O muro caiu há 20 anos…

A imagem interna deste artigo é tirada dos ultras do Dynamo de Dresden, outrora um dos maiores clubes da antiga República Democrática Alemã, hoje penando nos escalões secundários. Efectivamente, de há vinte anos para cá tudo mudou… o desporto, meio de afirmação para os alemães de Leste, tornou-se um símbolo de decadência, e clubes como o Dresden, o Leipzig ou o Karl-Zeiss Jena deixaram de ter relevância no meio futebolístico europeu e até germânico!

Mas, até há vinte anos não era assim. Importará referir que o principal ideólogo da RDA, Manfred Ewald, detestava futebol, já que achava que era algo que não trazia resultados imediatos como meio de propaganda do regime; tal facto devia-se ao pouco trabalho científico nos treinos e à pouca relevância de intervenção de meios extra-científicos nos atletas – vulgo doping. No futebol, tal não era possível, já que, como todos sabemos, a bola é redonda e sendo colectivo, colidia com os propósitos de grandeza propagados pelos comunistas, que apenas pretendiam a colectivização política. No desporto, deveriam prevalecer os seus atletas dopados… mas como símbolos de propaganda!

Aliás, a comprovar tal facto, relembremos as 409 medalhas ganhas em Jogos Olímpicos pela RDA, em apenas cinco edições. Quantas ganhou Portugal em toda a sua história? Compare quem quiser! Mas sem dúvida que o desporto mais popular era e sempre foi o futebol… o desporto do povo na RDA, em Portugal, ou em qualquer parte da Europa. Na Oberliga (a competição criada pelo establishment político) a média e espectadores dos jogos cifrava-se em dez mil por partida; sendo que muitos alemães de leste, tinham o seu coração do outro lado do muro… Bayern, Estugarda ou Bremen sempre foram clubes de cariz nacional e não local.

A título de exemplo, o jogo do Dynamo de Dresden contra o Bayern foi visto na televisão por 58,4% de germânicos. O mítico e inolvidável derby das duas Alemanhas, no Mundial74 teve uma audiência de 70,7%. Quanto a jornais eram dois, exclusivamente, dedicados ao futebol. Nem um dos governos mais tiranos da humanidade conseguia colocar um freio em tanto amor. Assim, contra a vontade, teria de o aceitar e procurar retirar os máximos dividendos dessa união de conveniência!

Apesar deste aparente desprezo, o chefe da STASI – os Serviços Secretos da Alemanha Oriental – era um fanático do desporto-rei! Como dirigente dos Dynamos, os clubes ligados às forças de segurança e ao governo, principalmente ao Ministério do Interior, Mielke, de seu nome, transferiu a equipa do Dynamo de Dresden para Berlim, olvidando a vida dos jogadores, arruinando-a, já que os separou, sem dó nem piedade, das suas famílias… apenas ganhar era essencial! A partir daí, Mielke controlou a competição a seu bel-prazer, destinando o que iria suceder e como iria acontecer.

Dynamo DresdenDe 1979 a 1988 o Dynamo de Berlim foi sempre campeão… nove vezes seguidas, lançando dolorosas suspeitas sobre a verdade desportiva. Algo que na RDA nem sequer se equacionava existir! Ademais, comprovou-se que durante esse período pelo menos três árbitros eram espiões da STASI, logo empregados de Mielke, bem como muitos jogadores. O mais famoso dos atletas a ser recrutado como espião, já que os jogadores também alinhavam nestes esquemas, terá sido Ulf Kirsten, que muitos se lembrarão por o ver actuar na Mannschaft reunificada, ou no Bayern Leverkusen, aquando do épico jogo com o Benfica, que findou empatado a quatro golos. E a influência arbitral dos empregados de Mielke era tanta que já fazia parte das regras jogadores que na jornada seguinte fossem actuar contra Dynamo acabassem expulsos no prélio anterior.

É célebre a grande penalidade apitada aos oitenta e cinco minutos, na última jornada da Oberliga1986, a favorecer o Dynamo no jogo contra o Lokomotiv Leipzig, e que deu o título aos primeiros. E que dizer, quando o Dynamo de Dresden celebrava em 1978 nos balneários o seu título da liga e Mielke entrou para anunciar solenemente que, desde então os campeonatos passariam a ser ganhos pelo Dynamo de Berlim. Sabem o resultado? O Dynamo berlinês arrebatou os dez títulos subsequentes!

O estádio do Dynamo, muito perto do Muro, só podia encher-se pela metade, a metade que estivesse mais distante do Muro! Na outra metade, polícias e militares vigiavam para que nada escapasse do controlo. E em jogos de competições europeias, os lugares eram, simplesmente, para membros do partido e do governo, que para melhorar as suas condições de vida os passavam no mercado negro… esclarecedor! Todavia, o controlo da competição não era o aspecto essencial para a STASI. Já que o futebol e os clubes procuravam fugir ao controlo de modo a manter os atletas satisfeitos (os jogadores tinham por hábito receber mais do que constava no contrato, recebiam prémios das empresas que financiavam os clubes e que para não levantar suspeitas eram depositados em bancos estrangeiros), sempre que existia alguma suspeita de algo que atentasse contra o sistema, existia uma severa punição. Mielke odiava traidores… e se estes fossem futebolistas, esse ódio crescia exponencialmente!

Em 1979, Lutz Eigendorf, o Beckenbauer do Leste, desertava a seguir a um jogo amigável da sua equipa, o Dynamo, contra o Kaiserslauten, na parte ocidental do país. Um documentário recente revela que Mielke mandou cinquenta espiões controlar todos os seus passos; e em 1983 Lutz falecia vítima de um estranho acidente numa estrada alemã, em plena recta e sem qualquer carro que lhe tenha importunado a marcha… no mínimo aterrador! Dois anos depois, dois jogadores da selecção foram encarcerados por se suspeitar que iam fugir, aquando duma partida internacional na Argentina. Os clubes da Oberliga tiveram a sua participação nas competições europeias vedada pelo próprio governo, de modo a impedir contactos com o capitalismo reinante na Europa desenvolvida e civilizada; todavia esta proibição acabou por ser levantada, e nos anos 70 – coincidindo com o famigerado programa de dopagem dos desportistas – teve alguns êxitos relevantes, a nível europeu. O Magdeburgo ganhou a Taça das Taças em 1974 ao Milan – tendo batido o Sporting, por alturas do 25 de Abril – e em 1987 o Lokomotiv de Leopzig perdeu a final da Taça UEFA contra o Ajax.

Quanto à selecção nacional, foi campeã olímpica de Montreal em 1976 (3 a 1 contra Polónia), e as equipas dos seus escalões jovens eram extremamente competitivas. Pelo contrário, a selecção principal apenas por uma vez se qualificou para um Mundial; o de 1974. Sim, na República Federal Alemã! E ironia das ironias, as duas Alemanhas emparceiraram no mesmo grupo. O embate sucedeu em Hamburgo, a 22 de Junho. O único confronto entre as duas Alemanhas que alguma vez se produziu na história. Os glamorosos Vogts, Breitner, Beckenbauer ou Muller, treinados por Helmut Schon (um desertor da RDA que habitualmente comprava ingressos e os vendia aos adeptos do outro lado do muro), tombavam por 1-0 contra os homens do lado de lá do muro. O golo, de Jurgen Sparwasser, o avançado do Magdeburgo que também desertaria no fim dos anos 80, foi o maior triunfo que os comunistas de Leste tiveram sobre a Europa capitalista e desenvolvida. Quando Erich Hamann desmarcou o número catorze, que fuzilou Sepp Maier, os membros do Politburo – parlamento da Alemanha de Leste – levantaram-se dos seus lugares, ainda que nada entendessem do jogo. No fim, uma vitória para a história, ainda que de efeitos práticos nada existisse… a RFA sagrar-se-ia campeã do mundo, para desespero da Laranja Mecânica, uma das melhores equipas da história do futebol moderno!

A Oberliga aguentaria dois anos após a Queda do Muro, até 1991, e as suas equipas, a partir daí, têm vagueado pelas divisões inferiores do futebol da Alemanha unificada, com presenças esporádicas na Bundesliga. Aqui destacam-se o Hansa Rostock e o Cottbus. Hoje, o Hansa Rostock, o Union de Berlín e o Energie Cottbus (a equipa da chanceler Angela Merkel), como já foi referido, empunham a bandeira da extinta RDA na Bundesliga 2, e os demais pulam pelas divisões subterrâneas do futebol alemão… até mesmo nos regionais! Todavia, alguns atletas nascidos na RDA fazem-nos lembrar que um dia esta existiu: Matthias Sammer, Jens Jeremies, Andreas Thom e o mais notável de todos, actualmente a actuar no Chelsea, Michael Ballack. Por estes dias, a ironia vive ao lado da realidade. O Dynamo de Berlim (que recuperou o seu nome dos tempos comunistas, mediante uma petição dos seus adeptos) é o clube que alberga no seu seio a extrema direita. Os seus poucos adeptos, são, maioritariamente, descendentes de governantes da antiga RDA, skinheads e demais elementos marginais da sociedade.

E pensar que o Muro só caiu há vinte anos, os blocos se esboroaram… e o futebol, tantas vezes retrato da sociedade vigente e que ajudou ao formentar do regime – ainda que de modo contrariado – não conseguiu evoluir, acompanhando o aparecimento de clubes, ainda da parte Ocidental, como o Wolfsburg, Hoffenheim, ou até o Hertha proveniente de Berlim Ocidental.





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