Gourcuff, o último artista gaulês
França sempre foi o paraíso dos artistas. Desde os controversos tempos dos iluministas, que nos cafés parisienses, mentes livres se uniam para discutir e fazer prevalecer as suas ideias… as suas ideologias revolucionárias que divagavam da religião, à arte até à política.
Nesse insigne espaço de ideias livres florescia, como é óbvio, o antropocentrismo. A individualidade do homem perante o demais, a sua diferença perante todos os valores, mas acima de tudo a relevância, a sua idiossincracia perante os demais. Mesmo alguns séculos depois, nos loucos anos sessenta, foi em França que a Europa entrou para a onda revolucionária que já se instalava do outro lado do Atlântico… foi na antiga Gália que surgiram as ondas contestatárias de esquerda, onde os jovens se rebelaram contra os poderes instituídos, onde as divas – Brigitte Bardot, por exemplo – eram aclamadas e onde qualquer artista conseguia ser capa de poster num quarto de um qualquer adolescente na idade da puberdade!
Mas, na antiga Gália o futebol por estas alturas, também, já era visto como uma arte… uma arte semelhante à música de Aznavour, de Edith Piaff ou de Sylvie Vartin. Era o tempo de Just Fontaine, pela primeira vez, fazer sonhar um país com os seus golos no Mundial de 1958, na Suécia… ou o tempo de Kopa primeiro no Stade Reims e depois no mega laureado Real Madrid ser primeiro entre os demais.
O tempo foi passando, e na arte que mais espectadores arrasta e, que por caso, também é desporto, os artistas gauleses foram ficando para a história… falam-nos de um homem franzino com a camisola fora dos calções e lembramo-nos de Platini; sussuram-nos acerca de um terrível goleador que fez fama e fortuna no Marselha e no Milan e está claro: é Jean-Pierre Papin; se nos falam de um inolvidável playmaker que foi campeão mundial em 1998 e passados oito anos numa final, em Berlim, perdeu a cabeça e a arremessou a Materazzi, nem hesitamos: falamos de Zinedine Zidane, o homem com a coroa na cabeça, que pensava o futebol como se uma coreografia de Pina Bausch se tratasse, tal a beleza estética que dos seus movimentos provinha!
Com a sua retirada, pensou-se que o futebol gaulês ficaria órfão da genialidade… sim, existia Ribéry, mas o jogador do Bayern jamais terá na ponta das botas a indolência dos predestinados, o romantismo dos heróis de outrora, quando usavam brilhantina no cabelo e atilhos nas botas. Não, Ribéry acelera pela ala e é um jogador dos tempos modernos, uma estrela de um futebol em que a arte escreve-se a correr como se não pudesse ser saboreada… não! Nunca será dessa estirpe, dos que param para pensar e depois acariciam a bola fazendo dela sua escrava.
O último artista gaulês é Gourcuff, um jovem que vi jogar pela primeira vez em Guimarães, no Euro Sub-21, contra a Alemanha. Nessa selecção floresciam Mavuba, Toulalan ou Faubert… mas desde o primeiro minuto fiquei absorvido pela qualidade do médio ofensivo. Franzino, sem capacidade de resistir ao choque, mas sempre a pedir a bola para a soltar com régua e esquadro para alimentar a voracidade dos avançados. Jogava o jovem Yohann, ainda, no Rennes, tendo como treinador o nosso bem conhecido Lazlo Boloni – que tem como principal hobby lançar jovens talentosos como Gourcuff, ou, tão só, Cristiano Ronaldo – teve facilidade em explodir… as suas jogadas, as suas arrancadas, os seus dribles encantavam, e após esse Europeu, em que só Huntelaar o ofuscou, a saída era inevitável. Seria para o Milan, clube de Berlusconi, que ama tanto as belas mulheres como os grandes calciatores!
Mas em Milano, nada foi fácil. Além de precisar de ganhar músculo, o que mataria a plasticidade do seu jogo, existia Kaká, por esses tempos Imperador de Milano, indiscutível no lugar em que o gaulês poderia brilhar… indispensável no esquema monocórdico de Ancellotti e a pontos de ser considerado o melhor jogador do mundo. Apenas permitiria a Gourcuff realizar trinta e seis jogos em três épocas e quase cair no esquecimento… um artista sem produzir obras primas há-de ser sempre admirado pelo passado, mas arrisca-se a ser ultrapassado pelas genialidade dos que o precedem! Surgiria a oportunidade, na pretérita época, de ser cedido por empréstimo ao Bordeaux, treinado por Laurent Blanc, esse fantástico central que após cada vitória da selecção do galinho beijava, enternecidamente, a careca a Barthez, esse monstro insano das balizas.
Todavia, ninguém, pensava o que estava para vir. O playmaker tornou-se pedra basilar de uma armada que destronou o heptacampeão Lyon, comandou a partir do meio campo todos os ataques girondinos saciando com notável competência o goleador Chamakh, mas também facturando: doze golos numa época em que é considerado o melhor jogador do campeonato e onde a alcunha de Petit Zidane, efectivamente, faz total sentido. Sem duvidar, os dirigentes do Bordeaux investem quize milhões na sua contratação, e os milaneses, sem a estrela mor Kaká, vacilam mas cedem. E Gourcuff hoje é a estrela maior de um Bordéus que pretenderá fazer sensação na europa. Será que Yohann se portará à altura? Não se sabe, porém os artistas nunca têm vergonha da sua arte…



