O Desaparecimento do Número 10

Ao longo dos últimos anos, o futebol moderno tem vindo a constatar cada vez menos jogadores que dentro de campo intepretassem o papel do clássico organizador de jogo, o elemento sobre o qual invariavelmente a condução de jogo teria que passar, jogada após jogada. Devido a diversas condicionantes de ordem predominantemente táctica, impostas pelos condicionalismos do futebol moderno, esse papel clássico dentro de campo tem vindo a desaparecer, ou melhor, tem vindo a ser absorvido noutras posições. Este fenómeno há muito analisado e discutido no futebol moderno é passível igualmente de ser observado nos três grandes do futebol português, e nos seus hipotéticos respectivos números 10 em campo.

O Desaparecimento do Número 10Começando pelo F.C. Porto, o jogador com as funções mais aproximadas a esta posição é Lucho González, geralmente encarado como o motor da equipa portista. É vulgarmente escrito que se Lucho não está em forma a equipa ressente-se, não só nos processos de transição ofensiva e defensiva, como igualmente da capacidade da equipa em colocar jogadores junto a àrea para ganhar segundas-bolas ou aumentar exponencialmente os remates de meia distância no decorrer do jogo. O seu papel é mais associado ao de um típico número 8, um médio preferencialmente de transição, mas que, devido à sua grande capacidade de passe e visão de jogo, interpreta por vezes na perfeição os momentos de jogo, daí o fluxo de jogo portista ser, em grande parte, determinado pelos seus pés. O facto de jogar com Fernando e Raúl Meireles atrás de si, dá-lhe liberdade de subir mais no terreno e pisar outras zonas dentro de campo, o que consequentemente lhe confere muitas vezes esse a função de número 10, apesar de no papel, nas costas e na sua natureza de jogador, não ter as características clássicas de um playmaker à antiga.

Na equipa do Sporting é possível encontrar índicios precisamente do contrário: no papel e no sistema táctico, a posição de número 10 de facto existe, mas dentro de campo, o jogador que o desempenha por diversas vezes executa funções e movimentos que inevitavelmente o afastam da natureza clássica de um 10. Recentemente, é João Moutinho que tem vindo a desempenhar esse papel. Apesar de se considerar e ser considerado quase um verdadeiro número 10, no decorrer dos encontros do Sporting, Moutinho posiciona-se e executa movimentos não muito típicos de um jogador dessa posição. Quando a equipa detém a posse de bola nos seus jogadores mais defensivos, Moutinho coloca-se frequentemente numa linha avançada quase em paralelo aos os dois avançados da equipa, situando-se portanto muito próximo dos centrais da equipa adversária, daí mais afastado da bola e de a receber em condições favoráveis às qualidades de jogo que lhe são reconhecidas. Logicamente que durante a partida, recua por diversas vezes no terreno para pegar na bola e pautar o jogo com passes e movimentos de ruptura, combinados com tabelas e trocas de bola, mas os condicionalismos tácticos da equipa parecem constrangi-lo a certas zonas e movimentos que o impedem de assumir verdadeiramente a função de número 10. Neste caso, trata-se que no papel está de facto um jogador na posição 10, mas em campo, esse papel não existe verdadeiramente. Também pelas características de Moutinho, um jogador rápido e de grande resistência física, permitem-lhe deslocar-se em grande escala e movimentar-se com o mesmo ritmo em várias posições do terreno, o que, aliado aos seus argumentos técnicos e tácticos, o têm posto a desempenhar praticamente todas as outras posições no meio-campo leonino, o que tem contribuindo igualmente para uma falta de “afirmação” e aparecimento constante na posição 10 da equipa.

Por último, o caso da equipa do Benfica é a que parece causar maiores “problemas”. Pablo Aimar sempre foi reconhecido como um moderno número 10, que nos seus tempos de Valência era presença assídua da selecção argentina em fases finais e em jogos de qualificação. As suas qualidades para desempenhar o cargo parecem ser inatas e inevitáveis em qualquer equipa da qual seja elemento. Contudo, desde que chegou ao Benfica, o treinador parece não ter encontrado a posição ideal para o colocar, isto porque o seu sistema táctico predilecto – 4-4-2 – não inclui um verdadeiro papel de número 10 em campo. Perante isto, Pablo Aimar tem sido ao longo da época colocado ou à direita do meio-campo, ou jogando atrás do ponta de lança. Ambas as opções confinem o jogador a espaços, funções e movimentos que por natureza não se coadunam ao seu tipo de jogo e aquilo ao qual a sua carreira o vinha habituando. A sua capacidade de condução de bola em velocidade, visão de jogo e passes de ruptura não são possíveis jogando à direita, onde se exige ao jogador profundidade de jogo e capacidade de cruzamento no último terço do terreno. Quando joga atrás do ponta de lança, encontra-se muito afastado das áreas de condução e organização de jogo, recebendo invariavelmente a bola de costas para a baliza e sob pressão dos defesas contrários, o que o obriga invariavelmente a passes rápidos ou a deslocar-se para outras zonas, ora descompensando a equipa, ora colocando-se em zonas já com demasiados jogadores. Em diversas partidas já realizou boas exibições e demonstrou pormenores interessantes, mas nunca actuando em zonas naturais que deviam ser de um número 10. Este é talvez o caso onde a equipa detém no seu plantel o melhor jogador para executar a posição de 10 (entre os três grandes), mas que no seu sistema táctico não insere uma posição onde o permita executá-la nas condiçoes mais adequadas, o que se reflecte não só nas exibições de Aimar, como igualmente nas exibições colectivas da equipa.

Portanto, pode-se apontar às três equipas diversas soluções e possibilidades para que os jogadores destacados possam executar verdadeiramente o papel de número 10, mas, no caso do Porto, tal cenário não parece ser necessário, pois a equipa já detém mecanismos cimentados e de bons resultados neste esquema, enquanto que no Sporting, o pragmatismo táctico oferece rigidez e segurança posicional em campo, sendo apenas talvez necessário alterar a maneira de Moutinho interpretar a posição e movimentos dentro dela. Já no Benfica, os “problemas” abrangem condicionalismos no sistema táctico, tal como foi referido anteriormente.





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