Jean Chera – O Anti – “Fenómenos de Fraldas”
Descoberto aos seis anos, reconhecido aos nove, ídolo ainda adolescente. Assim é Jean Carlos Chera, que com tão tenra idade já tem contrato, salário e até já é patrocinado pela marca Umbro, a mesma marca desportiva que patrocina o Santos, clube canarinho que aposta forte no seu novo nº 10. Será este o concretizar definitivo de uma promessa anunciada? Ou mais uma aposta precoce em crianças “construídas” para um negócio?
Já vão bem longe os tempos em que os clubes “pescavam” as jovens pérolas com 17 e 18 anos. Também longe estão os tempos em que os 14 e 15 anos eram a idade-tipo para o recrutamento denominado de “cantera”, isto é, que compreendia uma parte final da formação nas academias dos clubes investidores. Estamos pois, perante um novo fenómeno no que toca ao recrutamento de talentos precoces com menos de 10 anos, em que a Internet assume um papel preponderante na divulgação dos seus atributos.
Foi o que aconteceu na Argentina, quando o nome de Leandro Depetris ou mesmo Erik Lamela saltaram para a ribalta. O primeiro em 2000, já deixava de ser um rascunho nos cadernos dos olheiros, em virtude de sua transferência para o AC Milan. Na altura com apenas 11 anos a actuar no Brown San Vicente, o seu talento já era (re)conhecido e não passava despercebido, suscitando investidas das grandes equipas do campeonato alviceleste. Menor de idade, coube à sua família orientar a sua “carreira”, considerando que seria precoce dar tal passo de gigante na carreira do seu rebento. Curioso foi ver que a mesma decisão não foi mantida quando Franco Baresi (vice-presidente do Milan) convidou a promessa do Brown para fazer testes depois de assistir alguns de seus vídeos. O impacto causado pelo jogador foi imediato e logo já estava a envergar a camisola rossonera, intercalados com viagens para a Argentina, onde seguia treinando, pois não poderia permanecer em Milão em virtude da sua idade. Durante dois anos, Depetris repetiu um vai e vem entre Itália e Argentina, até decidir continuar a sua formação no próprio país, no River Plate. Aí, actuou ao lado de “desconhecidos” como Gonzalo Higuaín e Diego Buonanotte por três temporadas. Aos 16 anos, foi novamente seduzido e voltou para jogar no futebol italiano e partiu para defender o Brescia. Esta foi desde logo a decisão que ditou a sua derrocada já entre profissionais, em 2005/06, onde conseguiu deixar marca que contudo não foi suficiente para o “prender” à Europa. Assim, o regresso à Argentina foi uma realidade para assinar pelo Independiente, mas ficou certamente “marcado” pela imagem do miúdo de 11 anos que viajou para a Europa cercado de expectativas e acabou por voltar arredado das esperanças que todos os jovens sonham.
Já com Erik Lamela, do River Plate, a história foi ligeiramente diferente mas o resultado igual ao do seu conterrâneo Depetris. Aos 12 anos, foi fortemente assediado pelo Barcelona e recebeu uma oferta milionária que compreendia um sponsorship de luxo, mas a sua família não abriu mão da sua presença em Nuñez e assim, o jovem prodígio que deu nas vistas num torneio na Europa ficou nos Milionários. Foi uma questão de arriscar ou não, e hoje passados quatro anos, vão longe os tempos em que coleccionava recordes nas categorias infantis. A sua total ausência das selecções de esperanças argentinas é a prova do eclipse de mais outra eterna promessa a juntar a Depetris. É o risco que jovens correm ao serem badalados tão cedo, e é a principal razão porque por exemplo o Boca Juniores deixou de participar em torneios em solo Europeu.
Este tipo de apostas está assim bem longe de ser uma “vaca leiteira” para os clubes, mas há quem ainda esteja disposto a apostar. Um pouco na sombra do que o Manchester United fez com Rhain Davis, australiano de 9 anos, o Santos abalou todo o futebol canarinho e apostou forte na contratação de Jean Chera que desde cedo traçou o seu destino e também o da sua família. Em 2004, a primeira troca, quando Chera “forçou” a família a mudar-se para o estado do Paraná onde integrou as escolinhas do modesto Adap (Associação Desportiva Atlética do Paraná). Esta relação teve um fim quase tão prematuro quanto o talento que estava em causa, pois o clube catapultou-o logo para um escalão etário muito superior ao recomendável e “publicitou” a sua promessa no seu próprio website, onde chegou a ser cobiçado na altura ao que se diz pelo Man. Utd, Valência, FC Porto (entre outros clubes lusos), Maiorca, Bordéus, Estugarda, Sevilha, AC Milan, Español, entre outros. O caminho desta família, que vivia dos rendimentos de uma plantação de arroz no seu estado natal de Matogrosso, prosseguiu não para lá do Atlântico mas para São Paulo e para aquele que ficou conhecido como o “clube de Pelé” – Santos.
A verdade é que já é Jean que sustenta autenticamente os seus pais e o seu irmão mais novo, pois apesar de não ter um contrato profissional dado não ter ainda dezasseis anos, o Santos proporciona-lhe uma série de regalias que muitos jogadores seniores gostariam de ter. Luxos dignos de uma estrela, como casa e despesas todas pagas. O trajecto de Jean Carlos resume-se ainda ao futebol brasileiro, porém surgiram já novamente noticias do interesse de mais clubes Europeus no concurso do prodígio, tendo – também por isso – a sua história e talento sido já noticia em praticamente todo mundo (inclusive na CNN, MTV, Globo, Sky, etc). Independentemente do caminho que percorra, a vida desta família está definitivamente afectada pela manifestação precoce de um talento já célebre em qualquer país. Como atleta, actualmente tem 1,60m e 52kg, e perspectiva-se que encaixe no perfil de Robinho, quer fisicamente como no que toca à acção em campo. É um 10 puro, na onda do que a equipa “mirim” nos presenteou recentemente e tem na velocidade de execução, chuto poderoso com ambos os pés e capacidade de drible e finalização as suas maiores armas, mesmo tratando-se de um jogador com 13 anos com muito para melhorar e aprender. É ao lado de Neymar e Gabriel, parte do trio maravilha que o Santos espera ver a brilhar no Mundial 2014 com a camisola canarinha. Com um talento inegável, Chera está definitivamente apostado em perfilar-se como uma excepção ao fracasso precoce dos seus “colegas” argentinos e conta com o seu trabalho e classe para brilhar quando entrar no mesmo relvado que outrora lançou Pelé para a ribalta. Será Jean Chera o primeiro grande sucesso de um negócio feito ainda com fraldas?
Jean Carlos Chera – O novo prodígio do Santos



