda nazi. O resultado desse jogo? 5 a 1 para o Start. Nova humilhação para a ideologia da raça superior. De Berlim chegou uma ordem para acabar com a vida dos jogadores do Start, única forma possível de evitar novas derrotas alemãs em solo ucraniano. Mas os nazis que ocupavam Kiev não acataram a ordem, por acreditarem que se o fizesse estariam a perpetuar a derrota alemã e a eternizar a lenda do Start. O desporto, para os nazis, deveria ser o reflexo da sociedade. Já o tinha sido nos Jogos Olímpicos de 1936, organizados em Berlim com o propósito de vincar a superioridade da raça ariana. Para os altos comandos nazis em Kiev, a decisão de fuzilar os jogadores do Start teria de esperar até conseguirem uma vitória sobre essa equipa. Decisão marcada para 9 de Agosto, dia em que esperavam que o Flakelf conseguisse vingar a pesada derrota que lhe fora infligida apenas 3 dias antes.</p>
<p style="text-align: left;"><img class="attachment wp-att-2073 alignleft" style="margin-left: 8px; margin-right: 8px;" src="http://www.jogodearea.com/wp-content/uploads/2009/05/fc-start-1.jpg" alt="FC Start   «O Jogo da Morte»" width="290" height="156" align="left" title="FC Start   «O Jogo da Morte»" />Foi num clima de forte tensão que a partida teve lugar no estádio do Zenit, completamente lotado. Antes do início do jogo, um oficial das SS entrou no balneário do Start apresentando-se como o árbitro da partida e exigindo que os jogadores do clube fizessem a saudação nazi quando cumprimentassem os adversários. Já em campo, equipados com camisola vermelha e calções brancos, os soviéticos levantaram o braço mas, em vez de dizerem &#8220;Heil Hitler!&#8221;, levaram a mão ao peito e gritaram &#8220;Fizculthura&#8221;, uma expressão de incentivo à prática desportiva. A equipa alemã, a jogar de camisola branca e calções pretos, marcou o primeiro golo do encontro, aproveitando um momento em que Trusevich tentava recuperar de um pontapé que um adversário lhe dera na cabeça. Até ao fim da primeira parte, no entanto, o Start conseguiu dar a volta ao marcador, com um golo de Kuzmenko e dois de Goncharenko. Durante o descanso, os jogadores soviéticos voltaram a receber visitas de oficiais das SS no balneário e advertências quanto ao destino de cada um, caso insistissem em vencer a partida. Apesar de terem chegado a pensar não voltar para o segundo tempo, os jogadores do Start, ao ouvirem os gritos dos seus compatriotas presentes nas bancadas, decidiram regressar ao campo. E jogar para ganhar. Não só para ganhar, para dar um baile aos adversários o que, nas condições em que se encontravam, significava assinarem a sua sentença de morte. E assim foi. No final do jogo, quando ganhavam por 5 a 3, o avançado Klimenko apareceu isolado à frente do guarda-redes do Flakelf. Depois de fazer uma finta que sentou o alemão no relvado, Klimenko ficou com a baliza deserta à sua mercê mas, em vez de rematar para golo, virou-se para trás e pontapeou a bola para o meio campo. Um gesto de superioridade total em relação ao adversário e que, para o público presente, constituiu um momento único de libertação e um incentivo à resistência.</p>
<p style="text-align: left;">Depois desse encontro, o Start ainda jogou mais uma partida, a 16 de Agosto, com o Rukh. E voltou a golear o primeiro adversário com quem tinha jogado, desta vez por 8 a 0. Mas o destino dos seus jogadores já estava traçado. Este último jogo tinha servido apenas para fechar o ciclo da efémera e imortal existência da equipa. Depois desse jogo, a padaria onde os jogadores do Start trabalhavam foi invadida. O primeiro a morrer torturado em frente de todos eles foi Kordik. Os restantes foram enviados para o campo de concentração de Siretz. Quatro deles &#8211; Kuzmenko, Klimenko, Korotkykh e Trusevich &#8211; foram executados com tiros na nuca. O guarda-redes e capitão da equipa, Nokolai Trusevich, morreu vestido com a camisola vermelha do FC Start e, segundo relatos de testemunhas, gritou &#8220;o desporto vermelho nunca morrerá&#8221; antes de receber a bala. Os restantes jogadores foram torturados até à morte. Goncharenko e Sviridovsky, que não se encontravam na padaria naquele dia fatídico, foram os únicos que escaparam, conseguindo sobreviver, escondidos, até à libertação de Kiev, em Novembro de 1943.</p>
<p>Ainda hoje, os possuidores do bilhete do encontro em que o Start venceu o Flakelf por 5 a 3 têm direito a um lugar no estádio do Dínamo de Kiev. Na proximidade do mesmo existe um monumento que saúda e recorda as façanhas dos jogadores que fizeram do clube uma lenda &#8211; na Imagem de Destaque, os 2 sobreviventes do FC Start junto ao seu monumento.</p>
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