Itália… ou um confronto entre a aparência e a realidade

Dizem os entendidos que quando se fala em Itália e nas prolegoménicas partidas de futebol disputadas pelos mais novos, há uma inversão de papéis entre o que é normal no resto do mundo e no país da bota. Ali, os mais jovens não anseiam marcar golos, ambicionam, isso sim, ser defesas de preferência centrais, de preferência resolutos, de preferência comandando o campo à distância, como num teatro de marionetes onde o gestor do espectáculo o controla todos os momentos do mesmo, mas à distância.

E tal asserção, tem-se confirmado no tempo, já que independentemente de homens como Meazza, Riva, Mazzola, Rossi, Bruno Conti ou nos tempos mais recentes Roberto Baggio ou Del Piero, quando se fala em Itália vem-nos, imediatamente, à memória o catenaccio e os seus intérpretes. Com efeito, esta Itália, pelo menos até ao seu último grande êxito, em 2006, nasceu, desenvolveu-se e atingiu o seu apogeu fazendo alarde do cinismo… da insídia de um sistema que realçava a capacidade defensiva e que gizado pelo mago Helenio Herrera foi obtendo frutos e consagrou homens como Maldini, Baresi, Cannavaro e muitos outros.

Itália... ou um confronto entre a aparência e a realidadePorém, 2010 e o Mundial africano pareciam ter enterrado de vez as raízes de um sistema que se influenciou no suíço Rappan, o verdadeiro percussor do líbero no futebol, nos anos 30 e que ganhou raízes até à data em questão. Aí, dois pontos em três jogos, consubstanciados num humilhante empate frente aos kiwis da Nova Zelândia e numa surpreendente derrota frente à Eslováquia de Hamsik, pareciam ter sido o último estertor de um sistema que parecia, naquele momento, cair fulminantemente de caduco. Aliado a isso, a escolha de Prandelli no lugar de um um guru do futebol, mas que para a imprensa transalpina começava a ganhar uma áurea de ultrapassado, Marcello Lippi o Paul Newman do futebol, ousava querer indiciar que a squadra azurra ansiava por romper com o passado e passar a interpretar a linguagem do calcio mediante conceitos novos e que não integrassem meramente as vertentes defensivas e especulativas do jogo.

E até ao debutar do Campeonato Europeu, tal aposta parecia ser sinónimo de dinheiro em caixa… e mesmo, perante a actual campeã europeia, os transalpinos pareciam querer romper com o outrora. Apesar de conscienciosos, apresentavam uma das propostas mais inovadoras da competição, procurando integrar e interpretar as vertentes do jogo na sua globalidade. Senão analisemos:

De Rossi, a chave mestra
Daniele De Rossi é o líder da zona medular da Roma. O sucessor de Totti na liderança espiritual da equipa. Além disso, é portador de uma capacidade de passe à distância acima da média e de um discernimento na hora de gerir os momentos de jogo própria dos predestinados. Atendendo a isso, Prandelli reservou para o giallorossi um papel surpreendente. O jogador, em vez de trinco, médio volante, recuou no terreno e passou a actuar no meio dos centrais escolhidos, Chiellini e Bonucci, originando um curioso efeito roldana. Partindo desse facto, o romano deu azo ao desenrolar de duas situações favoráveis à equipa: permitiu uma permanente situação de superioridade numérica frente aos avançados contrários – ainda para mais frente à Espanha que não apresentou qualquer avançado de raiz – e permitiu uma maior facilidade de colocação da bola em Pirlo, o verdadeiro cérebro da equipa, que conjuga a eternidade a um infinito talento.

Maggio e Giaccherini, os voadores
Com o estratégico efeito roldana despoletado por De Rossi e a zona defensiva bem mais protegida em momentos de desequilíbrio, os laterais ganham outra relevância. Assim, a locomotiva napolitana Maggio e uma das revelações bianconeri da presente época Giaccherini, têm ordens para subir no terreno em transição ofensiva e atacar o extremo adversário em posições mais adiantadas, o que afasta os propósitos mais ofensivos dos adversários. Não obstante isso, realce para um apagamento exibicional do lateral direito, que, ainda, não atingiu o nível exibicional com que vai deliciando, Domingo após Domingo, os tiffosi que em verdadeira profissão de fé se deslocam ao San Paolo.

Pirlo, o Génio
Nos tempos da escola, havia o dono da bola… quem, independentemente do talento, por ser o proprietário da redondinha mandava em tudo e em todos! Pirlo, na azurra é o dono da bola, mas, com um talento muito acima da média. E verdade seja dita, supostamente, potenciado por um sistema táctico que pretende realçar a sua capacidade técnica e o seu discernimento de organizar jogo. Na presente competição, graças ao efeito roldana – o principal elemento neste sistema de jogo, como se depreende pelas constantes alusões ao mesmo – gerado pelos constantes recuos e avanços de De Rossi, o, ora, Juventino tem o que lhe faltou em 2010, um veio condutor da zona defensiva que lhe permite que quando a bola chegue aos seus pés venha já depurada e com possibilidades de ser endossada com o tradicional critério do ideólogo da equipa.

Além disso, a colocação de Thiago Motta e Marchisio, como fieis escudeiros e com funções de contenção, permitem que o cérebro da equipa tenha uma maior liberdade de movimentos e possa escrever poesia num campo de futebol, como foi aquele soneto transmutada em passe de ruptura para Di Natale bater Casillas.

Cassano e Balotelli, Almas Gémeas e Incompreendidas
Os tempos do avançado isolado no futebol italiano parecem ter cessado. De 82 vem-nos Rossi, depois Vialli, posteriormente Schillaci, depois Massaro… e sempre um homem só na área, abandonado entre centrais adversários, numa densa floresta e procurando suster a bola para os companheiros vindo das profundezas defensivas da equipa, chegarem à sua beira, em subreptícios contra golpes. Até isso mudou. A azurra passou a apostar em dois homens que sem serem o típico bombardeiro, como Luca Toni foi no Mundial 2006, parecem ser almas gémeas na loucura, no sofrimento sentido quando o jogo lhes passa ao lado, e na genialidade com que podem resolver o jogo.

Partindo cada um da sua ala e sem se darem à marcação, procurando da irreverência própria da genialidade criar desequilíbrios, combinando entre si, investindo individualmente, segurando a bola para os defesas/alas atingirem linhas de ataque, bem como Pirlo, mas também, Marchisio atingirem áreas de ataque, deles se espera tudo…

Apesar da mudança, o sempre…
Como se viu, a equipa mudou… o modo de interpretação do desafio é diferente do tradicionalmente apresentado. No meio do conservador e modorrento 4-3-3, e dos ainda mais tradicionais 4-4-2, de irlandeses e ingleses por exemplo, a ideia até merece o aplauso global. E, arriscaríamos, conquistou admiração quando quase venceu a Armada invencível castelhana, não fosse traída, por um inesperado e genial toque de David Silva que isolou Fàbregas para o golo do empate. Posteriormente, frente à Croácia, mais do mesmo. Aplicando os princípios explanados supra, uma Itália assertiva, assumindo o jogo, criando oportunidades, rematando, fazendo uso da criatividade de Pirlo para truques mágicos, dando asas aos laterais, tornando-os alas, usando da disponibilidade de De Rossi para ter superioridade numérica nos seus últimos redutos. Em suma, a mudança, a iniciativa no jogo, a pedrada no charco.

Depois do golo, na segunda metade, o sempre… a demonstração que um sentimento, uma ideia, um modo de conceber a vida durante cinquenta anos não se destrói em dois jogos… e a equipa recuou! Não se viram os alas subir e meter Srna e Strinic em respeito, ao invés foram estes que os meteram no bolso. De Rossi, em vez de demonstrar a sua capacidade táctica, assumiu o papel de terceiro central. O triângulo do meio campo foi recuando até quase se encostar à tríade central, o que levou a que Pirlo ficasse cada vez mais longe dos centros de decisão e permitiu que o brilho das estrelas passasse para a ponta das chuteiras de Modric e Rakitic, e os avançados, mesmo depois com Di Natale, isolados na sua irreverência, impotentes para suster o avanço colectivo do adversáro!

Daí, até à perda da batalha do meio campo e ao golo de Mandzukic foi uma questão de tempo, um momento em que apesar das inovadoras ideias, o malogro de 2006 esteve bem presente! É que apesar de se gizarem novos modos de conduta, os estados de alma não se alteram de um momento para o outro… e esse será o grande óbice à azurra para a realização de um grande europeu!

Vasco Rodrigues

Vasco Rodrigues é da cidade onde nasceu Portugal e, actualmente, exerce advocacia. Além de administrador do blog deuses da bola (www.deusesdabola.blogspot.com), é colaborador assíduo do www.vitoria1922.com, um site não oficial do Vitória de Guimarães. Vitoriano assumido, vive o futebol como um fenómeno global, independentemente de clubismos.

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