As Conquistas de Gil
Gil Eanes foi no século XV um dos grandes nomes da época dos Descobrimentos, ajudando a colocar Portugal na história como um povo lutador, bravo, e com vontade de ir à luta. Em pleno século XXI, um novo Gil tem colocado a bandeira verde e vermelha em destaque, numa modalidade que de Portugal apenas vem recebendo muito empenho, mas magros resultados. Tudo parece estar, contudo, a mudar.
Nascido em Sintra, este ainda jovem atleta de 24 anos tem vindo a palmilhar um percurso notável, num país onde se gosta de ténis, mas onde as infraestruturas são quase inexistentes para a alta competição. E Frederico Gil, esquecendo tudo isso e rejeitando a mais do que natural possibilidade de emigrar, iniciou a sua cruzada num dos mais exigentes desportos individuais do planeta. E a primeira consequência da não emigração deste nosso valor terá sido a tardia aparição nos mais mediáticos cortes mundiais. Até há bem pouco tempo, Frederico era apenas um “tenista de grande potencial”, mas a quem eram igualmente apontados alguns defeitos comuns a atletas de pouca escola. A falta de intensidade e regularidade seriam, naturalmente, os aspectos que o diferenciavam dos melhores. O tempo levou-o a aprimorar as suas qualidades, e, mais velho, Gil é actualmente considerado um jogador experiente, com enorme poderio do fundo do corte, e que certamente se manterá entre os 100 melhores do mundo por um longo período.
Quando em 2006 alcançou o posto de melhor Português da actualidade, Frederico revelou a humildade que sempre o caracterizou, mas certamente estaria longe de pensar que a sua evolução ainda teria alguns passos largos para percorrer. Esta última semana, e depois de conseguir a qualificação para a primeira ronda do Open de Miami, Gil defrontou os 77.º e o 25.º do ranking ATP, Zverev e Karlovic respectivamente, conseguindo com ambos vitórias seguras, tranquilas, e de enorme confiança. Frente ao segundo, reconhecidamente um rei dos ases, Frederico terá tido a prestação mais segura da sua carreira, não se abatendo por qualquer condicionante, e fechando a partida em 90 minutos, abrilhantada ainda por um ás – o seu único, mas o mais decisivo da partida.
Recentemente, Gil confidenciou: “A minha vida tem mudado em termos pessoais e profissionais, pelo facto de ter conseguido vários desempenhos inéditos para o ténis português. Então em termos mediáticos muita coisa se passou em Portugal, enquanto no circuito mundial começo a ser confrontado por adversários que não têm nada a perder quando me defrontam, conscientes do meu valor e até do meu estatuto de favorito”. Apesar de fatigante para o melhor Português de sempre, é igualmente um factor motivacional único, e aquilo que lhe poderá permitir estabelecer-se entre os melhores do mundo. O ténis é um desporto exigente, desgastante, e onde o factor psicológico é tão determinante quanto tudo o resto. E o favoritismo que o Sintrense pretende acumular será, certamente, o maior trunfo para o seu sucesso entre os melhores dos melhores.



