Paul Gascoigne – A Glória e a Degradação
Sempre gostei de equipas de futebol inglesas, mas nunca morri de amores pela selecção inglesa. Com uma excepção: a selecção que disputou o Mundial de 1990 em Itália. A selecção de Gary Lineker, John Barnes, Chris Waddle, Peter Beardsley, David Platt e… Paul Gascoigne.
O Mundial de 1990
Desde que me lembro, o Mundial de 90 foi o único em que estive verdadeiramente a puxar pela vitória da selecção inglesa (Portugal esteve ausente da fase final). Isso deveu-se, em grande parte, às exibições de Gascoigne (também conhecido por “Gazza”), uma espécie de jogador todo-o-terreno, ou um “carregador de piano”, como se dizia antigamente, capaz de liderar uma equipa, não só como maestro, mas também como executante. Gascoigne, então com 23 anos, pareceu sempre, ao longo do Mundial, um jogador em estado de graça. Como se estivesse a viver o momento mais feliz da sua vida. Enquanto espectador, chegava a ser vibrante testemunhar a forma como jogava, sempre com um disponibilidade física que parecia não ter limites, aliada a uma grande capacidade técnica. Isso viu-se principalmente no épico encontro dos quartos-de-final (talvez o melhor do torneio) em que a Inglaterra bateu os Camarões por 3-2, após prolongamento. A selecção inglesa acabaria eliminada nas meias-finais pela Alemanha, no desempate por grandes penalidades, mas durante esse encontro Gascoigne foi superior ao seu adversário directo: Lottar Matthäus. E o capitão germânico estava então no auge da sua carreira. É, aliás, desse jogo que guardo uma das imagens mais marcantes de todo o Mundial: o choro convulsivo de Gascoigne quando recebeu o cartão amarelo que o impediria de jogar a final, caso a Inglaterra se qualificasse para ela (já tinha recebido um cartão no jogo dos oitavos-de-final com a Bélgica).
A popularidade em Inglaterra
Antes de se tornar mundialmente famoso graças a esse Mundial, Gascoigne já havia há muito impressionado os adeptos do seu país. Na Europa, devido ao impedimento de as equipas inglesas participarem em provas internacionais após a tragédia de Heysel Park, é que era quase desconhecido, apesar de a sua transferência do Newclaste para o Tottenham, em 1988, ter sido na altura a mais cara do futebol britânico (2.3 milhões de libras). Essa transferência assinalou também a primeira polémica em relação ao jogador. É que, durante o defeso, ele tinha dado a sua palavra a Alex Ferguson em como aceitaria a proposta do Manchester United em ir jogar para os red devils. Ferguson era já o treinador do Manchester, mas a equipa na altura não era o colosso que havia sido nos anos 60 e que viria novamente a ser a partir da década de 90. E na época, a escolha pelo Tottenham não parecia assim tão descabida. Gary Lineker faria o mesmo, depois de sair do Barcelona. E foi no Tottenham, sob o comando de Terry Venables, que Gazza se tornou num dos melhores e mais populares jogadores ingleses do final do anos 80 e início de 90. Popular ao ponto de chegar a gravar música e alcançar êxito com o single “Fog on the tyne”. Ao serviço do Tottenham, acabou por conquistar a Taça de Inglaterra na final de 1990/91 contra o Nottingham Forest do lendário Brian Clough. No entanto, essa final assinalou também o início de uma série de graves lesões no joelho que Gascoigne iria sofrer ao longo da sua carreira, nomeadamente na Lázio, para onde já tinha acordado transferir-se na época seguinte. Em 1991/92 praticamente não jogou, não só devido a essa lesão, mas também por causa de um acidente sofrido num clube nocturno (o primeiro de muitos).
Em Itália e na Escócia
A sua estreia com a camisola da Lazio ocorreu em Setembro de 1992, numa partida contra o Génova, transmitida tanto pela televisão italiana, como pela inglesa. Apesar de as suas exibições, ao longe de três épocas na formação italiana, terem ficado aquém do esperado, a sua entrega durante as partidas, o seu carisma natural e o facto de ter marcado um golo importante à ultra-rival AS Roma no penúltimo minuto de uma partida, ajudou a cimentar a sua popularidade junto dos adeptos. Mas para Gazza, a transferência para o Glasgow Rangers em 1995/96 foi como que um reiniciar da sua carreira. Longe dos media italianos, para quem as suas “proezas” fora de campo sempre foram mais importantes do que aquilo que fazia quando jogava, efectuou logo uma das suas melhores épocas de sempre, conquistando o título escocês, a Taça e a admiração dos adeptos. Não foi por acaso que foi eleito o melhor jogador do campeonato. Nessa época ficou também famosa a cena em que o árbitro Dougie Smith deixou cair o cartão amarelo no relvado. Gascoigne, num acto típico do seu temperamento provocador, pegou no cartão e mostrou-o o árbitro, como se o estivesse a penalizar, o que não agradou muito a Smith, pois logo de seguida mostrou também o cartão ao jogador. Ainda nesse ano, durante o campeonato da Europa disputado em Inglaterra, Gazza comandou a selecção do seu país até às meias-finais (onde, para variar, seria eliminada pela Alemanha através do desempate por grandes penalidades), marcando até um dos mais belos golos de toda a História das fases finais de Europeus, frente à Escócia. Numa jogada individual só ao nível dos predestinados, ”Gazza” recebeu a bola com o peito dentro da área, passou-a por cima de Hendry e rematou de pronto, batendo o guarda-redes Goram. Em 2002, ano do último jogo realizado no mítico estádio de Wembley (demolido no ano seguinte), esse golo de Gascoigne foi eleito o melhor de sempre marcado naquele recinto londrino. Na época seguinte, voltou a ganhar o título e a Taça da Liga escocesa, marcando dois golos na final. Tudo parecia estar no melhor dos mundos: Gazza exibia todas as qualidades que manifestara no Tottenham e na selecção inglesa, encantava os adeptos da sua equipa e colocava os adversários (jogadores e adeptos) à beira de um ataque de nervos e prometia marcar uma era na História do Glasgow Rangers e do próprio campeonato escocês. Até que, em Janeiro de 1998, viu a sua vida ser ameaçada pelo IRA, depois de, numa partida contra o Celtic, ter feito um gesto considerado ofensivo para os adeptos do rival do Glasgow e a população católica em geral. Talvez por isso, acabou por aceitar o convite do Middlesborough para, em Março do mesmo ano, regressar a Inglaterra e ajudar a equipa a subir da Division One para a Premier League. Essa foi, no entanto, a única conquista que obteve no Middlesborough e, a longo prazo, a sua saída da Escócia acabou por representar um novo declínio na sua carreira.
A curva descendente
Depois do Middlesborough, transferiu-se para o Everton em 2000/2001, onde voltou a não ser feliz. Ainda foi parar ao Burnley, da Divison One, no fim da temporada 2001/2002. Em Janeiro de 2003 assinou um contrato como treinador/jogador com um clube chinês, o Gansu Tianma, mas não ficou lá muito tempo. A bebida e a depressão já há muito mandavam na sua vida. Depois de, em Abril desse ano, ir para os EUA para procurar tratamento, nunca mais regressou ao seu clube. Nesse mesmo ano ainda voltou a Inglaterra e esteve, imagine-se, à experiência no Wolverhampton, mas sofreu a humilhação de não ter sido aprovado. Depois de pendurar as botas, o comportamento de eterno “rebelde sem causa” com atracção pela violência e pela degradação tornou-se ainda mais perigoso. Pancadaria em bares, tentativas de suicídio, overdoses, bebedeiras dia sim dia sim e violência doméstica têm sido as notícias associadas a Gascoigne nos últimos anos. É verdade que o jogador nunca foi um santo: quando festejava golos era provocador para os adeptos adversários, chegou a arrotar propositadamente numa entrevista em directo para a televisão italiana, e quando Glenn Hoddle o afastou da convocatória para o Mundial de 1998 (por ter sido apanhado a beber convulsivamente em pleno estágio), fez o favor de entrar no quarto do seleccionador inglês e dar largas às suas fantasias mais violentas. Custa-me, no entanto, que um jogador que em tempos admirei, e que tinha talento para ficar na história como um dos melhores da sua geração, se tenha deixado influenciar cegamente pela mediatização da sua imagem de “bad boy”. Mas nisso, não foi o primeiro nem será o último.



