Coreia do Norte: Heróis Esquecidos
No dia 19 de Julho de 1966 os jogadores da Coreia do Norte fizeram História ao eliminarem a poderosa Itália do Campeonato do Mundo. Um ano depois, foram condenados pelo regime do seu país ao exílio e impedidos de jogar futebol.
Uma questão de honra
A Coreia do Norte, única representante do continente asiático na fase final em 66, era vista como uma selecção alienígena na prova, pelo total desconhecimento que o resto do mundo tinha acerca do seu valor. Nomes como Ring Jung-sun, Pak Doo-Ik, Han Bong Jin, Yang Song Guk e o guarda-redes Ri Chan Myong podiam ser famosos no seu país, mas eram completos desconhecidos para o resto do mundo. O facto de virem de um país comunista e extremamente fechado face a qualquer interferência estrangeira era a principal causa desse desconhecimento. Para além disso, havia a particularidade de a Coreia do Norte, enquanto nação, não ter relações diplomáticas com a Inglaterra e nem sequer ser reconhecida por esta. É que 12 anos antes, a Grã-Bretanha tinha participado na Guerra da Coreia. Para as autoridades britânicas o hasteamento da bandeira da Coreia do Norte e o tocar do hino significavam o reconhecimento daquela enquanto nação e uma afronta aos seu aliados da Coreia do Sul. A negação do visto de entrada aos norte-coreanos no país de Sua Majestade chegou a ser colocado em causa, o que, desde logo, fez com que os jogadores desse país se sentissem em território inimigo e receassem represálias. Talvez aos olhos de hoje esta questão pareça ridícula, mas no auge da Guerra Fria era uma questão que colocava os países em sobressalto.
Chollima era o nome pelo qual a selecção norte-coreana era conhecida. Chollima, conforme a mitologia coreana, é um cavalo alado, mas era também o nome de um movimento que visava acelerar e apoiar a reconstrução do país, após a guerra que dividiu as duas Coreias. Antes da viagem da selecção para Inglaterra, o Presidente Kim Il Sung concedeu aos jogadores uma audiência particular e fez questão de enfatizar no seu discurso que eles deveriam jogar, acima de tudo, para defender a honra da pátria. Para isso deveriam ser unidos, velozes e manter sempre um espírito combativo. À semelhança do Chollima.
O início, no entanto, não foi famoso: derrota por 3-0 frente à URSS, na altura vice-campeã da Europa. Um jogo que trouxe ao de cimo a inexperiência dos coreanos, surpreendidos pelo poderio soviético, mas também pela sua própria inexperiência em provas deste gabarito. Mas no jogo seguinte, frente ao Chile (que no Mundial anterior tinha ficado em 3.º lugar), os coreanos conseguiram um empate a um golo. Para se qualificarem para os quartos-de-final teriam de alcançar a missão impossível: derrotar a Itália.
Dois jogos para a História
“A queda do Império Romano não foi nada, comparado com este resultado”. Foi assim que o jornal Northern Echo classificou a vitória por 1-0 da Coreia do Norte sobre a Itália. Poucos, na altura, se atreveram a contestar a afirmação. O golo de Pak Doo-Ik originou o resultado mais surpreendente de sempre em jogos de fases finais. Mais ainda do que a derrota do Brasil contra o Uruguai no Mundial de 1950 ou da Hungria contra a RFA na final de 54. Ou do que a vitória da própria Coreia do Sul frente à Itália e à Espanha no Mundial de 2002. Afinal, os norte-coreanos em 66 não eram treinados por Guus Hiddink, não jogavam em casa e não tinham a arbitragem a ajudá-los.
Aos humildes jogadores coreanos, depois deste resultado, estava prometida uma medalha por parte do presidente do seu país. Para os ricos e famosos jogadores italianos, como Rivera, Mazzola e Facchetti, a eliminação do Mundial após este jogo fez com que, ao desembarcarem no aeroporto de Génova, fossem recebidos com uma chuva de tomates podres atirados pelos seus conterrâneos. Nunca a Itália, na altura bicampeã mundial, havia sofrido uma derrota tão humilhante. Em consequência disso, a Federação Italiana de Futebol proibiu a partir da época seguinte a entrada de mais jogadores estrangeiros nos clubes. Era urgente promover a formação de jovens futebolistas nacionais de maneira a voltar ter uma selecção capaz de honrar a sua história. Essa proibição (que impediu, entre outras coisas, que Eusébio rumasse ao Calcio) durou até 1982, ano em que a squadra azurra voltou a conquistar um Campeonato do Mundo.
Nos quartos-de-final os norte-coreanos jogariam na cidade de Liverpool contra Portugal, que havia mandado para casa o campeão em título Brasil. A apoiar a selecção asiática, não havia coreanos, mas antes 3.000 habitantes de Middlesborough, a pequena cidade operária onde os jogadores e equipa técnica tinham ficado alojados na primeira fase do torneio e com a qual acabaram por estabelecer grande empatia. Cada treino da selecção fora assistido com entusiasmo pelos habitantes locais que faziam jus ao lema: “support your local team”. Os italianos, certos da sua qualificação, já tinham agendado a sua estadia em Liverpool num seminário jesuíta. Como tal não veio a acontecer, acabaram por ceder essa mesma estadia à selecção coreana. Educados num regime comunista e sem qualquer conhecimento da simbologia e iconografia cristãs, os coreanos nunca tinham visto a imagem de um homem pregado numa cruz com uma coroa de espinhos, mas a verdade é que ela estava presente em todos os quartos do seminário e aterrorizou o sono da grande maioria dos jogadores.
O encontro contra Portugal foi, como todos sabemos, uma partida de duas faces. A Coreia do Norte, aos 25 minutos de jogo, já vencia por 3-0 e dominava o adversário com o mesmo tipo de futebol com que havia derrotado a Itália e com que havia prometido ao seu líder honrar o país: velocidade e espírito combativo, bem como uma disciplina táctica quase militar. O futebol, na altura, era jogado a um ritmo muito mais lento do que hoje em dia e, por isso, a rapidez com que os coreanos faziam correr a bola e pressionavam os adversários desorientava esses jogadores. Só que na selecção portuguesa de então estava Eusébio, o melhor jogador e marcador da prova, que até ao intervalo reduziu a desvantagem para 3-2. Na segunda metade, mais dois golos de Eusébio e um de José Augusto acabaram por permitir a reviravolta, a maior de sempre ocorrida num jogo de um Mundial. A importância que este jogo teve para a popularidade de Eusébio, principalmente em Inglaterra, não pode ser subestimada. Pelos 4 golos que marcou, pela reviravolta que, praticamente sozinho, operou no resultado, por ser um jogo a contar para o Campeonato do Mundo e por outro facto extremamente importante: cada vez que Eusébio marcava um golo, ia buscar a bola ao fundo das redes e corria com ela até ao meio-campo, rejeitando os abraços dos colegas, para permitir que o jogo fosse reiniciado o mais rapidamente possível. E só festejou, após marcar o golo que deu o 4-3 para Portugal.
O regresso a casa
Se a tomatada com que os jogadores italianos foram recebidos em casa é um episódio célebre, já o que aconteceu com os norte-coreanos, após a derrota com Portugal, sempre esteve envolvido em mistério. Durante anos nunca mais se ouviu falar de qualquer um deles. Só recentemente, após um documentário britânico intitulado ”O Jogo das Suas Vidas”, se descobriu o que realmente aconteceu. Inicialmente, os jogadores foram recebidos como heróis pelo regime e a população do seu país, não só pela vitória frente à poderosa Itália, mas pelo facto de se terem tornado na primeira selecção asiática a ultrapassar a primeira fase de um Mundial. No entanto, após o período de euforia, o governo da Coreia do Norte abriu uma investigação a todos os jogadores e condenou-os a serem deportados ou feitos prisioneiros. O motivo? A descoberta da forma como eles celebraram a vitória contra a Itália: com música, mulheres e álcool. Uma ofensa aos ideais seguidos pela ditadura de Kim Il Sung e uma imperdoável manifestação de fraqueza moral e de desonra. Pak Doo Ik, por exemplo, o principal herói da vitória contra a Itália e apelidado de “dentista” nesse país pela dor que o seu golo infligiu numa nação inteira, ficou dez anos a trabalhar como lenhador no distrito de Daepyong. Só após a ascensão ao poder de Kim Jong-il, que sempre fora fascinado pelos “heróis do Mundial”, é que estes tiveram direito a serem reabilitados, sendo-lhes concedidas casas estatais na capital e a possibilidade de excercerem cargos técnicos em diversas equipas. Pak Doo Ik teria mesmo direito a receber um apartamento de dois andares e o posto de seleccionador nacional durante uns anos. Dos jogadores coreanos desse Mundial, já só sete se encontram vivos. Graças ao documentário que sobre eles foi feito, obtiveram uma raríssima autorização para saírem do país e, na companhia da equipa técnica responsável pelo documentário, regressarem à cidade de Middlesbrough. Quatro décadas após o “jogo das suas vidas”.



