“Engodo” chamado Copa Sul-Americana
Quarta-feira, dia 17 de Setembro de 2008, Estádio Palestra Itália, São Paulo/SP, Brasil. 23 h e 58 minutos. Precisando reverter uma desvantagem significativa após a derrota de 3 a 1 para o Vasco em São Januário, o Palmeiras confirmava no apito final do árbitro Carlos Eugenio Simon o triunfo por 3 a 0 e a consequente classificação para a segunda fase da Copa Sul-Americana.
Pela paixão do brasileiro por futebol e a grandeza dos dois clubes, que juntos já venceram oito edições do campeonato nacional, duas Libertadores da América, o título sul-americano de 1948 do Vasco que reconhecido em 1996 e decidiram a Mercosul de 2000, seria possível imaginar a enorme festa dentro e fora do gramado com a grande virada palmeirense no tradicional confronto em uma competição continental. Mas o que se viu foi uma comemoração tímida de um time repleto de reservas em um estádio vazio, com o treinador vencedor, o multicampeão Vanderlei Luxemburgo – que comandou o Real Madrid e é o técnico com mais títulos brasileiros da História, mas não possui uma conquista internacional em clubes – mostrando no rosto um misto de alegria pela boa atuação de sua equipe improvisada, mas também a preocupação com o futuro do time, que é o vice-líder do Campeonato Brasileiro. Na entrevista coletiva pós-jogo, Vanderlei admitiu a hipótese de levar apenas 13 jogadores ao Peru para o primeiro jogo da próxima etapa, contra o Sport Ancash.
O leitor deve estar se perguntando sobre o porquê da indiferença da equipe paulista em relação ao torneio sul-americano. Apesar de parecer estranho, não é tão difícil de explicar. A Sul-Americana foi criada em 2002 para substituir as Copas Mercosul e Merconorte, que por sua vez substituíram no ano de 1999 a Supercopa, que já havia se chamado Conmebol. Apesar dos diferentes regulamentos e requisitos para a participação no campeonato, a intenção sempre foi movimentar o futebol na América no segundo semestre com uma espécie de Copa da UEFA latina. No entanto, o título credencia a equipe apenas a disputar a Recopa Sul-Americana do ano seguinte com o campeão da Libertadores. O outro atrativo é a premiação em dinheiro, sempre bem-vinda para qualquer clube.
O Brasil não enviou participantes no primeiro ano alegando conflitos no calendário. Em 2003, além do início da trajetória brasileira no torneio, o campeonato nacional passou a ser disputado por pontos corridos e aumentou a sua duração. Com isso, os clubes envolvidos nas duas competições (hoje o campeão e mais os que ficaram de quinto a oitavo no Brasileirão do ano anterior), normalmente sem dinheiro para investir em elencos grandes e qualificados, e combalidos pela debandada na janela de transferências na Europa, passaram a viver um dilema: dedicar toda a atenção ao Brasileirão e lutar pelo objetivo possível de acordo com a posição na classificação ou priorizar o torneio continental, que de uma maneira ou de outra agrega prestígio ao nome da agremiação e garante uma receita extra?
Por conta desse impasse, que naturalmente pende para a disputa interna pela importância do que está em jogo, o país que colocou equipes nas últimas quatro finais da Libertadores só conseguiu chegar às semifinais em 2003 com o São Paulo, no ano seguinte com o Internacional e em 2006 com o Atlético-PR. Os argentinos possuem a hegemonia com quatro conquistas, inclusive na última edição, vencida pelo então desconhecido Arsenal de Sarandí. Em 2008, além do Palmeiras, estão classificados Atlético-PR, Botafogo e Internacional, que superou o tradicional adversário regional Grêmio, líder do Campeonato Brasileiro e que deu de ombros para a competição e a própria rivalidade escalando um time reserva, em uma demonstração clara do que é considerado mais relevante na temporada.
Enquanto a Conmebol estuda a possibilidade de colocar os dois finalistas da Sul-Americana na Libertadores do ano seguinte a partir de 2009, a torcida dos brasileiros é que as equipes que continuam disputando em duas frentes, se definirem mais cedo suas aspirações na competição prioritária no país, possam ter uma campanha digna e, quem sabe, uma delas até conseguir o título, embora nenhuma pareça lá muito preocupada, pelo menos por enquanto, com essa ausência na sala de troféus.



