Futebol + EUA = Incompatibilidade Total

Existe uma pergunta que qualquer mãe faz aos seus filhos num determinado ponto das suas vidas: “Se todos os teus amigos saltassem de uma ponte, tu também o farias?” A resposta é “não” claro, mas a questão serve essencialmente para ilustrar o nosso potencial como seres humanos para projectar o comportamento popular. Assim sendo, perante um cidadão dos Estados Unidos a questão “Se todo o Mundo visse um determinado desporto, também o faria?” A pergunta, se o desporto fosse Futebol, seria certamente “não”.
Popular ou não, os Americanos simplesmente não entendem o futebol.

11 de Janeiro de 2007 – David Beckham anuncia que irá para os Estados Unidos para jogar no LA Galaxy. Como vinha a ser costume, mais que muitos jogadores e estrelas contratadas em final de carreira, esta foi uma data histórica para a Metro League Soccer que via a chegada da superstar Inglesa não só como um injecção de moral para todos os jogadores mas também como a explosão do desporto em todo o país. Quando questionado, Beckham afirmou ” Não sou tão ignorante ao ponto de pensar que eu sozinho vou mudar toda uma cultura, mas tenho a crença que o futebol pode chegar a um nível mais alto e adoraria fazer parte disso. Muitos pensam que eu irei sozinho dar uma vitória de 10×0 em muitos jogos ou que irei driblar 10 jogadores e marcar 3 ou 4 golos”. Esta seria um das muitas afirmações que o “menino bonito” Inglês expressou durante os primeiros tempos e sobretudo perante o contraste de realidades entre o futebol na Europa e o soccer dos EUA. Mas então, quais as razões para tamanha apatia dos americanos perante o desporto líder de audiências e mais apaixonante de todo o Mundo?

Resultado curto
Uma das maiores “queixas” dos Americanos sobre o futebol profissional, é a sua reduzida oscilação de resultados. É perfeitamente comum que um jogo termine ao final do tempo regulamentar com o resultado de 1×0. Para a mentalidade Americana, alimentada pelo basquetebol, futebol americano e até hóquei de gelo, um resultado de 1×0 significa que nada aconteceu durante mais de uma hora. A razão para um resultado curto é um jogo lento, outro ponto negativo para a intelectualidade norte-americana. Passar a bola para a frente e para trás, do lateral para o defesa, parece menos estratégico e mais como um deja vu. O próprio estilo de resultado possível no futebol, “ofende” o sentido nacional de capitalismo e conquista, terminando num empate. Os desportos americanos são capazes de demorar largos minutos de forma a assegurar o desempate e assim no final do jogo, alguém sairá vitorioso. Terminar com um empate é totalmente não-Americano.

Nomes desconhecidos
A cultura Americana é por si só, no que toca ao desporto, cheia de vícios e vaidades, que resultam numa inércia enorme no que toca ao desconhecido. Enquanto o futebol usufrui da maior audiência por todo o Mundo, as estrelas e os jogadores deste jogo fantástico são quase totalmente desconhecidos nos Estados Unidos. Parte da razão pela qual os Americanos tem grandes dificuldades em entender é o espectro internacional do jogo. Jogadores vindos de tantas nacionalidades diversas são difíceis de ser referidos enquanto se “morde” um donut durante a pausa para café. Enquanto poucos jogadores estrangeiros são geralmente a excepção e não a regra, encontramos os media a criar alcunhas para ajudar o  pais a lidar com o desafio dos nomes distintos. Uma clara demonstração da leviandade e preguiça e de uma tendência nacional direccionada para a isolação ao invés de promover a integração com um movimento global de futebol.

Sem história
Todos estes três desportos jogam com a força dos EUA como uma sociedade individualista e capitalista. Entrar para a bancada de qualquer desporto profissional, requer um enorme desejo para aprender e decorar jogadores, regras e standards. Apesar de existirem alguns fãs e muitos terem praticado futebol no liceu, nos Estados Unidos como um país não existe qualquer história real do futebol ou dos seus conceitos. Enquanto muitos discutem sobre o facto do ser humano chutar uma bola desde praticamente o início da Humanidade, o progresso do futebol como o conhecemos – um jogo organizado – não foi “absorvido” pela cultura e sobretudo consciência dos americanos que assim cresceram com o baseball, passando todos os fins de semana a ver futebol americano – aquele jogado com uma bola oval castanha – e desenvolveram um interesse burguês no basquetebol. Para o futebol se tornar parte da cultura Americana, isso iria requerer demasiado esforço para pouco ganho e nem com um Mundial de 94 estrondoso que bateu todos os recordes de audiência até hoje com 3.587.538 espectadores (68.991 por partida) e 141 golos (média de 2.7 por partida!), os Americanos se deixaram contagiar pelo “desporto do planeta”.

Assim sendo, as boas notícias para o futebol profissional é que este não precisa da América. É estatisticamente um desporto sem rivais e precedentes no que toca a dominar todo o Mundo. Futebol é, segundo os números, o que maior audiência tem, algo que é o dobro em relação aos Jogos Olímpicos e assim continuará a cavalgar sem a ajuda do gigante país a oeste.





8 Comentários

  1. Dannymad diz:

    Julgo que o facto do futebol trazer menos emoção do que o Basquete, futebol americano e Baseball não faz muito sentido. O grande factor para mim que faz com que os americanos não gostem de futebol é o facto de o associarem ao comunismo. Alias devido a isso o futebol só começou a ser notado nos EUA nos finais da decada de 70, com a MLS e a vinda de estrelas em fim de carreira, como Pele,Eusebio,George Best, Beckenbauer, Gigi Chinaglia entre outros. Infelizmente, por variados motivos a MLS como dinamizadora do futebol americano, acabou. Isso deveu-se essencialmente devido à má organização da competição, que se baseava num sistema de transferencias parecido à do basquete, com drafts. Só que esses drafts no fim deixaram de o ser, fazendo com que a equipa A tivesse as maiores estrelas, e as restantes não pudessem competir com ela, resultando em que durante uns 4 ou 5 anos o campeão fosse sempre o mesmo, resultando em monotonia para o publico americano e consequente extinção duma primeira fase de MLS.
    Apesar de tudo, há algo que gosto no futebol praticado nos EUA, que é o facto de não haver empates. Um jogo lá, tem que ter sempre um vencedor e um vencido. Se no término duma partida existir um resultado empatado, recorre-se à marcação de penaltis de meio campo para discernir o vencedor da partida. Se se adoptasse esse sistema no futebol mundial ficaria deveras contente, pois provavelmente o nivel de emoção do futebol aumentaria, pois exigiria mais vontade dos jogadores para alcançarem a vitoria, em comparação com a situação actual em que equipas mais pequenas muitas vezes jogam para o empate.

  2. Pedro Lucas diz:

    Artigo a roçar o perfeito. So se esqueceu de referir o quão arrepiante é ver um jogo da MLS ouvindo os comentadores americanos. É como pôr um técnico de informática a fazer vinho. Decididamente os americanos não nasceram para o futebol e deviam ser proibidos de o jogar enquanto lhe chamarem soccer…

  3. Paulo diz:

    Penso que a história da falta de empates nos desportos americanos tem a ver com uma cultura de extremos, em que não se consegue reconhecer que há nuances intermédias. É claro que ninguém gosta de ver equipas “estacionadas” na defesa, à procura do pontinho, e nisso, a filosofia de espectáculo dos desportos americanos faz sentido e até podia ser adoptada pelo futebol.

    Mas, para além dessa vertente de espectáculo (e, consequentemente, de negócio, pois se houver mais espectáculo, mais espalhafato, mais, mais e mais, haverá mais lucros – pelo menos é essa a mentalidade americana, no que toca ao desporto / showbiz), há a vertente cultural. Conheço poucos americanos pessoalmente e, como tal, isto pode não ser verdadeiro, mas penso que há na América uma visão limitada que dita que tu ou és “bom” ou “mau”, ou és “branco” ou és “preto”, ou és “macho” ou és, certamente, “gay”, ou és “nosso” ou “contra nós”, ou és “democrata” ou “comunista / terrorista” e eles não entendem que nem tudo é assim (daí vários problemas diplomáticos com eles envolvidos, também…).

    O futebol ainda é um desporto de minorias e ainda não faz parte da mainstream cultural americana (um pai não leva um filho a ver futebol ao Domingo, leva-o ao futebol americano, ao basebol ou ao basquete). Mas eu também compreendo. É uma questão cultural, também ligada à ignorância. Eu também acho o cricket um desporto altamente estúpido e sem sentido, por exemplo… E mesmo o basebol que, embora adorado pelos americanos, para mim é, esse sim, chato, parado, aborrecido (embora saiba que tem muito a ver com o “ser americano”, com a história da evolução da América, com a cultura da American way of life). Mas talvez seja porque não entendo cricket nem basebol, do mesmo modo que muitos americanos não entendem futebol.

    E Dannymad, porque é que dizes que pensam que o futebol está ligado ao comunismo? Bem sei que o termo “comunista” é um grande insulto para um americano, e o comunismo (basicamente tudo o que seja um pouco mais à esquerda que os Republicanos extremistas e conservadores… – ui,tão comunistas que são os países escandinavos!) é um “papão”, mas essa ligação ao futebol nunca tinha ouvido.

    Cumprimentos a todos e parabéns pelo artigo, Gustavo. Está bem pensado e introduz um óptimo tema para debate.

  4. Dannymad diz:

    Bem quanto a essa ideia de achar que os americanos ligam o futebol ao comunismo, julgo que veio dum documentario que vi ha uns tempos. Desculpem não me lembrar do nome do mesmo mas era sobre a historia do MLS e como começou. Nesse documentario relata que os americanos, quando houve aquela confusão na Baía dos Porcos repararam na existência dum campo de futebol numa das bases cubanas, e como sabiam que os cubanos na altura não era uma nação que praticava futebol como passatempo comum, acharam curioso a existencia da dita instalação por la. Após investigado o caso descobriram o porque do campo…servia as horas de lazer dos soldados russos que jogavam futebol e que estavam a auxiliar Fidel Castro. Se investigarmos ainda mais a fundo, reparamos que os americanos participaram nos primeiros mundiais de futebol e salvo o erro nos jogos olimpicos em futebol tambem, mas após a Segunda Guerra a sua presença nas mesmas só começou após a decada de 80. E mesmo nesse documentario julgo que ha um individuo que afirma que os americanos afastaram-se do futebol por o identificarem com um jogo praticado por comunistas, logo contra interesses americanos.
    Quanto ao comportamento tipico americano, sim é de extremos, ou és ganhador ou perdedor, mas julgo que se esse comportamento for moderado e não levado ao extremo como os americanos o fazem, poderá trazer beneficios e competitividade ao desporto. Daí defender esse “sistema americano”. Alias julgo que falta um bocado esse sistema meritocrático na sociedade portuguesa, onde quem trabalha e se esforça sai recompensado, pois muitas das vezes as nossas leis sufocam quem o tenta fazer, e mesmo a sociedade recrimina quem não tem sucesso, levando ao desanimo à primeira falha, quando dadas outras oportunidades poderia ter bons resultados. Sugiro o documentario “Bigger, Stronger, Faster” que demonstra bem como é o ser-se americano, e o que as pessoas são capazes de fazer para tentar atingir o exito à americana.

  5. Alvaro diz:

    Ola a todos,
    Vivo nos Estados Unidos em Boston e sou filho de Portugueses. Acho um pouco exagerado fazer ligacoes ao comunismo, embora reconheca que existem varias questoes culturais que possam influenciar a opiniao dos Americanos sobre o futebol. Uma coisa que posso dizer e o seguinte: A grande maioria dos Americanos que gostam e vivem o futebol sao filhos de imigrantes de “paises do futebol” ou entao mesmo nascidos em outros paises. Os Americanos “puros” que gostam de futebol geralmente (mas nem todos) sao de niveis socias mais altos, e com maior senso de cultura. Como profesor de educacao fisica e treinador de futebol sou a pessoa indicada pra analisar isto. Nao podem esquecer que os EUA e um pais com uma diversidade enorme em todos os aspectos. Embora entenda o vosso “stereotype”, nem todos os Americanos sao ignorantes a nivel cultural. Uma coisa e certa, o futebol neste pais esta desenvolvendo muito. Com a populacao e recursos que temos nao precisamos que seja o numero um do pais. A assistencia nos nossos estadios (EUA)e maior que Portugal(claro questoes economicas sao um grande factor). Nao estou sendo critico, e so um facto. Nao estou comparando a paixo pelo futbol ou tradicao de um pais pro outro. Nao se podem comparar EUA com Portugal nesse aspecto. O futebol Portugues e a nossa selecao(Portuguesa)e importante pra mim e queria muito ver conquistar um torneio importante. Mas ha que ter consciencia de que a qualidade do futebol nos EUA esta melhorando muito e em cada geracao de jogadores nota se mais qualidade. A televisao, computadores, formacao de treinadores, e uma liga profisional estavel com academias nos clubes sao algums factores que estao contribuindo. Faca uma pesquisa de os resultados das seleccoes dos EUA de formacao e voce vera que jogam com qualquer uma. Em fim a muito trabalho pra fazer ainda, mas ja ha bastantas pessoas a trabalhar muito e bem. Desculpe a gramatica Portuguesa (nunca estudei Portugues). Fique bem e Forca Portugal!

  6. Dannymad diz:

    Viva Álvaro! A referencia que fiz do futebol ser um pouco mal aceite pelos americanos, devido a uma ligação ao comunismo foi devido a um documentario que vi sobre a formação da MLS nos anos setenta. Lá dava uma breve explicação porque o desporto não tinha evoluido nos EUA da mesma forma como o resto do mundo, e a principal razão dada foi devido a ter ligações ao comunismo e por não ser um desporto puramente americano, como o futebol americano, baseball, etc. Mas julgo que expliquei esse facto nos comentarios anteriores.
    Realmente não podemos comparar a assistencia de jogos entre EUA e Portugal, pois nos EUA há maior de compra do que em Portugal, permitindo haver maiores assistencias do que aqui. Para além disso, julgo que a paixão dos portugueses pelo futebol não é tão exacerbado ao ponto de um portugues fazer grandes sacrificios para ver todos os jogos do seu clube como há em Inglaterra, Brasil e Espanha, etc. E isto vai-se verificando cada vez mais, especialmente após o surgimento da televisão por cabo que transmite praticamente a totalidade dos jogos da Liga Sagres todas as jornadas, permitindo ao adepto poupar dinheiro, evitar confusões no estádio e não deixar de apoiar o seu clube, apesar de ser numa forma indirecta.
    Quanto à qualidade do futebol nos EUA, julgo que está aumentando e muito bem. Podemos ver isso claramente com o 4º lugar alcançado no mundial de 2002 e com a melhoria da liga profissional norte americana. Prevejo um futuro auspicioso para o futebol norte americano, com a melhoria da liga norte americana (MLS) que parece estar a apostar numa fusão de formação de qualidade com experiência de jogadores veteranos da Europa, ao estilo da MLS dos anos 70, inicios de 80. A isso juntamos a profissionalização da Liga de Futebol canadiana e o crescimento do futebol mexicano, que auguro uma boa classificação no proximo mundial, devido à maturidade de jogadores como Giovani dos Santos, Cesar Villaluz, Carlos Vela, Andres Guardado, etc. Num periodo de 10-15 anos, talvez a MLS tenha o mesmo estatuto que a Liga Inglesa ou Espanhola se houver patrocinios e planeamento nesse sentido e vontade disso por parte da FIFA.

    Quanto à tua gramatica tá bom, para quem nunca estudou portugues. Parabens ! Keep it up! Eu nasci e fui criado até aos 8 no Canadá por isso posso garantir que o teu português tá acima do razoavel.Boa sorte ai nos States com a formação de futebolistas americanos.

  7. Paulo diz:

    Álvaro, não penso que tenhamos estado a rotular os americanos como ignorantes. Eu, pelo menos, fiz a ligação do que penso que os americanos possam sentir em relação ao futebol com o que eu sinto em relação ao cricket, o que está também muito ligado à minha ignorância em relação a esse desporto.

    E em relação a questões mais culturais / políticas peço desculpa pela generalização exagerada. Sei que é um exagero, mas penso que também há um pouco dessa cultura de extremos.

    Em relação ao futebol, penso que referiste duas coisas muito importantes: primeiro, que a média de assistências da MSL é mais alta que a nossa (pelo menos excluindo os 3 grandes). Nunca tinha pensado nisso, de facto, e isso revela, que algumas das nossas “certezas” são relativas e questionáveis. Não estava à espera dessa estatística surpreendente. Outro facto é o de os EUA terem uma boa estrutura de formação. Excluindo o futebol feminino, no qual os EUA são uma super-potência, também valorizo os feitos do futebol de formação americano. Tenho acompanhado algumas das selecções jovens e vejo que há qualidade (Altidore, Onyewu, Kljestan, Ricardo Clark, Maurice Edu…). Quando investem a sério, investem a sério, não há dúvida.

    Cumprimentos

  8. Alvaro diz:

    Paulo e Danny,
    Quero pedir desculpa porque talvez minhas palavras nao foram claras. Minha gramatica algo limitada e a natureza de “conversas virtuais” pode resultar em mas interpretacoes. O comentario sobre a ignorancia era mais um comentario geral do que uma resposta aos seus comentarios. De qualquer forma ha muito que justifica criticas (e elogios tambem) em relacao a cultura e politica Americana e sou primeiro a admiti-lo. Sou muito fa the cultura futbolistica portuguesa. Recentemente tenho lido muito sobre a metodologia da Periodizacao Tactica que originou em Portugal (e Jose Mourinho deu-lhe mais credibilidade). Quem sabe um dia, uma final entre EUA e Portugal. Eu estaria um pouco dividido mas meu coracao de certeza estaria todo com Portugal. E sempre um prazer falar de futebol com pessoas inteligentes. Fiquem bem.
    Alvaro

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