Garrincha – O Anjo de Pernas Tortas

Nasceu numa favela, no seio de uma família com um pai alcoólico e 14 irmãos. Teve poliomielite e, devido a essa doença, sofreu um desvio na coluna que o deixou coxo para o resto a vida, com a perna direita 6 centímetros mais curta do que a outra. A alcunha de “Garrincha” veio do facto de se assemelhar a um pássaro tão frágil que bastava uma rabanada de vento para ser levado para longe. E foi assim a infância do melhor futebolista brasileiro de sempre, a seguir a Pelé.

O ídolo do Botafogo e da selecção
Como todos os rapazes no Brasil, mesmo os coxos e franzinos, Manuel Francisco dos Santos, seu nome de registo, gostava de futebol e cedo começou a pedir aos irmãos e colegas para jogar com eles. No início todos lhe diziam para se ir embora, que um coxo como ele não servia para nada, muito menos para jogar à bola, mas quando alguém se atreve a colocá-lo na sua equipa, nos jogos de rua, o espanto é geral: o rapaz é um fenómeno. Um malabarista capaz de ultrapassar e humilhar todos os adversários que lhe tentam roubar a bola, como se fosse a coisa mais simples do mundo, até ao cruzamento final ou remate para golo. Apesar de ser também conhecido, entre os amigos e irmãos, como Mané (um nome que, no Brasil, se refere aos homens meio tolos ou ingénuos), com a bola nos pés ele é um génio.

Após ter jogado no Esporte Clube de Pau Grande, o rapaz, incentivado pelos irmãos e amigos que antes menosprezavam a sua habilidade para o futebol, vai fazer um teste ao Botafogo. O Vasco da Gama e o São Cristovão já o tinham rejeitado, por causa das pernas tortas e do desvio na coluna, mas o Botafogo não caiu no mesmo erro. Logo no primeiro treino em que esteve à experiência, Mané passou várias vezes pelo defesa Nílton Santos, jogador titular da selecção brasileira da época, colocando-lhe a bola entre as pernas. Para ele, fazer dribles aos profissionais que lhe apareciam à frente no Botafogo era exactamente o mesmo que aos colegas do Esporte Clube de Pau Grande. Seria, aliás, o próprio Nílson Santos a sugerir ao presidente do clube a contratação daquele rapaz desajeitado de 19 anos.

Depois de se tornar no maior ídolo do Botafogo e de ajudar o clube a vencer o Campeonato Carioca, em 1957, Mané começa a preparar a sua nova conquista: a selecção. Em 1958, um ano antes de começar o Mundial na Suécia, marca num jogo de preparação, disputado em Itália, um dos seus golos mais famosos ao serviço do Brasil: depois de fintar quatro adversários, incluindo o guarda-redes, fica com a baliza aberta para marcar. No entanto, talvez por achar que marcar assim seria demasiado fácil, espera que um outro adversário tente tirar-lhe a bola, para também o fintar e só depois acaba por rematar à baliza. Esta proeza valeu-lhe, no entanto, a perda da titularidade, pois o seleccionador Vicente Feola classificou esse lance como “irresponsável”. Talvez tivesse razão. Mas era também uma jogada que demonstrava de forma exemplar a natureza de Garrincha: jogar futebol pelo prazer de jogar, com uma despreocupação quase infantil em relação a questões tácticas ou ao nome dos adversários que enfrentava. Para ele o futebol era alegria e liberdade. Ou seja, por maior que fosse o seu talento, seria sempre um pesadelo para qualquer treinador que o orientasse. Já durante o Mundial, depois de ficar de fora nos dois primeiros jogos (tal como Pelé), vê um grupo de colegas fazer pressão junto do seleccionador para que ele e Pelé sejam titulares na terceira partida. E foi nesse jogo, em que o Brasil derrotou por 2-0 a União Soviética, que a lenda de Garrincha, autor dos dois passes para golo, nasceu para o mundo. Depois de, na meia-final, bater por 5-2 a França de Kopa e Fontaine, a equipa aplicaria o mesmo resultado na final, frente à selecção anfitriã, com Garrincha a destacar-se uma vez mais pelas jogadas que deram origem aos dois golos de Vavá. Foi o primeiro Mundial ganho pelo Brasil.

Garrincha   O Anjo de Pernas TortasO Mundial de Garrincha
Em 1962, o “anjo de pernas tortas”, como já era conhecido, chegou ao Mundial do Chile na mesma condição em que saíra da Suécia, 4 anos antes: como estrela maior, juntamente com Pelé, da selecção brasileira. No entanto, depois de Pelé sofrer uma lesão que o afastaria para o resto da competição, logo no segundo jogo, passou a ser Garrincha o líder da equipa. Um líder cuja influência, em termos de prestação individual na conquista de um Mundial, equipara-se à que Maradona teve para a Argentina no México 86. Foram de Garrincha as jogadas que deram origem aos golos de Amarildo (o substituto de Pelé) na vitória por 2-1 sobre a Espanha, na primeira fase. Nos quartos-de-final, marcou dois golos na vitória de 3 a 1 sobre a Inglaterra, com o outro golo do Brasil, marcado por Vavá, a ser conseguido após a recarga a um remate de Garrincha. Um episódio curioso neste jogo: durante a partida, um cão invadiu o campo e obrigou à sua interrupção. Depois de vários jogadores das duas equipas tentarem apanhá-lo, sem êxito, seria o avançado inglês Jimmy Greaves a conseguir segurá-lo. No entanto, como recompensa, viu o cão urinar-lhe em cima. Consta que Garrincha se divertiu tanto com a situação que acabou por ficar com o animal. Nas meias-finais, mais dois golos do “anjo de pernas tortas”, na vitória por 4-2 sobre a selecção anfitriã. Garrincha seria expulso no final dessa partida, depois de agredir um adversário que passara o jogo todo a agredi-lo. No entanto, o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, recorreu da expulsão e o jogador acabaria por receber a autorização da FIFA para disputar a final contra a Checoslováquia. Resultado: 3-1 para o Brasil. No final do torneio, Garrincha seria eleito o melhor jogador da prova. Ainda nesse ano, liderou o Botafogo na conquista de mais um Campeonato Carioca, batendo na final o Flamengo.

O ano de 1962 não acabaria sem antes ser realizado, por Joaquim Pedro de Andrade, um documentário sobre a vida de Garrincha, e cujo título traduzia na perfeição aquilo que o jogador representava na altura: “Garrincha – A Alegria do Povo”.

O início da decadência
Em 1963 Garrincha parecia estar no topo do mundo, sendo mesmo disputado por dois dos maiores clubes italianos (Inter e Ac Milan). A transferência só não ocorreu porque o Botafogo não ficou satisfeito com as propostas feitas. No entanto, foi nesse ano que começaram a surgir os problemas no joelho do jogador, depois de ter actuado várias vezes pelo seu clube sem estar nas melhores condições físicas. Na altura, o Botafogo fazia várias excursões e uma coisa era o cachet que cobrava se jogasse com Garrincha, outra coisa (ou seja, metade) era o cachet que cobrava se “a alegria do povo” não jogasse. Uma prática que o Benfica também conheceu, nos tempos de Eusébio, e que também obrigou o “pantera negra” a jogar várias vezes lesionado. No ano seguinte, surgem as primeiras lutas de Garrincha com o seu clube. Devido à sua recusa em ir nalgumas excursões, foi multado em 50% do salário. As relações começaram a deteriorar-se de tal forma que Garrincha chega a ser chamado de “moleque” no próprio boletim do clube. Em 1966 dá-se a inevitável ruptura: o clube vende-o ao Corinthians, sem sequer avisar o jogador.

Mesmo assim, nesse ano, ele disputa o seu terceiro Mundial, em Inglaterra. É nessa competição (onde marca um golo na vitória sobre a Bulgária) que sofre a sua única derrota, em 60 jogos, com as cores da selecção brasileira, no encontro que opôs o Brasil à Hungria: 3-1 foi o resultado favorável aos magiares. Ficou, no entanto, um registo histórico. Como Pelé não jogou essa partida e Garrincha não participou no jogo em que a sua selecção perdeu com Portugal, a “canarinha” pode-se orgulhar de nunca ter perdido um único jogo no qual participassem aqueles que foram os seus dois maiores representantes.

O fim da alegria
Depois de deixar o Corinthians, jogou ainda no Atlético Júnior (da Colômbia), no Flamengo, no Olaria e em vários clubes menores e amadores de outros países sul-americanos. Mas o “anjo de pernas tortas” já não era o mesmo. E se ainda era conhecido como “a alegria do povo”, era mais pelas memórias que o seu nome projectava do que pela capacidade de impor o seu futebol. Nas bancadas, já não era alegria que se sentia, mas angústia pela queda do mito que os espectadores viam a arrastar a sombra pelos relvados. Para além das lesões no joelho, agora havia outro mal a afectá-lo: o alcoolismo. O mesmo que o levou a ter o desastre de viação, em Abril de 1969, do qual resultaria a morte da mãe da sua segunda mulher. Em Dezembro de 1973 ainda foi realizado no Maracanã o jogo de despedida de Garrincha. Um jogo que colocou, frente a frente, a selecção do Brasil e uma outra da FIFA, composta principalmente por jogadores argentinos e uruguaios. Seria o último suspiro de dignidade de Garrincha, que saiu ovacionado a meio do jogo, em direcção ao túnel do estádio e do esquecimento público. Só voltaria a ser notícia em Janeiro de 1983, quando morreu, bêbedo e só, numa ruela do Rio de Janeiro, vítima de cirrose (tal como o seu pai). No velório, os familiares de Garrincha acusaram Vanderléia, a sua terceira mulher, de ter matado o antigo jogador e só não a conseguiram espancar devido à intervenção policial. Mas como é evidente, Garrincha foi apenas vítima de si mesmo. Do seu carácter ingénuo e do amor que sentia pelo futebol. Enquanto jogador, só se preocupava em desfrutar do prazer que sentia em jogar, negligenciando por completo o valor de mercado que o seu nome tinha e que Pelé, por exemplo, tão bem aproveitou. O final de Garrincha assemelhou-se bastante ao de George Best, não só pela forma com que os dois encaravam o futebol, mas também pela incapacidade de resistirem ao sexo feminino (Garrincha teve 14 filhos das 3 mulheres com quem viveu, e sabe Deus quantos mais teve de outras com quem se relacionou) e, claro, à bebida. Mas o destino do brasileiro foi ainda mais trágico. Best tinha consciência daquilo que era; Garrincha, não.

Tal como Carlos Drummond de Andrade escreveu após a sua morte, “se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.”

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A memória de Garrincha





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