Denilson – A Queda de um Talento

Lembro-me de ter visto Denilson há mais de doze anos. No momento, achei que o futebol pudesse voltar aos sonhos do antigamente, ao ficar iludido com os passos de dançarino qual bailarino do Lago dos Cisnes.

A verdade é que o brasileiro, natural de Diadema, onde nasceu em 1977 ficará para sempre como alguém que fez bluff perante o beautiful game… e os deuses castigadores não costumam ser benevolentes com isso. Como dizia no início, foi há doze anos, numa Copa América, disputada na Colômbia. Os focos de iluminação, as peças enviadas por mail, nova e surpreendente tecnologia na época, tinham todas um elemento comum: Ronaldo, por essas alturas convertido em Fenómeno, em Super Herói com Superes Poderes! Mas desde aquele primeiro jogo em que o Brasil bateu a Costa Rica por 5-0, a minha atenção perdeu-se da então estrela culé… era um menino que se havia estreado no ano anterior pela canarinha e que era o ai jesus dos adeptos do Morumbi, onde vestia as cores do São Paulo, que prendia as atenções a qualquer um que a que o jogo encanta.

Denilson   A Queda de um TalentoCom uma técnica de fazer corar o mais intrépido dos defesas, o seu um contra um não deixa ninguém indiferente… sempre em progressão, com a bola colada ao pé esquerdo fazia tudo ser possível, e lembrava, para quem viu jogar – eu não, infelizmente… – esse monstro, Garrincha, quem mais. E essa onda de expectativa pelo moleque que praticava esse futebol de rua que se aprende no Brasil crescia. A imprensa e a nóvel internet tratavam de divulgar um fora de série que a Europa ainda conhecia mal, mas que tinha encontro com o destino marcado para os estádios de França durante o Mundial 98. E Denilson não fracassou, foi brilhante, mesmo não sendo um titular indiscutível, ajudou a desequilibrar muitos jogos, não obstante o escrete ter estrondosamente tombado na final, naquela final em que Ronaldo mostrou que era tão humano como qualquer outro… mas os interesses comerciais sobrepuseram-se e de escrete e de fenómeno só uma caricatura.

Após esta apresentação ao mundo, Lopera, presidente do Betis, enamorou-se por ele e num desvario digno do mais sublime dos apaixonados resgatou-o das mãos do São Paulo e fez dele a transferência mais cara da história do futebol mundial, até então… foram trinta e dois os milhões de euros pagos para poder contar com o mágico! Mas na Andaluzia, a chama de Denilson começou a extinguir-se. Não obstante a onda de entusiasmo que gerou na equipa bética, a verdade é que os verdiblancos nunca conseguiram ser equipa que catapultasse o talento para níveis estratosféricos… se Ronaldo teve o United, se Messi tem o Barcelona, se Kaká (outro sampaulista) teve o Milan, Denilson nunca teve uma estrutura que fizesse dele um Deus da Bola, e no seu curriculum, logo no ano seguinte à chegada constaria uma decida de divisão. O jogador mais caro do mundo a actuar na Liga Adelante espanhola, surrealista, e por isso concomitante retorno ao Brasil para actuar por empréstimo no Flamengo!

Nem mesmo a imediata subida fizeram dele o que se esperava, e as lesões não o largavam, aquele maldito joelho tantas vezes massacrado por laterais e centrais incapazes de compreender o belo futebol… destruidores vis do mais fantástico espectáculo à face terrestre!! Mas Espanha não era para ele, e nem mesmo a ida ao Mundial da Coreia o tornaria novamente num ídolo. Jogaria em cinco dos sete jogos dessa campanha, sempre como suplente e sempre entrando na segunda parte, mas sem a magia de 1998, sem o glamour dos predestinados… mas, ressalve-se, trazendo a medalha de pentacampeão mundial no bolso.

Na Europa só em 2005 haveria de ganhar um título, uma singela Copa del Rey seria o único título de quem dizia querer ganhar o mundo em Espanha. Até lá jogos e jogos de verdiblanco sem títulos, nem honra… e a tentativa de experimentar um novo campeonato: o francês no Bordeaux. Se em Espanha as coisas correram mal, muito pior correriam em França. Sem jogar, sem constituir opção, haveria de ser dispensado logo no ano imediato. Aquele maldito joelho tantas vezes massacrado começava a não aguentar o esforço e a dar de si após tanta pancada sofrida. E, imediatamente, veio a dispensa… a partir daí uma espiral de fracasso: Al Nassr (Arábia Saudita), Dallas (EUA) onde tentou imitar Beckham como estrela com retorno comercial, mas sem êxito, e por fim o Palmeiras, sempre sem êxito! Tentou agora o regresso, um improvável e excêntrico regresso ingressando na Liga Vietnamita… sim, Vietname… o jogador mais caro do mundo, com a técnica mas exquisita, como diriam nuestros hermanos, a jogar no Xi Mang Hai Phong, nos confins da Ásia! Apesar disso loucura na estreia, um golo fabuloso de livre, pois quem sabe nunca há-de esquecer… intervalo e Denilson não regressa!

Sabe-se hoje que não mais jogará no Vietname, tendo contrato por objectivos, embolsou doze mil euros por aquela meia parte e irá á sua vida… para sempre, ou para despontar num qualquer campeonato exótico e sempre com a ideia que podia ter ido mais além, muito mais além, tivesse ele assim pretendido. Mas estas histórias românticas de artistas brasileiros hão-de, para sempre, existir no mundo do futebol, pois sem elas uma parte da sua idiossincrasia não existiria!





1 Comentário

  1. Excelente artigo! Li a notícia do abandono do clube Vietnamita e nem queria acreditar para ser sincero! Meia parte apenas de um jogo e adeus Vietname. Pena é que um jogador que aparentemente tinha tudo para ser um sucesso na Europa esteja constantemente em declínio. Recordo-me quando o Bétis o contratou na euforia que trouxe ao estádio dos pescadores de Sevilha mas como foi bem referido, os verde e brancos nunca conseguiram almejar a equipa desejada para os grandes voos na Liga Espanhola e na Europa.
    Ficará na história como mais um dos já vários brasileiros que se ofuscaram fora do seu país.

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