Pedro Mendes, o estratega discreto
Lembro-me de Pedro Mendes, desde os tempos em que nas camadas jovens do Vitória já se evidenciava dos demais. Mesmo actuando, ao lado de outros jovens com uma valia muito acima da média, tais como Rego, Lima, ou Nuno Mendes, o talento daquele jovem nascido em 26 de Fevereiro de 1979, em Moreira de Cónegos, sobressaia. A sua sublime visão de jogo, entrecortada com a capacidade de fazer passes teleguiados que saciavam a gula dos avançados, desde cedo lhe pareciam augurar aquele caminho que os predestinados trilham.
Todavia, nem tudo seria fácil na sua carreira. Apesar do seu talento no meio campo ser algo de notório, onde desde cedo se vislumbrava que poderia ser um box-to-box de nível europeu, teria de suportar um empréstimo ao extinto Felgueiras. Aí, numa equipa que contava com Khadim (seria guarda-redes do Boavista), e com os, também, vitorianos Meira, Lixa e treinados por Diamantino Miranda, cedo se percebeu que a pedra valiosa podia-se transformar em diamante… com efeito, a passagem pelos escalões inferiores do futebol português conferiram-lhe uma entourage física que lhe passaram a permitir correr quilómetros. Algo que lhe faltava era então ganho, numa época brilhante, onde o Felgueiras falharia a subida nos últimos jogos.
Após essa época, haveria de regressar a Guimarães, onde na sua primeira época completa, não haveria de brilhar… muito menos jogar! Mas, na época seguinte, em 1998-1999 começaria a refulgir. O Vitória treinado por Quinito, assumia a necessidade de uma renovação e nada melhor que apostar nos jovens vitorianos e vimaranenses que haviam sido fabricados na Unidade. A equipa que na primeira jornada jogaria em Setúbal já era o espelho dessa ambição; jovens como Meira, Rego, Lixa, Jairson, Lima ou Pedro Mendes nesse primeiro jogo, apesar do empate, encantaram, com um futebol desinibido e atraente não fosse Quinito o último dos românticos! Mas, a época acabaria mal. Desaguizados entre Quinito e Pimenta Machado e concomitante chicotada; a abrupta rescisão de Fernando Meira, iludido por Vale e Azevedo; e uma quebra súbita da jovem equipa destruíram uma temporada que prometia ser brilhante.
Na duas épocas seguintes, Mendes sofreria… primeiro com Autuori e posteriormente com Inácio haveria de ter de deixar a pele em campo para ganhar um lugar no onze principal. Todavia, haveria de o conseguir e seria parte numa das épocas em que o futebol vitoriano foi mais inebriante. Jogando em Felgueiras, por obras no Afonso Henriques, o Vitória da época 2002-2003 e treinado por Inácio era um prontuário de bom futebol. Utilizando um sistema inovador de 3-5-2 explanado a todo a largura do terreno, inúmeras sinfonias eclodiram por esses campos fora. Aliás, caso se pergunte a qualquer um dos milhares de adeptos vitorianos existentes, eles recitarão, sem se enganar, os nomes que compunham essa inolvidável equipa… eram tempo em que Pedro Mendes constituía sociedade com o actual Pequeno Mágico do futebol vitoriano, Nuno Assis, no sentido de fazer de Romeu um avançado de topo do futebol português. Sucediam-se os passes teleguiados, as tabelinhas de calcanhar, as penetrações impossíveis de sustentar, um futebol mágico que só não foi recompensado com uma ida às competições europeias, porque nesse ano o quarto lugar não foi contemplado com tal prémio.
Com futebol tão perfumado não haveriam de faltar pretendentes. Acabaria por assinar pelo Porto, onde por necessidades de Mourinho, que pretendia implantar o célebre 4-4-2 losango, acabaria por tornar o seu jogo mais discreto e táctico. À vertente técnica, Pedro Mendes passava a aliar a vertente táctica… uma leitura irrepreensível dos momentos de jogo, um mestre no jogo de compensações, e a honra de ser titular em Gelsenkirchen, sagrando-se campeão europeu, num meio campo composto por si, Costinha, Deco e Maniche. O vimaranense tocava o céu e fazia a Europa perder a cabeça pelas suas qualidades.
Sairia para Inglaterra, para o Tottenham. Nos Spurs, pela primeira vez, a sua estrela deixaria de refulgir com tanta intensidade. Os problemas de adaptação de quem nunca deixara de morar na sua cidade natal, bem com o futebol, excessivamente directo, para quem gostava de tocar a bola, acariciando-a antes de a deixar, triste, partir para outros pés, tornaram a sua estada em Londres triste. Em duas épocas faria, apenas, trinta jogos e sairia sem honra nem glória para o Portsmouth, onde daria novo fulgor à sua carreira. Aí, ao lado de homens como James, Defoe, Crouch ou Kranjcar haveria de tornar os Pompeys num clube temido na Old Albion, chegando mesmo a vencer uma FA Cup, perante o Cardiff City. Inolvidável, o momento em que Mendes com o cachecol de quem o fez homem – o Vitória – enrolado no braço, tocou a Taça desta competição centenária.
Saíria, no fim dessa época para a Escócia, para os Rangers, para os ajudar a esbater o que ameaçava já ser um crónico domínio do Celtic. Para viver o distinto ambiente do Old Firm quando católicos e protestantes se enfrentam num campo de futebol, e assumir-se como pedra vital no retorno dos Protestantes de Glasgow ao título. O médio centro, haveria de se tornar na pedra mais preciosa da zona medular dos Rangers, ajudando o almejado título a chegar. Na presente temporada, na Champions, a sua influência seria comprovada, a capitão da equipa. Todavia, existia uma pedra no sapato numa carreira tão preenchida. Após a estreia na selecção portuguesa pela mão de Agostinho Oliveira e algumas chamadas, Scolari houvera-o esquecido. Mesmo Queiroz que o chamara no início desta campanha, ameaçava olvidar a qualidade do vimaranense. Porém a lesão de Tiago abriu-lhe as portas para integrar o grupo nestes dois últimos jogos… e o castigo de Pepe garantiu-lhe a titularidade! E comprovou o quanto a merecia. Apesar de a sua discrição parecer que está afastado do jogo, há sempre um equilíbrio que é bem feito, uma recuperação astuta que permite iniciar um contra ataque, ou um passe de trinta metros que permite descompensar a desprevenida defesa contrária. Tudo pela calada da noite, não assumisse Mendes um low-profile tão ao gosto british, não fosse lá que tivesse atingido a sua maioridade futebolística.
Frente à Hungria comprovou, que, talvez, seja o volante defensivo com melhor qualidade passe após Paulo Sousa… uma alternativa credível a Pepe no posto de pivot defensivo, agora que a África do Sul começa a sorrir para Portugal.



