Véron, La Brujita Eterna
Diz um velho chavão, que o povo, na sua imensa sabedoria, gosta de aplicar, que o amor é eterno enquanto dura… mas se esse amor transmitir-se de pai para filho, passa quase a ser considerado uma espécie de militância indefectível, que faz o progenitor perceber que inculcou os correctos valores ao seu descendente.
Assim se passa com Véron… o Véron da Lazio, do Man. Utd, do Chelsea, que fez nome pela Europa fora e hoje voltou a ser rei onde nasceu, e onde seu pai, La Bruja, já houvera entrado na história… naquela fantástica tríade de triunfos na mítica Libertadores, de 1968 a 1970. Era, é certo, a equipa mais agressiva da história, pedindo meças ao futebol primitivo, tão propalado por esse treinador, talvez da era do Neolítico, Jaime Pacheco.
Pois bem, depois de La Bruja ter tido tão retumbante êxito, lógico seria que o seu delfim de nome Juan Sebastian, se sentisse inebriado pelo mundo fantástico da bola, num país fabuloso para viver e desenvolver essa paixão. Aliás, o nascimento para o mundo de La Brujita dá-se mesmo, após, estas inolvidáveis vitórias de um clube que, até então, não tinha ganho, rigorosamente, nada. E cedo se revelou na equipa que alinha de camisola listada vermelha: brilhante na marcação de livres, com aquela mestria no passe que distingue os predestinados, comandando a equipa com altivez, um maestro capaz de fazer corar os do Scalamilanês. E já que referi a mais famosa casa de espectáculos de Itália, foi aí que o mago se refinou… após uma passagem pelo Boca de Buenos Aires, o óbvio salto para o futebol europeu, e logo para oxadrezístico calcio, onde os homens se movem com o rigor de uma peça desse jogo de séculos e cada passo é calculado milimetricamente.
Pois bem, as suas qualidades refinaram-se… no curso da táctica, Véron passou com distinção e foi somando scudettos. Até que chegou Inglaterra, num futebol diferente, onde, por vezes, a fantasia cede perante o kick and rush britânico, e se perdeu. Era um corpo estranho, que sentia a falta daquela alma latina, da alma da sua La Plata, ou da Bombonera de Buenos Aires… essa bela Paris da América do Sul! De estrela a pior contratação da época em Stamford Bridge, um dos primeiros desmandos desse excêntrico Abramovich, regressaria a Itália para o Inter onde encontraria alguma da felicidade ansiada. Até, um dia, fazer as malas, em busca do prazer de jogar futebol, no seu primeiro e grande amor: os Estudiantes… e um amor como o primeiro, jamais se esquecerá.
Revi-o ontem, naquela final que os brasileiros, como fizeram há sessenta anos, poderão chamar de Mineirazo em vez de Maracanazo. Há sessenta anos, Obdúlio Varela, El Gran Capitán uruguaio a entrar na lenda dos imortais para destempero e desespero do pobre goleiro Barbosa, réu inocente de um filme que não merecia. Ontem La Brujita Véron mandando à distância no Mineirão, gerindo ritmos, fazendo passes de longa distância, recuperando a bola, marcando cantos, e, acima de tudo, acordando-me da saudável modorra que me invadia por serem quase quatro da matina.
Para Véron uma final vence-se comandando. Foi isso que ele fez, com a altivez dos predestinados, como quem quer demonstrar que o amor que um dia abandonou, em busca de fama e fortuna, pode ser ressarcido… com uma jura de fidelidade eterna!



