Greg Lemond: Renascer das cinzas
Dez anos antes de Lance Armostrong ter derrotado o cancro e vencido pela primeira vez a Volta à França em bicicleta, um outro americano cometeu uma proeza semelhante: vencer a maior prova velocipédica do mundo, depois de ter estado às portas da morte.
O acidente no auge da carreira
Em 96 edições, a Volta à França já teve grandes campeões, grandes momentos, grandes conquistas e grandes desilusões. Mas se tivesse de escolher uma edição só para explicar a grandeza da prova, seria a de 1989, ganha por Greg Lemond na última etapa. Um contra-relógio de 24 km, em que o ciclista americano teve de recuperar os 50 segundos que tinha de atraso em relação ao francês Laurent Fignon, acabando por vencer a prova pela mais curta diferença de sempre: 8 segundos. E se ainda hoje me lembro tão bem dessa etapa é porque acho que nunca vi no ciclismo uma manifestação de querer tão grande como a de Lemond nesse dia.
É preciso esclarecer vários coisas de antemão e a primeira é a seguinte: Lemond ganhou a prova sozinho. Ao contrário de quase todos os campeões desde sempre nesta competição, praticamente não tinha uma equipa a ajudá-lo. Corria pela ADR, uma equipa sem expressão no pelotão, enquanto Fignon corria pela Super U-Raleigh-Fiat (antiga Système U), dirigida por Cyrille Guimard. Mas há algo que torna a vitória de Lemond ainda mais impressionante: é que dois anos antes, o ciclista tinha estado entre a vida e a morte, após um acidente estúpido numa caçada na Califórnia, em que o próprio cunhado o atingiu acidentalmente no peito com uma bala. Isto ocorreu em Abril de 1987. Até essa altura, Lemond tinha disputado 3 Tours: em 1984, tendo-se classificado em 3.º lugar, uma prestação brilhante para qualquer debutante na prova. Em 1985, em que foi 2.º, e só não venceu porque corria na equipa de Bernard Hinault, a La Vie Claire e tinha a missão de ajudar o campeoníssimo francês a igualar Jacques Anquetil e Eddy Mercx na 5.ª vitória no Tour. E em 1986, em que se sagrou vencedor, à frente de Hinault, para irritação de muitos franceses, porque impediu o compatriota destes de se sagrar o recordista de vitórias na prova.
Aos 25 anos Lemond estava no auge da sua forma. Os americanos nunca tinham feito nada de relevante no ciclismo, mas agora era um americano que dominava a modalidade. E foi então que ocorreu o acidente. A descarga de chumbo nas costas deixou-o debilitado não só em termos físicos, mas também psicológicos, porque pensava que nunca mais iria poder correr.
Uma vitória de sonho
Mas há algo no espírito de competitividade dos grandes atletas, e que Lance Armstrong voltaria a provar uma década mais tarde, e que se revela nestes momentos: a vontade de se suplantarem a si mesmos ou àquilo a que parecem estar limitados. Para Lemond, voltar a poder correr dois anos mais tarde já foi uma grande vitória, mas para quem, como ele, amava tanto o Tour, correr significava sempre lutar pela vitória. Para quem se lembra, a Volta à França de 1989 foi aquela em que o português Acácio da Silva esteve de amarelo durante alguns dos primeiros dias da prova. Claro que, quando as etapas chegaram às montanhas, um sprinter como Acácio da Silva começou a perder gás e relevância. E aí começaram a impôr-se os grandes nomes do ciclismo da época: Laurent Fignon (que já havia vencido o Giro desse ano), Pedro Delgado (vencedor do Tour do ano anterior) e… Greg Lemond.
A camisola amarela mudou de dono algumas vezes, principalmente entre Lemond e Fignon, mas a certa altura começou a parecer inevitável a vitória do francês (que já havia vencido a prova em 1983 e 84). Só que nesse Tour aconteceu algo que (infelizmente, para mim) raramente acontece nestas grandes provas: a última etapa era um contra-relógio. E aí, não há equipas que valham. Aí, ganha mesmo aquele que é melhor. Só que, mesmo assim, 24 km parecia uma distância demasiado curta para Lemond recuperar os 50 segundos de atraso. Era preciso quase voar para o conseguir. E, no fundo, foi isso que o americano fez, ao atingir a velocidade média de 54,5 km/h.
Lemond ainda ganharia nesse ano o campeonato do Mundo de Estrada (repetindo a vitória de 1983), sendo eleito o desportista do ano pela revista Sports Illustarated, mas tal como o próprio afirmaria, o auge da sua forma já tinha passado. Talvez tivesse ganho mais Tours se não tivesse sofrido o acidente de 1987. Ao contrário de Lance Armstrong, que atingiu a sua melhor forma depois de ter sofrido o cancro na próstata, Lemond estava no auge na altura em que ocorreu o acidente. A partir de 1991 foi o espanhol Miguel Indurain que se começou a impor na prova, vencendo por 5 vezes seguidas a maior comeptição velocipédica. Ainda assim, alguns anos mais tarde, Indurain confessou que se pudesse escolher uma vitória no Tour, gostava que tivesse sido a de 1989. Ele sabe que esse tipo de vitória é o sonho de qualquer desportista.
Contra-relógio na Volta a França 1989



