Análise: Liga Sagres 08/09 > J4 > Porto 2×0 Paços Ferreira

Um jogo a fazer lembrar outros tempos. Tempos em que o futebol era menos competitivo e ao mesmo tempo quase sempre bom de ver; em que as equipas eram pouco consistentes e os erros mais evidentes, mas tudo isso era aceite com maior naturalidade. Pois terá sido essa mesmo a sensação com que o comum adepto terá saído do Estádio do Dragão, essencialmente satisfeito pela bela partida de futebol onde invariavelmente houve destaques e houve belas jogadas para assistir.

Naturalmente, e na véspera de uma partida complicadíssima no Norte de Londres, este Porto entrava certamente a pensar no Arsenal e tentava equilibrar as emoções para manter os seus níveis competitivos, ao mesmo tempo que geria o esforço da melhor forma possível. Nem sempre as coisas saem bem quando o pensamento é esse, e naturalmente a partida desfez-se em duas facetas bem distintas: os mais esforçados, e os displicentes. No leque dos maiores destaques, Raúl Meireles foi o primeiro a merecer o título já que desde bem cedo foi possível apreciar a clareza que aplicou a cada lance, quer fosse um mero passe curto, um corte ou um lançamento longo como bem o médio os sabe efectuar. E foram precisos apenas 14 minutos para que o centro-campista começasse a marcar os tempos do jogo, com um pontapé soberbo ao ângulo, a passe de Lisandro Lopez. O Porto jogava bem em transição ofensiva, e com a pressão alta que por natureza o ataque portista sabe tão bem fazer, assim era criado o primeiro golo, depois de uma recuperação e um passe atrasado correspondido na perfeição.

Tacticamente, e na ausência do capitão Lucho Gonzalez, o Porto via Tomás Costa entrar para o miolo do terreno, e se cerebralmente se pôde notar (naturalmente) a ausência de “El Comandante”, o que é facto é que o meio campo portista foi o que na minha opinião de melhor (e mais consistente) se viu durante toda a partida. Fernando está de pedra e cal na equipa, e é em partidas como a de hoje que a confiança se ganha. Não perdeu um lance, recuperou inúmeras bolas de forma superior, e ainda foi capaz de sair a jogar com velocidade em zonas mais avançadas do terreno. Perfeito. Já Tomás Costa, e apesar de excessivamente encostado à direita por Jesualdo (para que serve Sapunaru afinal?) conseguiu demonstrar aquilo que o trouxe ao dragão: velocidade, profundidade, e um sentido de equipa muito argentino, onde não existe o conceito de virar a cara à luta. Tecnicamente está bem acima da média, e ofensivamente é um elemento a ter em conta, pois além de rematar com potência sabe também construir com perigo.
No ataque, a saída de Mariano levou à entrada de Farias para o ataque, e o argentino foi uma sombra daquilo que já demonstrou em tempos. Foi mesmo o pior do ataque portista - usando quase sempre a queda para “desculpar” as constantes perdas de bola -, que durante toda a partida se mostrou órfão de um elemento com presença no centro da área, já que os vários cruzamentos venenosos de Lino, Rodriguez, Sapunaru, entre outros, foram presa fácil para os defensores de amarelo.

E no final de um primeiro tempo em que o controlo foi absoluto (houve apenas um lance de perigo protagonizado pelos “castores” já em cima do minuto 45) o Porto poderia apenas queixar-se de alguma displicência na hora de concretizar, pois como se sabe a margem mínima transforma-se facilmente num amargo de boca. O Paços entrava para o segundo tempo com fome de bola, e rapidamente foi possível compreender que não só se encontrava mais estendido no relvado, como também a agressividade aplicada nos lances subia de tom. Nesse particular, o juiz da partida Hugo Miguel haveria de pecar pela forma pacífica como deixou passar em claro vários lances de dureza excessiva dos visitantes. Rodriguez foi um quebra cabeças neste segundo tempo, e viu por diversas vezes faltarem as opções no que diz respeito ao último passe. O extremo está cada vez mais próximo daquilo que produziu na época transacta, concedendo criatividade e emoção ao flanco esquerdo, mas o seu soberbo pé esquerdo é a meu ver mal aproveitado perante a falta de uma opção mais clássica no centro do ataque. A rever.
A meio do segundo tempo, os pacenses tentaram um pressing que na generalidade acabou por ser bem resolvido pelo sector mais defensivo azul-e-branco, e aquele que considero o segundo destaque da partida estava para chegar: o banco de suplentes. Aos 57′ entrava a jovem revelação Candeias para o lugar de Farias, ao passo que Hulk entrava aos 70′ substituindo um queixoso Lisandro. O primeiro, um rápido extremo natural de Fornos de Algodres, tem impressionado pela maturidade do seu futebol, e hoje provou novamente como a idade actualmente só serve de desculpa. Rápido, astuto, tomou decisões acertadas e esteve em jogo por diversos momentos. Já Hulk foi mesmo decisivo, fechando as contas ao 73′ numa jogada que ele próprio iniciou, com um passe soberbo a rasgar a defensiva contrária. O brasileiro é definitivamente uma contratação de enorme qualidade, e sua integração gradual (bem ao estilo portista) tem sido a forma mais correcta de lançar o jovem avançado. É impressionante a velocidade e condição técnica do sul americano, não obstante a seu tremendo vigor físico. Entrou, mexeu com a equipa, e decidiu no momento certo.

Parece evidente que o jogo da próxima terça-feira está no pensamento de todos os portistas (atletas e equipa técnica incluída), mas na véspera de um derby lisboeta era de tremenda importância amealhar os 3 pontos da 4ª jornada. Assim o conseguiu, um Porto que revelou personalidade, mas uma equipa que terá que aumentar os níveis competitivos para fazer frente a uma das turmas mais valiosas da Europa actual, onde brilham Adebayor, Van Persie, Nasri, Walcott, entre tantos outros! Arriscamos um resultado?

1 Comentário. »

  1. De facto nesse jogo há mtos aspectos positivos. Hulk, Tomás Costa, Candeias, a boa forma de Meireles. O problema é que não temos equipa para a Europa.

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