Treinador, entre a besta e o bestial

É uma das profissões mais instáveis em todo o Mundo, e são poucos os que se conseguem manter no mesmo local de trabalho por mais de poucos anos. Sujeitos a um stress permanente e esmagador, estes profissionais mediáticos tão depressa são elevados ao estatuto de líderes competentes como no dia seguinte passam por estrategas falhados. Apesar de tudo, a profissão de treinador de futebol continua a ser desejada por muitos. Basta dizer, por exemplo, que no nosso país existem 1800 treinadores certificados para dirigir as equipas da 1ª Liga, onde só apenas 16 podem brilhar.

Na última temporada de futebol no nosso país, foram como habitual diversas as chicotadas psicológicas que puderam ser verificadas. No fim, alguns dos clubes que trocaram de treinador como se troca de camisa hão-de verificar que, afinal, o despedido não tinha culpa nenhuma e o salvador não veio salvar nada. O impulso deve-se ao facto de, por vezes, a famosa chicotada ter os efeitos desejados e daí a esperança de que resulte sempre. Assistimos, então, a curiosas movimentações, como a chamada de treinadores que tinham sido despedidos de outros clubes e esperam, no desemprego, que aconteça o mesmo a outros ilustres colegas. Assim se vai rodando, o despedido de ontem é o contratado de hoje e tentará aguentar-se à tona o máximo tempo possível.

Regra geral, na origem da chicotada psicológica está a pressão dos excelentíssimos sócios e adeptos, que não se conformam com as derrotas nem com as fracas exibições. Pode o treinador estar na maior inocência, devendo-se os desaires ao elementar facto das outras equipas serem pura e simplesmente superiores. Ninguém quer saber. Aos jogadores podem assobiá-los, mas não despedi-los por atacado, o treinador é mais descartável. Muitas têm sido as ocasiões em que os dirigentes procedem à chicotada conscientes de que se trata de um erro e de uma injustiça. Mas, perante a contestação da massa associativa, não há outro remédio que não seja entregar o barco a outro timoneiro. Vivendo nesta insegurança, não é de surpreender que os treinadores – não todos, mas muitos – cometam o pecado de sacudir a água do capote, apontando o dedo a pretensos responsáveis pelas derrotas, quase sempre os árbitros. Naquelas pequenas entrevistas que se fazem no final dos jogos é quase uma raridade que o treinador derrotado não aponte três ou quatro lances em que o árbitro prejudicou a sua equipa. É assim entre os países latinos e sul-americanos, onde os treinadores estão muito mais vulneráveis e sujeitos a uma rotatividade mais acentuada. Entre os ingleses, que têm mais «fair-play» e onde se joga o melhor futebol do mundo, os treinadores ficam bastante tempo à frente das suas equipas. Basta dar o exemplo do Manchester, onde o treinador já lá está há mais de duas décadas, ou de Wenger no Arsenal, há 12 anos. Contudo, e quando analisamos as equipas britânicas de segunda linha, iremos ver que quando os resultados não aparecem, a solução mais simples acaba por ser quase sempre a mesma: o despedimento do técnico principal.

Howard savesOutro factor que pode condicionar é a aposta que os treinadores deviam fazer nos jogadores oriundos da formação, que muitas vezes ou por medo em apostar, ou por outros interesses “estranhos “ e influências de terceiros, essa aposta não é feita. Devo referir que nunca estive ligado ao futebol sénior mas causa-me estranheza algumas justificações que são dadas para não se apostar nesses jovens, frases do tipo “são bons mas não tem experiência” ou “ainda é um miúdo e tem muito de aprender”, etc. Não são estas só desculpas sem qualquer nexo e que certamente complicam a simplicidade de um jogador ter ou não ter qualidade? Não me parece que a idade seja assim um factor tão importante, pior, mais tarde chegam ao clube atletas (estrangeiros ou não) que analisando o seu passado pergunto-me se serão mais experientes… tiveram uma melhor formação? Por isso, parece-me essencial o “factor treinador” pois também é preciso que estes jogadores tenham uma “mão” que os empurre. Em adição, são quase sempre os jogadores da casa aqueles que maior apoio darão ao treinador no seu percurso, na gestão do balneário e até na voz dentro de campo.

Um dos melhores ou piores amigos de um treinador é sem sombra de dúvidas o árbitro. Se não houver modo de pegar nos árbitros – que, na verdade, por vezes, cometem erros incompreensíveis –, o treinador vencido tenderá a atribuir o mau resultado ao azar, às oportunidades de golo incrivelmente perdidas – enfim, a tudo o que não seja da sua própria responsabilidade. Devemos ser tolerantes: é um homem ameaçado no seu ganha-pão. Mesmo assim, cada vez há mais candidatos à carreira de treinador. São, naturalmente, os futebolistas que chegam ao fim da carreira e nunca foram preparados para outro emprego.

A verdade é que ter jeito não basta. Não basta ter paixão ou jeito para o futebol para ser treinador de futebol. Até para as equipas infantis é preciso formação adequada. É neste contexto que existem cursos de formação geridos pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) através de 22 associações regionais e que se encontram distribuídos por 4 níveis. Dispensados do primeiro nível, estão os jogadores com mais de 15 internacionalizações ou os licenciados em Educação Física, com opção em Futebol. Durante os vários níveis de formação, estes profissionais aprendem, para além da táctica e da técnica futebolística, noções de arbitragem, ciências comportamentais e até têm de saber dar massagens. Mas o sucesso, como sabemos, centra-se na capacidade inata de “pegar” num conjunto de rapazes e colocá-los em campo, organizadamente, esperando que estes coloquem em prática todos os seus ensinamentos. E essa, sim, é uma arte ao alcance de poucos.





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