Yashin, o «Aranha-Negra»

Foi o único guarda-redes, até hoje, a conquistar o prémio de melhor futebolista europeu do ano, em 1963. A alcunha com que ficou conhecido devia-se ao facto de equipar sempre de preto. E de parecer ter oito braços quando defendia o indefensável.

À descoberta de Yashin
A primeira vez que ouvi falar de Lev Ivanovich Yashin foi em Maio de 1986, num artigo de imprensa sobre o guarda-redes Rinat Dassaev. Nesse artigo, onde se falava sobre alguns dos melhores jogadores que iriam participar no Mundial do México no mesmo ano, Dassaev, capitão e guarda-redes da ex-URSS, era descrito como o “herdeiro de Yashin”. Na altura eu era fanático por guarda-redes, e ainda hoje recordo muito mais facilmente os grandes guarda-redes dessa época do que de qualquer outra: Joel Bats da França, Jean-Marie Pfaff da Bélgica, Peter Shilton de Inglaterra, Pat Jennings da Irlanda do Norte (que disputou esse Mundial já com 41 anos), Toni Schummacher da RFA (que 4 anos antes, depois de quase ter matado o francês Battiston ao chocar violentamente com este durante uma jogada na meia-final em que a RFA eliminou a França, foi eleito a personalidade mais odiada em França, à frente de Hitler), Josef Mlynarczyk da Polónia (e do FC Porto), o nosso Manuel Bento e, claro, Rinat Dassaev, “o herdeiro de Yashin”. A partir dessa referência fui então à procura de dados biográficos e imagens do grande guarda-redes soviético. E, mesmo numa altura em que o passado ainda não estava à mão de semear, como hoje em dia com a internet, não demorei muito a compreender a importância que Yashin tinha tido na História do futebol.

Yashin, o «Aranha Negra»Estilo e estatuto
As primeiras impressões, como todos sabemos, são marcantes. E a primeira impressão que tive ao ver imagens de Yashin foi de admiração. Pela figura imponente que ele tinha e à qual o equipamento todo negro transmitia uma aura ainda mais mítica. Pela forma simultaneamente ágil e autoritária como se movimentava na grande área e que serviu, na altura, de modelo a muitos outros guarda-redes. Yashin foi dos primeiros a socar a bola nos momentos de maior aperto junto da pequena área, a comandar e organizar os seus defesas nos lances de bola parada ou de perigo para a sua baliza, e a iniciar as jogadas de contra-ataque da sua equipa, lançando rapidamente a bola na direcção dos companheiros. Práticas muito comuns hoje em dia, mas que no seu tempo foram consideradas pioneiras. A famosa frieza de Yashin em campo devia-se, segundo o próprio, a um ritual a que ele se submetia antes de jogos importantes: fumava um cigarro para acalmar a tensão e, para soltar os músculos, tomava uma bebida que o próprio apelidava de “um bocado forte” (eu apostaria que era vodka, mas posso estar enganado). Rituais que muitos outros grande jogadores também praticavam, nomeadamente Cruyff (em relação aos cigarros) e Matateu (em relação à bebida, embora este preferisse a cerveja, no intervalo dos encontros). Mas houve também por uma imagem que nunca deixou de me impressionar e que diz respeito até a um golo sofrido por Yashin, durante um jogo contra Portugal no Mundial de 66. Depois de Eusébio lhe marcar de penalti o golo que daria a vitória à nossa selecção no jogo para o 3º e 4º lugar, a reacção do guarda-redes soviético foi… cumprimentar o seu adversário. Não era fácil marcar um penalti a Yashin. Afinal, ele defendeu cerca de 150 ao longo da carreira, muito mais do que qualquer outro guarda-redes em jogos oficiais. Mas o que sobressai nessa manifestação de desportivismo é a forma espontânea com que ele enalteceu o mérito do seu opositor. Estes gestos, em eventos como o Campeonato do Mundo, têm sempre um significado especial. E mais significado tinham numa altura em que a Europa estava dividida pela Cortina de Ferro, e em que Portugal e a URSS não eram propriamente aliados políticos. Mas para mim, este gesto ganhou ainda mais importância depois de ter lido a opinião de Yashin sobre esse histórico momento que foi a presença do primeiro homem no espaço, o astronauta e seu compatriota Yuri Gagarin: “A alegria de ver Yuri Gagarin no espaço só é superada pela alegria de defender um penalti”. A admiração que eu sinto por certos guarda-redes não resulta apenas da eficácia com que eles se lançam às bolas e defendem os remates adversários. Por vezes surge até da forma como reagem nos golos sofridos, porque o mais difícil é encontrar um guarda-redes que até a sofrer golos consiga ter classe. Que até depois de sofrer um golo consiga transmitir confiança à sua equipa e impor respeito aos adversários. Yashin era um desses guarda-redes. Em campo era ele o líder da sua equipa (fosse o Dínamo de Moscovo ou a selecção soviética) e só um guarda-redes que consegue atingir esse estatuto.

Declínio e recuperação
O ponto mais baixo da carreira de Yashin foi durante o Mundial de 1962, quando foi considerado o principal responsável pela má campanha da sua selecção. Tanto a imprensa soviética como a ocidental eram unânimes em considerar que ele estava em declínio e, durante algum tempo, o próprio Yashin parecia acreditar no que sobre ele escreviam, considerando a hipótese de deixar o futebol. No entanto, no ano seguinte faria provavelmente a melhor época da sua carreira, sofrendo apenas 6 golos em 27 jogos e alcançando mais um feito que nenhum outro jogador na sua posição conseguiu repetir até hoje: vencer a Bola de Ouro, prémio para o melhor futebolista europeu do ano. Numa partida disputada contra a Itália, em Roma, na fase de qualificação para o Europeu do ano seguinte, Yashin fez uma das melhores exibições da sua carreira, defendendo até um penalti de Sandro Mazzola. No final do jogo, o próprio Mazzola, um dos melhores jogadores italianos da década de 60 e figura histórica do Inter, diria “o Yashin joga melhor do que eu”. Em 1966, a mesma imprensa que quatro anos antes o havia considerado acabado para o futebol, elegeu-o como o melhor guarda-redes do Campeonato do Mundo.

O guarda-redes do século
Apesar de ter sido um dos melhores guarda-redes da História do futebol (em 1998, numa eleição realizada pela FIFA, foi mesmo eleito o melhor guarda-redes do século XX), Yashin começou a carreira no hóquei em gelo, defendendo a baliza da equipa da fábrica onde trabalhou durante a Segunda Guerra Mundial, no início da adolescência. Para o homem que foi eleito em 1999 como o melhor desportista do século XX pelos jornalistas do seu país, o futebol só surgiu aos 14 anos. E mesmo quando surgiu não foi em regime de exclusividade, pois continuou a ser guarda-redes de hóquei em gelo até meados dos anos 50, um pouco à semelhança do nosso Jesus Correia, um dos cinco violinos do Sporting que, na mesma altura, conciliava o futebol com o hóquei em patins. Mas para Yashin o início da carreira no futebol não foi fácil, uma vez que só três épocas após a estreia é que conseguiu agarrar a titularidade no Dínamo de Moscovo, o único clube que conheceu ao longo da sua carreira profissional (1950-1971) e pelo qual venceu 5 campeonatos soviéticos (1954, 1955, 1957, 1959 e 1963) e 3 Taças (1953, 1967 e 1970). Foi ainda eleito o melhor jogador do campeonato do seu país por 14 vezes. Pela selecção soviética, que representou em 78 jogos entre 1954 e 1970, foi campeão Olímpico em 1956 (quando eram mesmo os melhores jogadores do mundo que iam à competição) e o primeiro Campeonato da Europa de países, em 1960, tendo sido finalista 4 anos depois (derrota contra a Espanha). Disputou os Campeonatos do Mundo de 1958, 1962, 1966 e 1970, embora na última edição tenha sido suplente de Anzor Kavazashvili. Depois da retirada do “Aranha Negra”, a União Soviética só voltaria a participar num Campeonato do Mundo em 1982, talvez porque só nessa altura conseguiu finalmente descobrir o seu “herdeiro”.

O troféu da FIFA que premeia o melhor guarda-redes nos Campeonatos do Mundo de futebol, e que foi entregue pela primeira vez no Mundial de 1994, tem o seu nome. Em 1986, no ano em que eu fiquei a saber quem ele era, foi-lhe amputada uma perna devido a uma lesão no joelho. Morreria quatro anos mais tarde, com 70 anos.





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