Clairefontaine – “A Academia”

Clairefontaine. Para os mais distraídos é “apenas” uma vila perto de Paris, para os mais atentos trata-se da Academia mais prestigiada de França e considerada a melhor do Mundo, capaz de “fabricar” o verdadeiro creme de la creme da cantera gaulesa – Henry, Anelka, Makelele, Rothen, Gallas, Saha, Ben Harfa e até Yebda… são apenas uns dos muitos rebentos da magnífica Academia de Clairefontaine.

24 de Novembro de 2008 – Site da FFF (Federação Francesa de Futebol): são finalmente divulgados os nomes dos 79 candidatos a “estagiários” em ClaireFontaine. Para milhares de jovens franceses, é a oportunidade de uma vida que só alguns conseguem agarrar, e quando o fazem, é como ganhar o Euromilhões. Espera os felizardos uma dupla fase de selecção até finalmente ser “espremido” o melhor do melhor deste grupo de jovens, assegurando que Clairefontaine continuará a “produzir fornadas” de jovens franceses que chegam a arrepiar qualquer Federação Internacional. Confesso que sempre soube e aceitei que os Franceses têm jogadores magistrais, mas actualmente espanta-me como sobretudo têm um coração muito grande. Estes bons “samaritanos” ajudam os vizinhos que estão para além do Canal da Mancha, o seu adversário de sempre, a ultrapassar uma longa e penosa falta de investimento na formação. Prova disso são as recentes afirmações de Les Reed, o director do desenvolvimento técnico da FA, que afirma ter reaprendido todos os fundamentos e critérios na Academia de Clairefontaine, denominado oficialmente como Centre Technique National Fernand-Sastre, uma autêntica Universidade do futebol que foi inaugurada há 12 anos atrás pelo presidente Francois Mitterand e de onde, desde então, emergiram autênticas “fornadas” de prodígios prontos a conquistar o Mundo.

Todos os países, sobretudo europeus, têm a sua referência no que toca à formação de jovens talentos para o futebol. Em Portugal não existe uma verdadeira Associação de Futebol como a de Clairefontaine, limitamo-nos, sem dúvida, a Alcochete que com a bandeira do Sporting nos coloca no mapa da formação das últimas décadas. Coverciano na Itália ou mesmo o novo sonho – leia-se National Football Centre na Inglaterra, inspirado no exemplo francês – são outros nomes de onde saem ou certamente sairão muitos talentos futuros. Mas o que faz de facto, Clairefontaine uma grande referência mundial? O facto de ser uma fábrica de sucesso, com 56 hectares e 60 empregados a full-time, 302 camas, uma livraria e um vídeo-cinema, sete campos de relva mais três sintéticos mas sobretudo o conceito de “cinq grandes missions”: compreender um centro de preparação para a equipa nacional, uma unidade de ciência de desporto, um instituto nacional para os treinadores de elite e um local para seminários, apresentações e convenções. O próprio meio de selecção dos atletas, e tudo o que isso envolve, é um bom exemplo da rigidez apresentava pelos seus directores. Tomemos como exemplo o da selecção do presente ano:

Condições de Inscrição -Época 2009/10

  • Nascido em 1992
  • Nacionalidade Francesa
  • Nível de Estudos Elevado
  • Habitante da grande região de Paris

Modo de Recrutamento

  • O primeiro “round” de selecção efectua-se durante Março de 2009, sob convocatória do Instituto Nacional de Futebol
  • Os dias seguintes desenrolam-se em Clairefontaine, sempre sob gestão do INF
  • Um estágio de 3 dias, no final de Maio, reúne os melhores 40 jogadores
  • 22 jogadores no máximo são escolhidos (4 guarda-redes no máximo)

Provas

  • Jogos disputados em campos reduzidos
  • Avaliação de técnica individual
  • Uma corrida de 40 metros com obstáculos
  • Um teste de endurance na fase final

Regras

  • Duração: 3 anos
  • Alojamento: Internato de Domingo antes das 21h00 até Sexta-Feira à noite
  • Todos os custos são suportados pela FFF e pela Liga Nacional de Futebol, salvo o almoço no Colégio (180€ por trimestre) e uma contribuição excepcional (150€ por ano) para a escolaridade dos jovens no Colégio.

Futebol

Existem 5 treinos por semana que incorporam vários princípios, tais como:

  • Dotar os jogadores de melhores e mais rápidos movimentos
  • Ligar os movimentos de forma mais eficaz e astuta
  • Usar o pé mais fraco
  • Reduzir as fraquezas de jogo do atleta
  • Moldar factores psicológicos mais fracos
  • Teste físicos
  • Treinos de Técnica (drible com a bola, correr com e sem bola, remate, passe e controlo da bola)
  • Treinos de Táctica (melhorar a condução da bola, recepção de passe, oferecer apoio, passe e desmarcação e movimento em espaços livres)

Em suma, estes são os alicerces para a popularidade cada vez mais crescente do futebol de formação em França, e uma das razões pela qual em 20 existem 7 ou 8 alunos que saem do centro com um contrato profissional assinado em clubes da Ligue 1. Para que todos fiquemos com a real sensação de como esta aposta é deveras intrínseca no futebol francês, Michel Platini acaba de inaugurar no passado dia 1 de Novembro mais um remodelado Centro de Formação em Nancy, precisamente com o nome do antigo “armador” de jogo da selecção gaulesa. Enquanto procedia à inauguração, Platini não deixou de soltar algumas opiniões sobre tal feito: “Associo o meu nome a este centro por duas razões: a primeira pelo facto estético, este novo centro é qualquer coisa de magnífico, dá gosto ver um jovem a entrar aqui! A segunda pela ordem sentimental, fui um dos primeiros jovens a frequentar este centro. Recordo-me do dia em que cá entrei, foi a 22 de Junho de 1972, e em conjunto com outros 4 jovens integrarmos este conceito inventado por Claude Cuny” afirmou Platini, hoje com 53 anos, sem deixar de avançar igualmente com argumentos de ordem “política”, que indicam claramente que o futuro será assegurado “sempre com a ligação ao trabalho de formação «à Francesa»”.

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Reportagem sobre o exemplo de Clairefontaine





3 Comentários

  1. Dannymad diz:

    Adorei este artigo. Pergunto porque não aproveitaram a onda do Euro que cá se realizou para arrancar com um projecto deste genero em Portugal? O afamado “elefante branco” do Estádio do Algarve seria um local excelente para o mesmo. Muito espaço, um local sossegado ( por enquanto!) , julgo que reunia todas as condições para ostentar esse tipo de projecto. Mas como sempre visionamos sempre as coisas para curto prazo e não para o longo, arriscando-nos a no futuro sermos passados cada vez mais por Franças e Inglaterras e por outras nações que estão a crescer para o futebol. Se poupassem o dinheiro na reconstrução de pelo menos um dos estádios num projecto deste genero em Portugal teria sido um grande empreendimento para o futebol e desporto nacional.

  2. Luis diz:

    Concordo.
    Um excelente artigo, que até me emocionou um pouco.
    As sugestões de Dannymad são pertinentes.
    Parabéns.

  3. Paulo diz:

    Exactamente, Dannymad.

    Esse estádio do Algarve até nem é dos que mais me choca, sinceramente. É óbvio que anda meio abandonado,em termos de futebol, mas mais gravoso que isso foram as construções do estádio de Aveiro e o de Leiria (muito particularmente este último).

    Aceito que se renovassem estádios, pois alguns, como o antigo de Aveiro e do Beira-Mar, já não tinham condições. Mas o que se fez em Leiria é apenas, e repito, apenas resultado de especulação imobiliária, interesses da “massa” e visão a curto prazo, como foi referido pelo Dannymad. Mas isso já são águas passadas (mais ou menos, claro, visto que vamos estar a sofrer as consequências dessa falta de visão e dessa errada distribuição física e financeira dos “investimentos” – se é que no caso de Leiria isso alguma vez irá ser assim denominado, visto que está condenado a ser um fracasso comercial, se apenas depender do futebol, o que, talvez, nem seja mesmo o que está na mente de quem o constriuiu; aaaaai tantos prediozinhos, escritórios, “zonas comerciais” e “zonas verdes” que ali nascerão…)

    Frustrações à parte, e voltando ao tema da Academia de futebol, verifica-se em Portugal o que se verifica em muitas outras áreas: dependemos sempre de iniciativas desgarradas, isoladas, independentes de meia dúzia de entidades (neste caso, os clubes) para que se faça alguma coisa. Não há projecto que una tudo isso. É verdade que o trabalho da formação na nossa federação é, a meu ver, bom e competente, mas isso é porque temos bons jogadores (formados nos clubes) e bons treinadores (particularmente na formação), porque em termos de infra-estruturas continuamos dependentes dos clubes, parece-me. Não quero com isto dizer que concorde que a única via de desenvolvimento de trabalho da formação seja esta concentração num “altar do futebol”, num centro único máximo e centralizado. Pode haver outros métodos que resultem, talvez.

    Mas o que é facto é que nações com este género de estrutura física e científica (e acrescentaria, até, psicológica, pois estes centros revestem-se de uma alma muito particular) os resultados são visíveis: sendo a França e o Brasil (que pode ser um país com problemas e desorganização a nível de clubes, mas que é, quer se queira aceitar, quer não, uma superpotência “em potência” e que sabe ser grande e competente) expoentes máximos (e com troféus) disso nos dois “principais” continentes futebolísticos.

    Cumprimentos

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