São Paulo – O Rei do Brasil

Ao apito final do árbitro Jaílson Freitas no Estádio Bezerrão, em Brasília, a vitória sobre o Goiás por 1 a 0 consolidou o São Paulo como o único hexacampeonato nacional e também o primeiro a vencer três edições consecutivas do campeonato. O feito inédito vem apenas confirmar a superioridade do clube paulista nos últimos anos. A dinastia começou em 2005, com o terceiro título da Libertadores e a conquista do Mundial da FIFA sobre o Liverpool. Nas últimas três temporadas, se faltaram títulos internacionais, o Tricolor do Morumbi ultrapassou os demais em conquistas de campeonatos brasileiros e se tornou o clube mais vencedor do país.

Os motivos para a hegemonia são-paulina passam pelo campo de jogo, mas principalmente pela estrutura do clube.Muricy Ramalho, que comandou a equipe nas três conquistas, é hoje o melhor treinador do país e, a cada resultado negativo da seleção brasileira, a pressão para que ele substitua Dunga aumenta exponencialmente. Profissional sério e detalhista, tem como principal mérito trabalhar suas equipes intensamente até que o padrão de jogo seja assimilado por todos e a execução aconteça naturalmente. Seus times se caracterizaram por crescer na parte final do Brasileirão, arrancando para o título.

Em 2008, o São Paulo foi considerado alijado da disputa pela taça na primeira rodada do segundo turno, após a derrota para o Grêmio, então líder do campeonato e que abria onze pontos de vantagem sobre o Tricolor com o triunfo no confronto direto. Mas o inimaginável aconteceu: em uma reação espetacular, com doze vitórias e seis empates, a equipe de Muricy não só pulverizou a desvantagem como abriu três pontos sobre o mesmo Grêmio e apenas confirmou a conquista na última rodada. A virada ocorreu quando o treinador cobrou uma postura mais competitiva de seus comandados e acertou o time taticamente, com o avanço do ótimo volante Hernanes para jogar como um meia pela direita e a descoberta do jovem Jean como a solução para atuar à frente do trio de zaga no 3-5-2 utilizado pelo treinador. Sólido na defesa – comandada pelo goleiro-artilheiro Rogério Ceni, símbolo do clube e ídolo maior da torcida – e eficiente no ataque, com o atacante Borges marcando gols decisivos nas últimas partidas, o time, já acostumado com a fórmula de pontos corridos, voou em campo e atropelou seus oponentes.

Mas é fora das quatro linhas que o clube sobra em relação aos rivais, esbanjando competência e possibilitando aos seus profissionais tudo que eles precisam para exercerem seu ofício. São três Centros de Treinamento, sendo o principal localizado na Barra Funda, que é um dos mais modernos do país. É lá que os jogadores do futebol profissional realizam a maior parte de suas atividades e também onde está o REFFIS, o núcleo de Reabilitação Esportiva, Fisioterápica e Fisiológica, referência mundial na recuperação de atletas e que já serviu para o clube seduzir jogadores como Amoroso (ex-Udinese), Luizão (ex-La Coruña), Ricardo Oliveira (hoje no Zaragoza) e Adriano (Internazionale) para fazerem parte de seus elencos. O São Paulo ainda conta com o Morumbi, o maior estádio particular do Brasil, que gera receitas com shows, eventos e jogos de outros grandes clubes paulistas.

Além disso, a diretoria são-paulina, comandada pelo presidente Juvenal Juvêncio e o superintendente de futebol Marco Aurélio Cunha, atua com firmeza e inteligência nos bastidores, fortalecendo a imagem do clube como o mais poderoso do país e não permitindo que o time seja prejudicado dentro de campo. A influência é tão grande que são frequentes as reclamações de favorecimento ao São Paulo por parte da arbitragem. Alguns protestos até procedem, mas não maculam o brilho das vitórias do Tricolor paulista.

Com um novo patrocinador, ainda não definido, que deve injetar cerca de 30 milhões de reais no clube em 2009, o São Paulo parte para mais uma tentativa de dominar o continente. Os reforços de Eduardo Costa (Grêmio, Bordeaux e Espanyol) e dos “cariocas” Wágner Diniz (Vasco), Renato Silva (Botafogo), Júnior César e Washington (ambos do Fluminense) qualificam ainda mais o elenco de Muricy para os desafios da próxima temporada, na qual o time do Morumbi defenderá seu reinado com a bem dosada mistura de razão e emoção que vem rendendo taças ao principal clube brasileiro e que, a cada ano, justifica ainda mais o verso de seu hino que diz: “Entre os grandes és o primeiro!”.





3 Comentários

  1. Paulo diz:

    Parabéns, André, pelo artigo. Veio confirmar a ideia que já tinha de que o São Paulo é, talvez, o clube mais “europeu” do Brasil, em termos de estrutura e organização.

    Quando vi a final da Libertadores entre o São Paulo e o River há um ou dois anos, penso, dei por mim a pensar que estavam muitos degraus acima do que me parece ser a desordem reinante no futebol brasileiro. Há óptimos jogadores, técnicos competentes, profissionais de qualidade, mas a maioria dos clubes “vai andando”, vai deixando andar o tempo, época a época. Não é raro ver equipas que, de um ano para o outro, revolucionam o plantel de alto a baixo (aliás, parece-me que a mentalidade reinante não é a de ver os clubes como clubes mas mais como “times”, naquele sentido mais imediato de “equipa”), começam do zero e têm resultados muito diferentes dos da época imediatamente anterior (para o bem ou para o mal). Parece que ainda estão no espírito do antigo Brasileirão, de “taça” que se disputa época por época, e se preparam de ano para o ano para a campanha para a tal taça. Não sei se o meu raciocício é claro e nem sequer sei se corresponde à realidade, mas é o que me parece.

    Os clubes mais “tradicionais” do Brasil (Flu, Fla, Vasco, Botafogo, Santos…) são “simpáticos”, mas parecem-me ultrapassados. Em termos de competência e preparação os clubes fora dessa esfera parecem mais actualizados (falo especificamente do Grémio, do Internacional, do Atl. Paranaense, do Cruzeiro e de um não muito falado Coritiba – corrije-me se estiver errado nalgum deles). E o São Paulo é o pináculo dessa nova vaga de mentalidade que se podia espalhar pelo Brasil.

    Já ouvi amigos brasileiros a dizer algo como “esse São Paulo que é clube da moda e que agora tem daqueles adeptos recentes porque ganham tudo”. Pode ser “clube da moda” e não ter o mesmo carisma dos clubes mais tradicionais. Pode ser um clube meio “frio” e “cinzento”, até. Mas o facto é que os comparo a um AC Milan do Brasil. Competência e organização resultam em vitórias regulares (palavra-chave). Com cinzentismo ou não.

    Quanto ao Muricy é de facto, um treinador fantástico. Vê-se e sente-se quando fala que está uns bons níveis acima da maioria. A sua cabeça e a forma como interpreta o futebol, a organização dos clubes é avançada. E parece a compatibilidade perfeita entre este género de treinador e um clube como este São Paulo.

    Parabéns ao São Paulo pelo sucesso e por ser uma referência de qualidade, estrutura e planeamento no Brasil.

    PS – A CBF bem precisa de beber um pouco desta mentalidade. Parece que o excedente de talento que há em termos de jogadores faz como que haja mais preguiça para se organizar o futebol no Brasil. Era preciso que não se esquecessem que nem tudo se consegue só com talento e que há bons jogadores em todo o Mundo. O que faz a diferença é o resto (e isso vê-se quando se olha para o Brasil em termos de selecções e se compara com outros países aproximadamente do mesmo “escalão”)…

    Cumprimentos e desculpem pelo comentário longo

  2. Paulo, obrigado por comentar.

    Há pouco a acrescentar ao que você disse. Só que a final da Libertadores em 2005 foi entre São Paulo e Atlético-PR e no ano seguinte entre o Tricolor paulista e o Internacional.

    No mais, você está certíssimo sobre os clubes brasileiros que investem em estrutura, a superioridade do atual hexacampeão e a necessidade da CBF de se organizar melhor, embora já tenha progredido bastante nos últimos anos.

    Deixo ao Paulo um grande abraço e o estendo a todos, ratificando os votos de um ótimo Natal e um 2009 repleto de momentos felizes.

  3. Aylton Borges diz:

    Meu caro André Rocha.Na verdade é fato consumado de que o SPFC é um dos maiores clubes do mundo.Isso gera tamanha inveja entre os demais clubes que presidentes e diretorias,usam de suas mediocridades para invejadamente insuflarem seus debeis torcedores a violencia.E,foi o que aconteceu entre o SPFC e o curintiá. É isso. Abraços

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