Diferença entre Comandante e Técnico
O defeso actual trouxe-nos uma amarga constatação dos últimos anos: como garantir a conduta de um profissional de futebol? Vários casos surgem na “praça pública” sendo o mais agudo o de Vukcevic e até de Stoijkovic em Alvalade. Se numa administração moderna e integrada os técnicos devem participar em todas as decisões e estar directamente envolvidos com a direcção do clube, será que não podem ser os “comandantes” e as “estrelas” ao mesmo tempo? Ou será que sendo funcionários não estarão a extrapolar as suas funções?
Parece-me que a maioria dos adeptos só querem gritar golo e já têm assuntos sérios demais nas próprias vidas para encarar o Futebol de uma forma mais profunda e extravasada, tendo que conviver com dúvidas que vão muito além de saber se um jogador estava em fora de jogo ou se foi penalty ou não. Admito que por um bom tempo também fui assim e quando passei a conviver um pouco mais com as questões ligadas a factores “extra campo”, confesso que perdi muito do encanto, porém, como tudo na vida, chegou um momento onde senti que não poderia mais permanecer alheio, e espero isto de cada adepto que deseje ter uma participação mais consciente.
No que toca a esta reflexão, identifico-me como um daqueles que acredita que um técnico não ganha um jogo, mas é peça crucial quando decide “intrometer-se” e inventar problemas pelos mais diversos motivos, e assim conseguir perder um jogador como está a acontecer no Sporting com Paulo Bento, Stoijkovic e Vukcevic. Considero que por muito mau génio que ambos os jogadores tragam ao grupo de trabalho, cabe a Paulo Bento ter a maturidade para assumir as suas decisões pois foi ele e só ele que deu o “sim” para a contratação do sérvio e do montenegrino. Fazer birras e mandar recados pelo media mostra, na minha opinião, como Bento ainda não atingiu o patamar de “Comandante” dos leões, pois se errar é humano, perdoar é divino e só aí se vê um bom professor e sobretudo um bom “mentor” para um jogador. Há que ter paciência e saber dialogar com os jogadores, não esquecer que se tratam de jogadores estrangeiros e como tal merecem um tudo ou nada de extra atenção no que toca a adaptação a novos ambientes e realidade. É precisamente neste factor que penso por exemplo, que Jesualdo Ferreira é já um comandante perante o seu plantel, tal é a forma como lidou com as birras de Quaresma, não “queimando” o jogador perante os seus adeptos. Já no Benfica, Quique Flores teve o primeiro grande “teste” à sua liderança com Cardozo, um dos jogadores mais queridos dos adeptos e soube com a restante equipa técnica ultrapassar o problema e “reajustar” o jogador a uma nova realidade.
Este é certamente um dos vários factores que fazem uma equipa vencedora ou perdedora. Um conjunto de factores como a administração, plantel, os treinos e o ambiente durante a semana, dedicação, garra, a qualidade técnica dos jogadores, participação dos adeptos, actuação do árbitro, manipulação da “imprensa”, “interesses externos”, sorte e uma infinidade de outros detalhes que rodeiam o futebol. Estar a criar mais factores – leia-se problemas – para além dos já referidos, é uma das grandes diferenças entre um líder (comandante) que se limita a simplificar os processos e um técnico que não consegue nem sabe ultrapassar os problemas depois de os ter previsivelmente resolvido.
Assim, o tão falado “dedo do técnico” durante o jogo, para mim, é só mais um dos inúmeros factores que decidem uma partida de futebol, apesar desta opinião contrariar alguns “interesses” que circulam pelo futebol actual. Não se espera que o adepto ou mesmo o cidadão se envolva na política do clube ou do país, mas é obrigação de quem quer algo melhor tentar saber e sobretudo perceber o que acontece. A questão é que quando as pessoas não se movimentam para combater o que está errado, mais cedo ou mais tarde, o problema torna-se insuportável e por vezes intransponível… é exactamente isto que se está a passar sobretudo com Stoijkovic que se vê parado em Alvalade e cujo valor é reconhecido por todos, sobretudo pelos adeptos leoninos. Esta situação actual do Sporting não é trágica, sobretudo porque o clube se encontra na senda das vitórias e assim não há quem queira “boleia” de resultados ou momentos adversos. Pergunto-me se alguém imagina Alex Ferguson ou Arséne Wenger ou Benitez ou mesmo José Mourinho com este tipo de problemas? Claro que não, pois tratam-se de “super” treinadores com mil e uma estrelas em cada mão para gerir e que sabem bem o que é ser um Comandante e não um simples Técnico.
O comando deve ser exercido por quem de direito verdadeiramente, de forma justa e forte, e as directrizes devem ser definidas e executadas de forma clara, sem interesses estranhos, senão, só restará o caos.



