Rudi Gutendorf, o viajante do futebol

Rudi Gutendorf

Para o leitor menos atento, o nome de Rudi Gutendorf provavelmente não significará muito. Contudo, Gutendorf é um homem que marcou e ainda marca o futebol internacional de uma forma muito própria. Autêntico globetrotter, Rudi é provavelmente o treinador de futebol ainda em actividade com mais histórias para contar. Tudo porque em 50 anos de carreira teve mais de 40 trabalhos.

Como futebolista, poucas memórias restam. Nascido na Alemanha, na cidade de Koblenz (1926), passou a maioria dos seus anos a jogar no clube da sua cidade, o TuS Neuendorf (agora TuS Koblenz). Nada de anormal contudo, se olharmos para grandes técnicos da actualidade como Mourinho ou Wenger, que pouco ou nada alcançaram como atletas.

Na verdade, como treinador, Gutendorf também não atingiu os píncaros do futebol internacional. Mas os seus mais de 50 anos de carreira fizeram dele um especialista em selecções nacionais, tornando-o um técnico emblemático à frente de selecções de menor calibre. Vamos a números: Gutendorf detém o recorde de equipas nacionais (principais) orientadas profissionalmente, são 18: Chile, Bolívia, Venezuela, Trinidad e Tobago, Grenada, Antigua, Botswana, Austrália, Nova Caledónia, Nepal, Tonga, Tanzânia, Gana, Ilhas Fiji, Zimbabué, Maurícias, Ruanda e Samoa. E são cerca de 24 as experiências ao nível das selecções – a juntar à lista anterior, Rudi orientou ainda as equipas olímpicas do Irão e China, em 1988 e 1992 respectivamente, e ocupou diversas funções nas equipas técnicas do Nepal, China, Ilhas Fiji e São Tomé e Príncipe. Se juntarmos a isto o seu trabalho em clubes, Rudi percorreu os 5 continentes, tendo também trabalhado na Suíça (Blue Stars Zurich e FC Luzern), em diversos clubes alemães (de realçar o Estugarda, Schalke 04, Fortuna Colónia e Hamburgo), no Peru e no Japão.

Tendo terminado o curso de treinador em 1954 – sendo o seu mentor Herberger, que pouco tempo antes havia sido campeão do mundo com a Alemanha – Gutendorf estava longe de pensar em se tornar um viajante. Quando a primeira possibilidade de emigrar lhe surgiu, pelas mãos do Blue Stars Zurich, Rudi conferenciou com a sua mulher e juntos decidiram aventurar-se. E apesar de ter retornado por diversas vezes ao seu país natal, a realidade é que não mais parou de palmilhar o planeta.

Alguns factos curiosos dizem respeito à longevidade do seu trabalho nas diversas equipas. No FC Luzern, o seu segundo trabalho, esteve 6 anos, de longe o período mais longo que esteve com uma equipa. Inversamente, no ano de 1976 orientou 5 equipas, começando no Fortuna, e passando também por Trinidad e Tobago, Grenada, Antigua e Botswana. Contudo, raramente foi despedido, foi ele quase sempre a sair pelo seu próprio pé das equipas que orientou, procurando novos desafios. E provavelmente por essa razão é que foi sempre capaz de encontrar um novo grupo para orientar.

No livro que lançou aos 79 anos, “Volta ao Mundo com Futebol”, conta diversos episódios que ilustram o seu percurso fascinante no comando das mais diversas equipas. Em 1973, como técnico da selecção chilena, Rudi fez amizade com o presidente do país, e devido ao golpe militar protagonizado por Pinochet viu-se obrigado a fugir do país num dos últimos voos a sair da capital. Liderando a selecção do Ruanda, certo dia viu-se a mediar a paz entre duas tribos rivais, e na Tanzânia demitiu-se pois os directores achavam imperativo sacrificar uma cabra antes de cada partida, para dar boa sorte à equipa. Em Guatemala, falhou um recolher obrigatório e viu-se a passar a noite numa cadeia inundada de criminosos!

Tacticamente, era um enorme apreciador da cultura futebolística italiana, e por consequência da ciência do catenaccio. Na Alemanha era conhecido por “Riegel Rudi” (“Catennacio Rudi”). Defendia que o futebol deveria basear-se em 4 palavras-chave: poder, músculo, disciplina e defesa. E foram estes alicerces que o permitiram impôr as suas ideias em países com culturas tão distintas, mas onde sempre deixou marca e saudade, desde a familiar Alemanha até à África profunda.

O seu mais recente projecto foi à frente da selecção da Samoa, um país de raguebi onde Rudi quis implantar a paixão pelo futebol. Fala fluentemente espanhol, inglês, francês, chinês e swahili, mas a língua que melhor domina, essa, é a linguagem do futebol. Meio século a falar futebol.

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