Análise: Dinamo Kiev 1×2 Porto
É devido a momentos como este que o futebol é amado por milhões, nos 4 cantos do planeta. Confesso que tinha o pressentimento de que o Porto iria vencer esta partida. Não havia nenhuma teoria absoluta para essa minha previsão, mas simplesmente porque me passavam pela memória inúmeras situações em que, no momento mais complexo, a equipa que está por baixo acaba por soltar-se e partir para uma bela vitória. E foi precisamente isso que sucedeu. No final, Jesualdo Ferreira falou num azar que perseguiu a equipa nas últimas partidas. Pois bem, se há jogo em que azar e sorte acabaram por ser determinantes, esse jogo foi o de ontem e não os anteriores! Um jogo de pólos, em que os postes tiveram uma palavra a dizer, e em que só uma jogada caída dos céus permitiu a um Porto demasiadamente inconstante sair da Ucrânia com uns vitais 3 pontos.
Discutida a teoria da sorte e do azar, partamos então para a análise de uma partida a todos os níveis incrível. O Porto apresentava-se numa amena capital Ucraniana com uns tímidos 3 pontos, e com duas realidades bem presentes: vinha de um cenário de crise, com 3 derrotas consecutivas, sendo que a primeira delas havia sido precisamente com este Dinamo, e em pleno Dragão. Não seria definitivamente um jogo fácil de digerir emocionalmente, e certamente adeptos e simpatizantes receavam o pior da equipa. Jesualdo, que anteriormente havia prometido manter a estrutura da equipa, fazia algumas alterações na equipa, algumas delas (como habitualmente) quase diria bizarras. Que dizer da colocação de Emanuel a lateral esquerdo? É possível aceitar a colocação de um elemento mais posicional como lateral – já Mourinho o fazia, e com sucesso – mas numa partida desta importância, será que faria sentido arriscar um atleta pouco utilizado e sem rotinas? A saída de Tomás Costa era também discutível, sendo que neste particular a entrada de Tarik poderia trazer alguma profundidade à ala direita do ataque, coxa de há algum tempo para cá. Hélton era também outra das novidades, e em boa hora voltou à equipa. Basta conferir que o canarinho foi crucial no desfecho da partida.
O início, e como habitual em equipas portuguesas, foi de algum fulgor. Aliás, não teria sido surpreendente um golo de Meireles aos 8′, num belo remate que (uma vez mais) batia no poste da baliza de Bogush (a décima bola em postes desde o início da temporada). Esse ímpeto foi rapidamente decrescendo, e honestamente não foi com surpresa que o Dinamo tomou conta da partida, frente a um Porto que voltava aos níveis do costume: um futebol lento, mastigado, e cuja pouca confiança da equipa levava a inúmeros passes falhados. Jesualdo classificou-o como falta de sorte, eu classifico-o como falta de confiança: o golo do Dinamo, aos 21′, era tremendamente facilitado pelos defensores azuis e brancos, e o Porto apenas se poderia queixar de si próprio por ser ver em débito no marcador. Felizmente, o Dinamo não era também uma equipa feroz, e o intervalo chegou sem grandes oportunidades de realce.
O segundo tempo trouxe Hulk à partida, para o lugar de Tarik, e a sua presença fez-se notar de imediato. Apesar de algum individualismo (que se compreende, em parte, devido à apatia de toda a equipa), o Brasileiro como habitual mexeu um pouco com a partida, ganhando confrontos individuais, cavando faltas, e trazendo a equipa para a frente. O mesmo não se pode dizer do corredor contrário, pois Rodriguez fazia francamente das suas prestações mais pobres de dragão ao peito. Tenho sido um defensor do seu futebol, e não concordo com a sua crucificação, mas a realidade é que o Uruguaio não tem sido mais do que lances perdidos, demasiados dribles e nem um único cruzamento ou assistência bem medida. Estará para vir a sua hora, é certo. A pouco e pouco o Porto foi aproveitando alguma apatia dos da casa, e apesar de os níveis competitivos nunca se terem elevado grandemente, a realidade é que pelos pés de Fernando e Raul Meireles, essencialmente, o Porto foi ganhando diversos confrontos a meio-campo, e foi com grande mérito que o empate surgiu, aos 69′. Foi Rolando, o discreto mas eficiente cabo-verdiano que rapidamente ganhou lugar na equipa, quem correspondeu imparável a um tenso cruzamento de Raul Meireles. Há quem fale em sorte? Pois bem, eu apenas refiro que talvez tenha sido um primeiro livre lateral bem apontado dos últimos 4 jogos, assim como a primeira boa finalização da temporada a esse nível.
Com Lucho a meio-gás – o argentino que, não obstante o golo, é actualmente um atleta sem fibra, sem precisão, e essencialmente sem a eficiência de outros tempos – o Porto via o seu oponente partir para um forcing final, e foi nesta altura que foi evidente a enfraquecida defensiva portista actual. Sapunaru é facilmente ultrapassado por qualquer ala de qualidade duvidosa, Lino (que havia entrado aos 77′) não conhece o significado da palavra defender, e até no centro da defesa havia alguma dificuldade em fechar caminhos – basta vermos que as maiores jogadas de periogo consistiram em trocas de bola em plena grande área! A partida caminhava para o final, e só um lance caído dos céus permitiu o 1×2 portista. Daquelas jogadas em que o golo nos passa pela cabeça quando a bola ainda está a sair da defesa. Um contra-ataque perfeito, no talvez único lance de registo de Lisandro Lopez em toda a partida, a mostrar toda a sua categoria ao servir de bandeja o golo para Lucho, que pareceu guardar todo o seu fôlego para o último sprint. Era o soltar de uma raiva contida, de uma equipa com qualidade, com querer, e que apenas e só passa uma fase má. Esta vitória foi o demonstrar disso mesmo, de que existe vontade em mudar o que não vai bem, e que apesar de um plantel mal estruturado (onde Ibson, Pitbull, Luis Aguiar, entre outros, teriam certamente uma palavra a dizer perante Farias ou Mariano) existe uma equipa, um grupo. E isso é, certamente, o mais importante.



