Análise: Benfica 2×0 Nápoles

Com garra e classe, vinte e três anos depois, o Benfica repetiu a façanha de 1985 com a Sampdória e eliminou uma equipa Italiana, desta feita o Nápoles num jogo que serviu para reconciliar os encarnados definitivamente com os bons resultados. Reyes e Nuno Gomes foram os tenores de uma orquestra que teve em Katsouranis e Yebda a batuta para um grande jogo e uma noite histórica para o universo da Luz.

O início da partida trazia a curiosidade de ver como o Benfica se apresentava perante uma série de contrariedades no seu plantel e também a dúvida sobre Pablo Aimar, que acabou desfeita com o argentino a ficar de fora dos 18. Carlos Martins ficou pela primeira vez no banco de suplentes. Quique Flores lançou Katsouranis e Di Maria na equipa titular, reforçando a ideia de que joga quem estiver em melhores condições. O Nápoles chegava à Luz com uma série de 7 vitórias e 2 empates em jogos oficiais, e um confortável e “impressionante” 2º lugar no Calcio.

Os primeiros 15 minutos da partida constituíram uma entrada em jogo com grande intensidade de ambas as equipas. O Benfica assumiu a iniciativa do jogo, ao passo que o Nápoles ficava na expectativa, a espreitar o contra-ataque. A equipa da Luz, sempre muito empolgada pelos seus adeptos, mostrou-se muito mais coerente em termos estruturais do que no jogo da 1ª mão, sendo que Yebda se assumiu como um médio mais de transição, pois deixou Katsouranis na marcação a Hamsik. Foram várias as ocasiões de golo do Benfica, com Di Maria a ser um dos responsáveis pela resposta às acções de Gargano e Lavezzi – claramente os napolitanos com sinal mais. O argentino campeão Olímpico mostrou requintados pormenores técnicos, refira-se. Foram várias as bolas defendidas por Gianello, que não deixou por várias vezes que Yebda levasse “o cântaro à fonte”, mas o Benfica mostrava que a batalha do meio-campo estava ganha tal era a cumplicidade do argelino com Katsouranis na hora de formar um miolo compacto, batalhador e com pulmão, criando condições para cobrir todo o campo e empurrar os italianos para a sua área, para bem longe da área de Quim.

Análise: Benfica 2x0 NápolesA primeira parte mostrou também uma linha defensiva encarnada bastante subida, que assim formou um bloco forte para fazer face às investidas de Vitale, Lavezzi e Zalayeta, sendo que a transição de bola para o ataque pecou por cair demasiado no flanco esquerdo onde estava Reyes, ficando Rúben Amorim demasiado preso a tarefas defensivas, apenas “esquecidas” com a subida de Maxi. A primeira parte terminava com a clara evidência de que o Benfica mandava no jogo, ao passo que o Nápoles, numa bola ao poste de Zalayeta, tinha desperdiçado a melhor oportunidade dos Napolitanos para mostrar o característico cinismo italiano. O recolher ao balneário foi feito num ambiente extremamente “picadinho”, ouvindo-se as preces dos treinadores que suspiravam seguramente pelo apito do intervalo para colocarem alguma ordem nas respectivas formações.

A segunda parte começava com um dilema para Quique: ou pedia aos jogadores para partirem para cima dos italianos, mexendo imediatamente na equipa ao intervalo (Carlos Martins poderia ser uma boa solução), ou não alterava o onze e sobretudo as linhas com que havia entrado no desafio, privilegiando a coerência e segurança na hora de ganhar a bola ao adversário. Uma opção mais arrojada face a outra mais cautelosa, esta última a adoptada pelo treinador benfiquista, quanto a mim bem, tal era o risco de perder a batalha do meio campo e sofrer um golo que deitaria tudo a perder. Assim sendo, o início do segundo tempo foi praticamente um deja vu dos primeiros 45 minutos, pois o Benfica precisava de encontrar a chave para o golo que virava a eliminatória sem descurar o venenoso contra-ataque italiano, sendo que por esta altura se sentia bem a falta da categoria de Cardozo ou do repentismo de Suazo na frente de ataque. Foram contudo ausências esquecidas pelo empenho de Nuno Gomes e a magia de Di Maria, especialmente quando Katsouranis lançou o “monarca” Reyes para que este, ao dominar muito bem a bola pela esquerda, espera pela saída de Gianello e remata com força e colocação para o fundo das redes. Estava feito o mais difícil com um golaço (mais um!) que reacendeu, 5 dias depois, o Inferno da Luz, mostrando o espanhol uma enorme predisposição para marcar nos jogos a doer.
A partir deste momento, o Benfica soube jogar com o tempo sem cair na tentação de defender em demasia a eliminatória, mas sim esperando pelos italianos sem perder a noção da baliza de Gianello. O Nápoles alterou o seu esquema para um 3×4x3, com a troca do médio criativo Hamsik pelo avançado de 20 anos Russotto, assim como a saída do “artista” Lavezzi que completamente de cabeça perdida se manifestou contra o próprio treinador. Quique Flores, por seu lado, fez entrar Martins e Urreta, e o Benfica sem perder o sentido à baliza de Gianello viu na cabeça de Nuno Gomes o segundo golo num magnífico golpe de cabeça a corresponder a um não menos estupendo cruzamento de Carlos Martins. O Benfica colocava os dois pés definitivamente na fase de grupos da UEFA, infligindo de forma categórica e com dois golos soberbos a primeira derrota da época ao Nápoles, que não deixou de causar grandes calafrios na Luz sobretudo enquanto teve Lavezzi em campo.

O Benfica faz definitivamente as pazes com os seus adeptos, através de uma vitória contundente face ao número de oportunidades que teve, sendo que a base da vitória foi definitivamente a inclusão de Katsouranis ao lado de Yebda. A equipa ganhou uma estrutura mais consistente na hora de atacar mas sobretudo de defender, face a um Nápoles que ficou completamente atarantado sobretudo após o golo de Reyes, a chave para o Benfica continuar a espalhar o seu perfume pela Europa fora.





2 Comentários

  1. Dannymad diz:

    Realmente do que vi do resumo gostei. Será que é desta que o Benfica se encontrou? …

  2. Manuel Bento diz:

    Sem dúvida, acho que foi um grande passo na construção desta jovem equipa:

    Limitado no ataque, utilizou com inteligência as armas de que dispunha. Mérito de Quique Flores e dos jogadores.

    Destaco sobretudo:

    Reyes, por mais 1 golo de luxo e de grande importância, poucos dias depois de nos presentear com outro com o Sporting. Parece ter percebido a importância que esta temporada poderá ter na sua carreira.

    Nuno Gomes, por ter lutado muito na frente. Era a principal esperança, correspondeu por inteiro. Grande golo!

    Katsouranis, a melhor exibição da noite, a mostrar que está com a cabeça novamente no sítio! Que bom é ve-lo no meio campo!!!

    Quique Flores, no «derby» como na UEFA, armou bem a equipa. Perante problemas, mexeu com sentido. Também importante: o discurso sempre igual, quando perde e quando ganha, na sala de imprensa. O espanhol parece perceber agora o terreno que pisa e tenta dar passos seguros, longe do entusiamo fácil dos adeptos.

    Por último, sublinhar o ambiente. Fantástico, próprio das grandes noites europeias na Luz. Foi só a primeira eliminatória da Taça UEFA, convém não o esquecer, mas o Benfica funcionou como equipa e conseguiu a sua exibição mais equilibrada esta temporada. Logo quando precisava mais.

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