Gordon Banks – Voo para a História
Pode um instante ou momento resumir toda a nossa vida? No verdadeiro momento de apogeu, o ídolo que hoje lembro, agora com 70 anos, era um dos guarda-redes mais famosos do Mundo. Gordon Banks ganhou o célebre Mundial de 1966 com a Inglaterra, mas foi quatro anos mais tarde que foi literalmente “catapultado” para a popularidade quando milagrosamente voou para negar um golo mais que anunciado.
O Enigma – “Banks of England”
Confesso que sempre “adoptei”a ideia que só um selecto grupo de futebolistas pode aspirar uma final de um Mundial como momento dourado de uma carreira, ou mesmo um golo numa final de um torneio de nomeada como aconteceu recentemente no Euro 2008, quando Fernando Torres marcou o único golo da final e “trouxe” a taça para os nossos vizinhos. Uma felicidade ao alcance de um jogador chamado “de campo”, mas o que dizer em relação aos “solitários” guarda-redes? Gordon Banks é a resposta. Para quem foi “abençoado” pela felicidade de o ver jogar e defender com instinto quase cruel entre os postes, rapidamente recorda que é um guarda-redes iluminado para sempre, por um único momento. Como infelizmente não faço parte desse grupo, lancei-me à procura do que o torna um nome tão popular em terras de Sua Majestade. Rapidamente saltou à vista a vitória em Wembley da Inglaterra face à Alemanha por 4×2 na final do Mundial de ’66 como, naturalmente, a recordação mais sublime dos seus largos anos como guardião britânico. O “problema” é que parece que cada semana, há sempre um adepto que quase de forma infalível se aproxima de Banks e pergunta-lhe “Como foi possível alterar o destino traçado por Deus?” Muitos esticam a mão direita e esperam ansiosamente até perguntarem:” É esta a mão que realizou aquele momento contra o Brasil?” conta Banks numa recente entrevista à BBC, onde ainda referiu: “É lógico que 1966 está mais presente na minha memória, mas parece que aquela só e só mesmo aquela defesa é tudo o que todo o Mundo se recorda de mim” – acrescentou.
A Vida
A carreira professional de Gordon Banks concluiu-se em 1972, com “apenas” 35 anos quando foi vítima de um acidente de viação e perdeu o seu olho direito. Desde então, o homem que contribuiu para que o sonho de milhões de ingleses se materializasse em 1966 trabalha noutro sector, onde torna realidade as ilusões de algumas pessoas afortunadas. Banks é um dos três ex-futebolistas que formam o “Pools Panel”, um grupo restrito que se reúne cada domingo para efectuar uns prognósticos de último minuto relativos a partidas na Inglaterra e Escócia. Com base nas decisões que tomam Banks, Roger Hunt e Tony Green, seus antigos companheiros do plantel vencedor do Mundial, um restrito número de apostadores pode ganhar ou perder milhares de libras.
Apesar de uma próspera realidade actual, Gordon Banks pertenceu à geração que utilizou o futebol para escapar às minas de carvão no norte de Inglaterra. Nascido em Sheffield, aos 15 anos já trabalhava como servente de obras especializando-se em bolsas de carvão. O Chesterfield da 3ª divisão, foi a sua salvação pois deu-lhe “a mão” até o projectar para o Leicester por 7000£ em 1959, onde esteve 7 anos até se transferir para o Stoke City em 1966. Entre 1963 e 1972 foi internacional com a camisola inglesa por 73 vezes numa altura em que o salário máximo na Inglaterra ascendia às 20£ por semana. Uma das grandes curiosidades acerca de Banks remonta ao ano de 2001, quando vendeu a sua medalha de ouro de Campeão Mundial de 1966 na célebre leiloeira londrina Christie’s. O leilão terminou com a licitação de 124 750£ excedendo facilmente a valorização inicial de 90 000£. Banks referiu que vender a medalha foi a decisão mais difícil de sempre pois representa o dia mais importante da sua carreira. Há quem diga que foi por alegadas dificuldades económicas mas o próprio alega que apenas e só quis evitar que os seus filhos não tomassem a decisão adequada para tal alegria e assim o valor ganho foi distribuído por ambos.
O Momento – “The Save”
Para que finalmente se entenda porque Banks é lembrado por um dos grandes momentos especiais de magia futebolística, é preciso referir um outro nome: Pelé. Estávamos no Mundial de 1970 e o Brasil era o próximo adversário da Inglaterra, Jairzinho rompeu pelo flanco direito e centra para a área inglesa onde Pelé se elevou e cabeceou o esférico com tamanha força, colocação e empenho que o público já gritava golo tal era o apetite que a bola ia para a rede. Com reacção felina, Banks lançou-se num voo quase sobrenatural, conseguindo desviar a bola de forma milagrosa por cima da trave com o polegar direito. Pelé não podia crer – mais tarde descreveu a acção de Banks como a melhor defesa que jamais havia visto – “Recordo que olhei para Pelé e para os brasileiros e estavam horrorizados, no fim do jogo vieram-me tocar quase como se fosse divino ou mesmo um monstro” – referiu sempre com a modéstia que tanto o caracteriza: “Estou seguro que muitos guarda-redes no Mundo realizam defesas como aquela, mas esta foi contra o Brasil e passou na Televisão, num modo quase épico que ainda hoje é sempre mostrado”.
Muitos adeptos pensam que se Banks tivesse jogado os quartos de final de 1970 face à Alemanha, a Inglaterra conseguiria chegar a uma nova final, mas o herói ficou de fora graças a uma indisposição estomacal e foi substituído no último instante por Peter Bonetti. Com uma vantagem de 2×0, a Inglaterra viu Bonetti deixar passar um tiro de Franz Beckenbauer por baixo do seu corpo e assim a Alemanha partiu para um vitória histórica de 2×3. Para Gordon Banks ficaria unicamente o sabor da sua magnífica defesa. Um momento cujo outro protagonista – Pelé – resume da seguinte maneira: “Marquei mais de mil golos na minha vida, mas sem dúvida que o golo que não consegui marcar é aquele que todos mais recordam!”.
Fantástica defesa de Gordon Banks



