Individualidades “Madrileñas”

Após todos os encontros desta semana europeia, de entre todos os resultados que se registaram, uns mais inesperados que outros, há um facto que sobressai claramente: as duas equipas da capital espanhola que participavam nas provas europeias apresentavam mais um conjunto de individualidades do que uma verdadeira equipa. Embora com características distintas, Real e Atlético denotaram nos seus respectivos jogos estarem dependentes em demasia de alguns elementos nas suas equipas, onde mecanismos e processos de conjunto revelam ausência de rotina e entrosamento, demonstrando níveis insuficientes para equipas que competem anualmente em provas da UEFA.

Começando pelo Atlético de Madrid, sem discutir as fraquezas da equipa em termos do seu plantel, é de realçar a inoperância evidenciada pelos seus dois médios-centro no jogo a contar para a Liga Europa contra o Sporting. Num sistema de 4-4-2 clássico e linear desenhado por Quique Flores, pressupõe-se que o duplo-pivot formado no meio campo seja capaz de acompanhar os restantes sectores na equipa quer nos momentos defensivos quer naqueles em que a equipa se encontra em ataque rápido ou continuado. E várias lacunas saltam à vista em ambos os momentos. Na transição ofensiva rápida ou em movimentos de contra-ataque, verificou-se uma grande tendência em colocar prontamente bolas nas laterais para os extremos (Reyes ou Simão, depois Salvio), ou directamente num dos avançados (Aguero ou Forlán) para que estes retessem a bola esperando a aproximação de apoios. O problema consistiu na constante demora destes em chegar rapidamente para dar esse apoio, ou, para ganhar eventuais segundas-bolas. Os ataques dos colchoneros basearam-se sobretudo nos raides de Reyes ou na inspiração de Aguero. Se porventura a bola não chegava a um destes jogadores, as acções da equipa resumiam-se a tentar manter a posse de bola, sem revelar qualquer dinamismo ou processos e movimentos estudados.

Parece faltar à equipa um médio box-to-box, com visão de jogo, sentido táctico, mais pulmão e técnica de modo a ser como um pêndulo para a equipa, para ser um ponto de referência no meio campo quando a equipa tem a posse de bola, para no passe mudar o flanco de jogo ou as áreas do campo onde incidir nas acções atacantes. Daí talvez a importância que se deu à impossibilidade de Tiago poder jogar. Por exemplo, por diversas vezes durante o encontro com o Sporting se viu Reyes a fazer passes de um flanco ao outro, ou a tentar encontrar outros jogadores em zonas menos congestionadas do campo. Tal deveu-se à falta de apoio dos médios centro – Paulo Assunção e Raul Garcia, – que muitas vezes se encontravam posicionados em linha ou demasiado no seu meio-campo.

Cissokho e RaulNo caso do Real Madrid, a dependência nas suas individualidades não é tão evidente pois a qualidade dos seus jogadores é muito mais elevada comparativamente aos seus rivais da cidade, em todos os sectores da equipa. Tal permite “disfarçar” até certo ponto a ausência de mecanismos bem trabalhados e entrosados, particularmente quando defrontam equipas com um nível mais elevado, como se viu esta época contra o AC Milan, Barcelona, Sevilha e agora contra o Lyon. Ao ser alvo de uma pressão mais alta ou ao jogar contra um meio-campo adversário mais povoado, a equipa revela uma incapacidade para sair a jogar com uma troca de passes curtos ou para se libertar de situações de inferioridade numérica. Nesses jogos, por vezes sobressai o trio Káká – Higuain – Cristiano Ronaldo, se a bola lhes chegar em condições, pois a sua qualidade individual intercalada permite muitas vezes decidir ou virar o resultados de uma partida. Repare-se no jogo contra o Sevilha: dois grandes golos de Higuain, mas sem uma grande exibição da equipa, apenas um grande espírito de luta e vontade em virar um resultado de desvantagem.

Esta incapacidade da equipa nota-se ainda mais quando está ausente da equipa o jogador que, apesar de algo lento, detém melhor qualidade de passe e capacidade de gerir os ritmos de jogo: Xabi Alonso. Contudo, a capacidade mais importante do centrocampista espanhol é o seu passe longo, pois é por esta via que a equipa tem de recorrer quando se vê apertada no seu meio-campo ou incapaz de sair a jogar. Contra o Lyon, com Xabi Alonso lesionado, coube a Guti ocupar a sua posição, e as deficiências da equipa ficaram por demais evidentes. Apesar de possuir uma grande visão de jogo, a frescura física e sentido posicional a defender e atacar permitiram à equipa francesa anular facilmente os seus movimentos e os de Diarra, anulando assim os principais elementos que poderiam direccionar bolas para os desequilibradores da equipa. Como tal, os lances de destaque dos merengues resumiram-se aos falhanços de Higuain e aos raides de Cristiano Ronaldo, nada mais.

Guti disse, após a eliminação da Champions que o Real Madrid não sabe jogar os grandes jogos e que a equipa não podia lutar como se não fosse uma equipa. Uma das referências do clube parece já ter entendido o que se passa com a equipa, resta saber se os restantes jogadores e Manuel Pellegrini querem depositar os esforços pela conquista da Liga na soma das individualidades da equipa. Para os lados do Atlético de Madrid, a recente melhoria de resultados e classificação no campeonato (10º), parece ser o suficiente para evitar que se gerem mais indícios de descontentamento pela óbvia dependência da equipa nas suas estrelas.





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