Análise: FC Porto 3×1 Fenerbahçe
Marcar cedo para.. cedo sofrer. Este poderia muito bem ser o título para a análise a uma partida que de bom teve apenas o resultado, uma vitória aliás que permitiu ao FC Porto entrar a ganhar na Liga dos Campeões pela primeira vez em 5 temporadas.
Julgo que todos os portistas terão ficado apreensivos com o desenrolar da partida de ontem, uma partida que os primeiros 13 minutos pareciam antever uma goleada. Mas comecemos pelo princípio: para a importantíssima recepção aos turcos, Jesualdo optava por manter a base da equipa que havia defrontado o rival Benfica, a contar para a Liga Sagres. Desta forma, Rolando era o titular no centro da defesa junto a Bruno Alves, e Fernando era o elemento mais defensivo do meio-campo, permitindo a Raul Meireles adiantar-se no terreno e apoiar o ataque como tão bem sabe. Do lado esquerdo da defesa, a entrada de Benitez justificava-se previsivelmente pelo castigo de Fucile para jogos europeus, ao passo que Mariano entrava para as faixas ofensivas, já recuperado de uma lesão que o apoquentou por cerca de um mês. Eram estes os predicados portistas para a jornada inaugural da liga milionária, uma equipa que naturalmente contava com Lucho como o “pensador”, Lisandro como o homem-golo e Rodriguez o mago criativo. E aliás, foi disto que vimos na primeira metade da primeira parte, uma turma que entrou para esmagar e para resolver cedo.
A pressão ofensiva era de tal ordem que os turcos não tinham definitivamente capacidade para a suportar, de modo que não foram precisos mais do que 2, 3 lances ofensivos para que o golo de Lisandro abrisse o marcador. Foi extraordinária a rotação de Meireles que, na quina da área, cruza para Lisandro que ao se libertar dos defensores encosta para o golo. Era possível ver nos jogadores portistas a crença de que era possível resolver cedo uma partida complicada, e este golo servia para animar as hostes, de tal maneira que o ritmo não abrandou, pelo contrário! Dois minutos depois, e sensivelmente do mesmo local, Cristian Rodriguez ganha o lance ao defensor euroasiático e coloca a bola com peso, conta e medida para o pontapé certeiro de Lucho, um disparo em jeito de volley. 2×0 para os portistas, e posso confidenciar que neste momento senti um misto de alegria e ansiedade: não era a primeira vez que víamos desaires europeus iniciar-se desta forma. Infelizmente, as minhas previsões não estavam muito longe da realidade, e rapidamente a descompressão se apoderou dos atletas azuis, que confiavam ao sector defensivo a responsabilidade para segurar os 2 golos de vantagem. Aos 26′, um Lisandro fisicamente mais solto teria certamente “arrumado” com a partida, isolado frente a frente com Demirel, mas pouco depois surgia um momento crucial na partida: para Boral, foi tremendamente fácil ultrapassar um ineficiente Sapunaru, que com um cruzamento bem medido permitiu a Alex reduzir para 2×1.
Nas bancadas, cerca de 38 mil espectadores roíam as unhas com o imprevisível baixar de ritmo dos 11 azuis-e-brancos. O intervalo chegava, e parecia evidente que os turcos eram uma presa fácil para os portistas. Contudo, e à boa imagem lusitana, parece sina entregar o ouro ao bandido e o golo de Alex surgia como um enorme atentado a uma vitória que parecia mais do que certa. E os primeiros minutos do segundo tempo – talvez estrategicamente – eram entregues aos portistas, que por pouco não conseguiam alargar a vantagem por Mariano. Contudo, e aos poucos, a história repetia-se. Os turcos com enorme poderio pelas alas ganhavam invariavelmente os lances no 1 contra 1, beneficiando também da inoperância defensiva de alguns elementos portugueses. A certo ponto, era gritante a forma como o Porto era incapaz de virar a partida para o seu lado, passando rápido e mal, agindo de forma imatura e precipitada. Fernando, uma tentativa de Jesualdo em recriar aquilo que era a função de Paulo Assunção na época transacta, foi um elemento confuso, medroso, incapaz de “limpar a casa” como a posição assim o exige. Também Benitez e Sapunaru, nas alas, não pareciam conseguir lidar com a pressão e por diversas vezes utilizaram a falta como arma mais fácil. É justo dizer que o 2×2 esteve bem perto de acontecer por esta altura, onde 2 ou 3 lances de enorme perigo (quase todos eles protagonizados pelo veteraníssimo Roberto Carlos) não foram concretizados por mero azar, ou pelo esforço de alguns elementos portistas – Rolando esteve insuperável neste particular.
A entrada de Hulk aos 60 minutos (para lugar de Mariano) parecia querer sacudir um pouco a pressão, e de facto aquilo que o Brasileiro fez foi bem feito, segurando a bola, retirando aos turcos a possibilidade para lançar mais algumas transições venenosas. O atacante foi vital nesta fase final da partida, ganhando cantos, faltas, quando o meio-campo (já com Tomás Costa) era literalmente incapaz de segurar a vitória. Quando o jogo se encaminhava para o final, Sapunaru fez no ataque aquilo que foi incapaz de fazer defensivamente durante toda a partida: um rasgo pleno de entrega física, e um passe esplêndido para o recém-entrado Lino fechar as contas da partida, com um remate certo e colocado. O jogo terminava assim, com um golo e com 3 pontos amealhados (fazendo do Porto líder do grupo G), mas com a sensação de que o amargo de boca poderia ter sido uma realidade. Que faltará a este Porto?



