Jari Litmanen, o único Rei Finlandês

Jari Litmanen

Futebol e Finlândia são duas palavras que raramente encontramos na mesma frase. Este país do norte da Europa é mais conhecido pela sauna, pelas mulheres loiras e por pilotos de veículos de quatro ou duas rodas. O futebol é um desporto que está bem no fundo da lista de preferências dos habitantes do país dos mil lagos. Qualquer jovem adolescente sonha em jogar hóquei na NHL em vez de se imaginar a pisar a relva do Santiago Bernabéu ou Old Trafford.

No entanto, há um jogador deste país que se destacou, e muito, no futebol mundial. Nascido em Lahti, uma cidade a cerca de cem quilómetros da capital Helsinquia, em Fevereiro de 1971, Jari Litmanen estreou-se aos 16 anos na equipa local, o Reipas que em 1996 se passou a designar por FC Lahti. Jari conciliava os treinos e jogos de futebol, com uma promissora carreira no hóquei do gelo, vindo mesmo a ser considerado como uma das grandes jovens promessas neste desporto. Após três anos no Reipas, Jari, desce à capital para jogar no maior clube finlandês, o HJK Helsinquia, onde apenas fica um ano fazendo 27 jogos e marcando 16 golos antes de se transferir para o MyPa. Bastam-lhe 18 jogos e 7 golos para se transferir para o Ajax antes mesmo de terminar a liga. A vitória na final da taça e um golo foram fundamentais para um scout do Ajax convencer Louis Van Gaal a avançar para a contratação do prodígio Finlandês, que com apenas 20 anos vinha já a ser sondado por clubes como o Barcelona, o Leeds e o PSV Eindhoven.

A primeira época no clube de Amesterdão não foi fácil, e Litmanen passou grande parte da época a jogar pelas reservas. Van Gaal estava já preparado para o enviar para o frio da Finlândia, quando o seu fisioterapeuta sugere ao seu boss que Jari entre para o lugar de uma das vedetas da equipa, Dennis Bergkamp. Louis gostou do que viu e anunciou que, na época seguinte, Jari iria ser o substituto de Bergkamp que estava de partida para o Inter de Milão.

Na sua primeira época a titular, 1993-1994, Litmanen, já com o número 10 nas costas – o tal de Dennis Bergkamp – sagra-se melhor marcador da liga com 26 golos, sendo considerado o jogador do ano. Em todas as competições, Litmanen marca 34 golos, registo que nunca mais viria a alcançar na sua longa carreira. Nesses anos, o Ajax era a equipa a abater, o verdadeiro Dream Team Europeu, com jogadores como Frank Rijkaard, Clarence Seedorf, Edgar Davids, Edwin van der Sar, os manos de Boer e ainda o ícone de beleza conhecido por Michael Reiziger.

Dotado de uma técnica muito acima da média para um jogador nórdico – normalmente parece que têm tijolos no lugar dos pés – Jari espalhava magia e classe pelos palcos holandeses. Sendo um número 10 puro, também jogava como segundo avançado. Era um exímio marcador de livres e penalties. O Ajax chega duas vezes à final de Liga dos Campeões, em 1994-1995 e em 1995-1996. Na primeira final contra os italianos do Milan, Litmanen cede o seu lugar aos 70 minutos da partida ao imberbe Patrick Kluivert, que aos 16 anos marca o golo da vitória aos 85 minutos.

No ano seguinte, Litmanen marca o golo do empate aos 41 minutos frente à Juventus, que viria a sagrar-se campeã nos penalties. Litmanen não falhou o seu, mas os seus companheiros Davids e Silooy não tiveram a mesma arte e o Ajax perde a final para a Vecchia Signora. Litmanen, contentou-se com o titulo de melhor marcador da prova, com 9 golos.

Os anos no Ajax foram os melhores do Professor, como era conhecido pelos colegas, que em 1999, juntamente com o seu mentor Van Gaal, se transfere para o Barcelona. Debaixo de grandes críticas por parte da imprensa catalã, e fruto de incompatibilidades com uma das estrelas da equipa, Rivaldo, Van Gaal deixa os Culé em 2000 entrando para o seu lugar Serra Ferrer, que dá poucos minutos ao Finlandês, que assim decide transferir-se para o Liverpool em Janeiro de 2001.

A passagem pelo Liverpool é mercada por várias lesões, e após 43 jogos e 9 golos, Litmanen regressa ao seu adorado Ajax onde é recebido como um herói em 2002. As lesões continuam e o clube decide não renovar o contrato. Em 2004, Jari volta a casa para jogar no FC Lahti, o clube da sua cidade natal. A partir daqui, são vários os clubes onde Litmanen vai dando uma “perninha”, Hansa Rostock, Malmö FF, e Fulham onde nem sequer chega a jogar por problemas no coração que o fazem voltar a casa ao bom sistema de saúde finlandês, e prosseguir a carreira no FC Lahti. Jari termina a carreira aos 41 anos no HJK de Helsinquia.

Jari é o jogador a jogar mais vezes e marcar mais pela selecção Finlandesa onde se apresentou até 2010 com 38 anos. Basicamente, entrava nos últimos 20/30 minutos para mostrar aos seus colegas como era jogar sem ter tijolos nos pés. Em 2002, Litmanen marca dois golos a Portugal, na vitória da Finlândia por 1-4, no estádio do Bessa, naquela que foi talvez umas das mais humilhantes derrotas de Portugal.

Durante a minha estada naquele país, num dia chuvoso de Agosto de 2009, desloquei-me a um estádio de futebol, para ver o FC Lahti a jogar contra a equipa local do HJK de Helsinquia. A minha razão para ter ido a um estádio de futebol na Finlândia era só uma, ver Jari Litmanen. Aos 37 anos Jari espalhou magia e ainda me conseguiu encantar. O jogo, como seria de esperar, foi aborrecido, e mais parecia um jogo de solteiros contra casados terminando num bem redondo 0-0. Jari jogou os 90 minutos e no fim do jogo tive o privilégio de lhe dizer no meu mais que básico Finlandês: “Hyvää Jari!” (Boa Jari!). Na sua clássica pose fria e nórdica, Jari acenou-me com a cabeça sem esboçar qualquer expressão e seguiu o seu caminho para os balneários.

O amigo finlandês que estava comigo disse-me isto com um tom emocionado e solene quando já saíamos do estádio: “You know Chico, there were many presidents in Finland, but only one King, Jari Litmanen!”

Obrigado Jari, nunca mais vou esquecer a forma como me acenaste com a cabeça!


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