Brasileirão 2009: emoção e equilíbrio que confundem
Qual competição disputada na fórmula dos pontos corridos com 20 clubes é capaz de chegar à penúltima rodada com seis equipes ainda com chances matemáticas de conquistar o título e apenas uma já matematicamente rebaixada?
O campeonato brasileiro deste ano é a resposta. Em sua edição mais equilibrada desde que houve a mudança no regulamento em 2003, a disputa é tão parelha que a diferença entre o líder São Paulo e o sexto colocado, Cruzeiro, é de apenas seis pontos. E do time mineiro para o Botafogo, o 16º e primeiro fora da zona de rebaixamento, é de míseros 12 pontos dentro de um contexto de 36 rodadas.
Os números são reflexo do que acontece nos gramados. A possibilidade de uma equipe na zona de rebaixamento superar o líder do campeonato de forma inapelável, como aconteceu na 29ª rodada, com o Náutico vencendo o Palmeiras por 3 a 0 em Recife e mais recentemente com o Botafogo batendo o São Paulo por 3 a 2 no Engenhão, de fato, deixa tudo muito mais emocionante e imprevisível. Mas não é garantia de espetáculo.
Ainda que jogadores do nível de Ronaldo, Adriano, Fred, Vágner Love e Ricardinho tenham retornado ao país e feito com que suas equipes ganhassem em técnica, nenhum time conseguiu fascinar seu torcedor e as partidas memoráveis até agora, como, por exemplo, a vitória do Flamengo por 3 a 1 sobre o Atlético-MG e a virada do Fluminense para cima do Cruzeiro por 3 a 2, ambas no Mineirão, empolgaram muito mais pela intensidade e importância das partidas do que pelo brilho coletivo ou individual.
O próprio tricolor paulista, que está no topo da tabela, um ponto à frente do Flamengo, parece mais frágil do que nas três conquistas anteriores e, independente do que ocorra nos próximos dez dias, o vencedor será o de pior aproveitamento da era dos pontos corridos. Se o time são-paulino, hoje comandado por Ricardo Gomes, ex-Bordeaux, Monaco e PSG, vencer as partidas que lhe restam, conquistará apenas 63% dos pontos disputados.
Ao perceber times considerados virtualmente rebaixados, como o Fluminense, ou totalmente alijados da briga pela taça, como o Internacional, ressurgirem das cinzas e voltarem à luta, muitos torcedores, jornalistas, jogadores e treinadores se empolgam e dizem que a competição é a mais disputada e, portanto, a melhor do mundo.
Não é e não há como ser. Por conta do êxodo, até jogadores medianos saem do país para tentar a vida na Europa ou são seduzidos pelo dinheiro dos Emirados Árabes ou do Qatar. De fato, a possibilidade de testemunhar um duelo entre Ronaldo, que liderou o Corinthians na conquista da Copa do Brasil, e Adriano, artilheiro absoluto com 18 gols e um dos destaques do campeonato, no Corinthians x Flamengo em Campinas na próxima rodada, indica um enorme progresso em relação a outros anos, mas a questão econômica motiva e justifica a diferença de talento: os grandes craques, no auge de suas carreiras, estão onde pagam mais e oferecem melhores condições. Não é o caso do Brasil, ainda.
Até porque a questão envolve um conceito que existe desde os primórdios do esporte bretão: os campeonatos devem premiar os melhores e o grande campeão e uma ou outra equipe marcante é que devem ser eternizadas. E não o “achatamento” e a insanidade de uma competição com 90% das equipes mostrando um futebol nivelado por baixo, mesmo com alguns bons destaques individuais, como Diego Tardelli do Atlético-MG, e gratas revelações, como o meia Giuliano do Internacional.
Por isso, o corações dos torcedores das equipes ainda lutando por algum objetivo e dos muitos apaixonados pelo futebol no país cinco vezes campeão mundial ainda vão bater forte até o dia 6 de Dezembro e jogos de tirar o fôlego virão cercados de polêmica, por conta de arbitragens infelizes e decisões sem critérios dos tribunais de justiça desportiva, e saturadas de dramaticidade.
Mas a tensão e a incerteza que aquecem as veias não podem embotar a visão: o campeonato que é, sim, histórico e inesquecível, definitivamente, não encanta as retinas.



