Sérgio Conceição, um ganhador irreverente

Surpresa das surpresas… o anúncio da retirada de Sérgio Conceição, ele que era um símbolo dos gregos do PAOK, deixou toda a gente estupefacta. Efectivamente, apesar do tentador convite provindo de Vryzas para assumir o cargo de director desportivo da equipa, ninguém esperaria que Conceição não chegasse ao fim da época, jogando, recalcitrando com os árbitros, enfrentando os adversários.

Lembro-me de o ter visto, pela primeira vez, há já muitos anos, numa memorável equipa do Felgueiras, treinada por Jorge Jesus, no único ano em que os durienses estiveram na I Liga. Corria o ano de 1995 e o jovem com vinte e um anos estreava-se no escalão máximo português, após passagens por Leça e Penafiel. O seu talento, em Felgueiras, refulgiria… numa equipa atrevida, que Jesus gostava de dizer que jogava como o Barcelona, não fosse pelo menos pelo equipamento azul-grenã, o extremo direito brilhava a grande altura na ala direita, que na altura era toda dele. Denotando grande disponibilidade física e um pulmão que lhe permitia durar o jogo todo destacar-se-ia a grande nível, e nem mesmo a quebra que a equipa experimentou, na segunda metade do campeonato, o que inviabilizou a manutenção, travou o deslumbramento do país futebolístico com o jovem médio.

Tanto que assim era que o Porto, pela mão de António Oliveira, vindo, directamente, da Selecção, tratou de o resgatar… e a entrada no Porto seria de dragão. Oliveira sempre foi o homem das apostas surpreendentes e arriscadas, e com Sérgio não seria diferente! A surpresa de lançar em Milão, às feras, um menino que no ano anterior calcorreava os humildes corredores do Machado de Matos foi total, mas juntamente, com os estreantes Zahovic, Artur, e um avançado brasileiro de nome Mário – Mário Jardel, para semos mais precisos – colocariam a Europa com a boca aberta de espanto. Uma vitória por três a dois em San Siro e Sérgio a apresentar o seu cartão de visita na Itália que passados uns anos trataria de o acolher!

E assim seria. Após tudo ganhar, internamente, no Porto onde ocupava todas as posições na banda direita, Itália resolveu acenar-lhe… logo a Lazio, por aqueles dias,uma séria contendora à ordem reinante dos tradicionais campeões. Cragnotti ambicionava um grande título e com Sérgio na direita, Nedved na esquerda, todos os sonhos seriam possíveis… e foram, na realidade! Logo no primeiro ano da sua aventura transalpina, uma inolvidável vitória na Taça das Taças frente a um Maiorca, que por essas alturas, encarnava a doutrina cuperista na sua máxima essência. Mas nem Cúper conseguiu dobrar uma Lazio que demonstrava tiques de colosso europeu! E essa vertigem ascendente, seria confirmada no ano seguinte com a conquista do scudetto, na última jornada, numa disputa digna de Hitchcock. Numa pugna tripartida, ao segundo, com Juventus e Inter!

Mas o mundo do futebol é algo de mutável, e de prescindível, Conceição passaria a vendável. Assinaria pelos gialloblu de Parma, onde se tornou o que foi em todos os clubes por onde passou: imprescindível! Mas antes dessa transferência, Sérgio viveu o momento mais alto da sua carreira no Euro 2000, jogando a lateral direito num jogo contra a Alemanha. Humberto Coelho, seleccionador da altura, apostou num surpreedente 3-5-2, e realizou um turn-over na equipa, tendo Sérgio a oportunidade, tantas vezes reclamada… e impossível até então por existir na equipa, por essas eras, o melhor jogador do mundo, chamado Luís Figo! Pois bem, Sérgio provou merecer o lugar com uma exibição, que quem assistiu jamais esquecerá. Um hat-trick perante uma atarantada Mannschaft que nesse dia demonstrou a necessidade de se renovar, e na despedida desse monstro sagrado de nome Lottar Mathaus brilhou um jovem humilde, mas empertigado, de Coimbra e cuja infância houvera sido dolorosa e sofrida, com a morte precoce dos progenitores!

Sérgio Conceição e Rui CostaA partir daí, necessidade de Sérgio ser titular da equipa. Assumiria a posição de lateral direito e a segurança das suas exibições despertaria a cobiça do Inter. Aí viveria na pele o momento negro do Inter, por esses dias em plena crise de resultados e de identidade… e nem mesmo realizando quarenta e dois jogos em duas épocas, ganharia um estatuto de imprescindível! A saída nas constantes renovações empreendidas, por esses dias, por Moratti era óbvia. Saíria sem honra nem glória regressando à Lazio, onde a curva descendente, teimosamente, continuava a subsistir! Sairia a meio da época, regressando ao Porto, a um Porto construído com laivos de grandeza por Mourinho e onde Sérgio desempenhou quase um papel de artista convidado. Não podendo actuar nas epopeias da Champions, por estar previamente inscrito pela Lazio, assistira da bancada à inolvidável conquista europeia, e insatisfeito com a pouca utilização, abandonaria o Porto para não mais voltar.

Por estes dias, selar-se-ia a sua despedida da selecção, após o famigerado jogo de Guimarães, que Portugal perdeu por três bolas a zero com a Espanha. Ao certo, porém, nunca ninguém soube o que ocorreu, mas a verdade é que a carreira internacional de Conceição findou aí, ficando arredado do Euro 2004. Após a saída do Porto e um período de indefinição, chegaria à Bélgica onde ajudaria o Standard a retomar o caminho do sucesso. Tornar-se-ia alma da equipa, o seu maior símbolo e daria asas ao seu tradicional mau feitio, agredindo um árbitro… mas, independentemente da suspensão que foi alvo, a honra de na época 2004/2005 ter sido considerado o melhor jogador do campeonato e simultaneamente ter ajudado a crescer jovens promissores como Defour ou Witsel.

Em 2007 sairia rumo à Arábia Saudita onde não aguentaria muito tempo! Voltaria à Europa, ao PAOK treinado por Fernando Santos. No ambiente frenético de Atenas, nada melhor para Sérgio se exprimir.Ttornar-se-ia o líder da equipa, mas também o seu elemento mais contestatário! Apesar das expulsões, dos recorrentes acessos de mau génio ajudaria a equipa a alcançar, pelas mãos do Engenheiro Fernando Santos, um inolvidável segundo lugar, e acima de tudo a certeza de ser um verdadeiro ídolo!

Resolve, agora, dar por finda uma carreira repleta de êxito, para se tornar director desportivo. Passados estes anos apetece questionar se valeram a pena todos os episódios, todas as guerras, todas as arrancadas, todos os cruzamentos milimétricos? E a resposta só pode ser uma: valeu para Sérgio, pela sua carreira e para todos que tiveram a felicidade de um dia ver toda a sua paixão ao jogo. Obrigado por isso… por nunca desvirtuar a essência do futebol que é o amor ao jogo.


Sérgio Conceição no Euro 2000





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