A importância dos “estrangeiros” no futebol europeu

O tema não é novo e não se restringe apenas ao nosso país. Estou a falar do excesso de “estrangeiros” a actuar no nosso futebol. Este problema surge um pouco por toda a Europa e com especial incidência em Inglaterra. E é precisamente deste país que vou falar.

Em Inglaterra sofre-se do mesmo mal que em Portugal quanto ao número exagerado de “estrangeiros”. Os motivos são bem diferentes, mas as consequências semelhantes. A selecção inglesa, tal como a portuguesa, revela uma clara falta de escolhas em termos de talento o que pode à primeira vista parecer estranho. Estamos a falar de um dos campeonatos mais ricos e competitivos do mundo, de equipas recheadas de excelentes jogadores e sucesso futebolístico. Ora aqui está um dos principais motivos da falta de talento caseiro em Inglaterra. Os clubes têm um poder económico tal que, ao invés de apostarem na formação, recorrem à compra dos melhores jogadores por esse mundo. De tal forma que poucos jogadores ingleses têm espaço nas equipas do seu país. Ou de qualquer outra selecção de topo, para sermos sinceros.

Anelka, ChelseaAs fracas prestações da selecção inglesa nos últimos anos, em contraste com o grande sucesso das suas equipas, veio alertar os responsáveis e desencadear uma procura para solucionar o problema. Juntamente com uma solução para o talento inglês, procura-se também uma solução para o incrível endividamento e caos financeiro em que muitos clubes britânicos se encontram. Nesta ordem de ideias, foram criadas uma série de regras que serão aplicadas na época que se está a iniciar. Regras essas que visam garantir uma cota mínima de jogadores caseiros, ou “home-grown players” como por lá são designados. As regras são relativamente simples: todos os clubes terão que inscrever, num plantel de 25 jogadores, pelo menos 8 jogadores “home-grown”. E o que são estes jogadores? São jogadores que estiveram inscritos num clube inglês (ou galês) pelo menos por 3 épocas entre as idades de 16 a 21 anos. De ressalvar que os jovens não necessitam de ser obrigatoriamente britânicos, podem ser estrangeiros.

Tudo isto vem de acordo com as recomendações da UEFA para se apostar mais na formação e apoiar aos jovens jogadores nacionais. As contrapartidas são evidentes, aumenta-se o valor dos jovens nacionais, diminui-se os gastos com as contratações milionárias e, equilibrando-se as finanças dos clubes. Todos ganham. Bem, todos não. Os empresários não devem gostar muito disto. Sabe-se bem que o dinheiro e interesse em volta do mercado de transferências são poderosos. A resistência, por parte daqueles que têm bastante a perder, será feroz e poderá bloquear noutras paragens as mesmas medidas. Além disso, os clubes sul-americanos irão sofrer muito, pois são a principal fonte de fornecimento de jogadores para a toda-poderosa Europa. Parece-me mesmo que estes clubes vivem muito destas “exportações”. Talvez por este facto a FIFA, ao contrário da UEFA, tenha avanços e recuos nesta matéria.

Em Portugal temos as duas faces desta moeda, temos um excesso gritante de jogadores estrangeiros, o Braga será o exemplo melhor com os portugueses a representarem menos de 20% do seu plantel. Também por cá se encontram dificuldades em recrutar para a selecção nacional a um nível que todos desejaríamos, recorrendo-se a nacionalização de atletas de outros países e ainda assim com sectores nitidamente pobres em soluções, nomeadamente o sector atacante. Pauleta terá sido o último dos ponta-de-lanças portugueses com real sucesso. Na outra face, temos clubes que ganham muito dinheiro com boas compras e melhores vendas. Sendo esse factor, de resto, uma das soluções para equilibrar orçamentos e aumentar a competitividade.

Estarão os ingleses certos na aposta que estão a fazer? Eu creio que sim e acredito ainda que se Platini conseguir fazer prevalecer as suas ideias, muito em breve toda a Europa se vai pautar pelas mesmas regras. Anjo ou demónio o tempo o dirá, mas o que é certo é que os problemas são reais e o estado financeiro dos clubes caótico.
Uma última ideia para o nosso país, a legalização das apostas. Já muitos sites de apostas ganham dinheiro à custa do nosso campeonato, porque não ganharem também os clubes e as entidades ligadas ao futebol a sua parte?





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