O “Fico” de Kaká, pelo bem do futebol

Em 9 de Janeiro de 1822, o príncipe regente de Portugal, D.Pedro de Alcântara, o Dom Pedro I no Brasil e IV em terras lusitanas, contrariou as ordens de seu país exigindo o seu retorno à Europa e decidiu permanecer na colônia, que conquistaria sua independência quase oito meses depois. O acontecimento ficou conhecido como “Dia do Fico” e é um marco na História do Brasil.

Em 19 de Janeiro deste ano, um outro “príncipe”, desta vez brasileiro, anunciou para o mundo que, contrariando todas as previsões, recusava a proposta surreal e milionária do Manchester City e continuaria em Milão para desfilar seu talento com a bola nos pés.

A permanência de Kaká no Milan é ótima notícia para aqueles, como este colunista, que não se dobram totalmente ao pragmatismo do futebol atual, no qual as cifras valem mais do que qualquer questão subjetiva, como respeito ao clube e carinho pela torcida.

O craque brasileiro, não há dúvida, escolheu o melhor lado. Até porque, não sejamos ingênuos, recebe um ótimo salário do tradicionalíssimo clube italiano e toda a grana que ganharia do Manchester City pode ser “diluída” em uma permanência mais longa em Milão como dirigente, após encerrar sua carreira nos gramados.

Além disso, que garantia o melhor jogador do mundo de 2007 teria do mediano clube inglês? Se o magnata que está injetando dinheiro perdesse boa parte de seus rendimentos em uma nova movimentação da “roda-viva” da economia mundial, como aconteceu com Abramovich no Chelsea, como a tal condição que teria sido imposta por Kaká, de manutenção dos investimentos, seria cumprida? Como assegurar que o time seria competitivo a curto e médio prazo, se uma reunião de grandes craques não forma necessariamente uma equipe poderosa? Se não fosse para a UCL em dois anos, o que ele faria? Voltaria pro Milan? E se estivesse “queimado” e com o mercado mais restrito?

Para o time rossonero, embora os cofres do clube tenham perdido ótima receita em uma temporada sem os ganhos diretos e indiretos da Liga dos Campeões da Europa, a notícia também foi ótima, pois é Kaká o craque que faz a equipe jogar, atuando na ligação do meio-campo com o ataque. Na vitória sobre a Fiorentina por 1 a 0 (gol de Alexandre Pato, cada vez mais artilheiro e adaptado ao “Calcio”), os rubro-negros tiveram muitas dificuldades na criação das jogadas, pela partida discreta de seu camisa 22, que parecia impactado pelo noticiário e jogou pouco. Com a cabeça tranquila, Kaká comandou sua equipe na goleada de 4 a 1 sobre o Bologna com dois gols e grande atuação.

O menino que saiu do São Paulo em 2003 já campeão mundial pela seleção no ano anterior, mas ainda um tanto franzino e criticado por não ter alcançado conquistas importantes pelo clube paulista (apenas um torneio Rio-São Paulo em 2001), virou homem em Milão e se consagrou com os títulos continental e mundial há pouco mais de um ano. Mas a maior demonstração de maturidade e caráter veio agora e deve transformar Kaká em algo próximo de um mito para os rossoneri.

No fim das contas, é bom saber que o mundo da bola não está perdido na insanidade de milhões e milhões de euros, dólares ou reais. Que o exemplo do brasileiro possa ser seguido por outros jogadores e tenhamos um mercado menos “aquecido” e craques menos dependentes da moeda e cada vez mais venerados em seus clubes.





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