Ascensão e Queda de uma Selecção Mágica
Na história dos campeonatos do mundo de futebol, nunca houve uma selecção tão dominadora como a Hungria de 1954. Uma selecção que, antes de chegar a esse campeonato do mundo, não perdia um jogo há quatro anos e que, durante a competição, marcou 27 golos em 5 partidas. E não foi campeã do mundo.
O sistema de grupos
Em 1954, no ano em que a FIFA celebrou o seu 50º aniversário, disputou-se o 5º Mundial de Futebol, organizado pelo país que já na altura sediava aquela instituição: a Suíça. Foi o primeiro campeonato do mundo a ter cobertura televisiva. Competiram nessa prova 16 selecções, divididas inicialmente em 4 grupos. Cada um dos grupos era constituído por duas selecções classificadas nos oito primeiros lugares do ranking da FIFA (Áustria, Brasil, Inglaterra, França, Hungria, Itália, Uruguai e Turquia, esta última em substituição da Espanha, uma vez que a tinha eliminado na fase de qualificação) e por outras duas selecções que se tivessem apurado. Mas em vez do tradicional sistema de todos contra todos, cada selecção disputou apenas 2 jogos nessa fase. As selecções classificadas nos oito primeiros lugares do ranking, como cabeças-de-série, não jogavam entre si, e as outras duas selecções apuradas só jogavam contra os cabeças-de-série. Apenas em caso de igualdade pontual é que um terceiro jogo seria realizado. Só por curiosidade, este foi também o primeiro mundial em que a selecção brasileira se equipou de camisola amarela e calção azul, pois o equipamento anterior (camisola branca e calção azul, usado desde 1919) foi considerado um equipamento azarado, após a derrota com o Uruguai no Mundial de 1950.
Os mágicos magiares
Capitaneada por Ferenc Puskás, considerado o melhor jogador do mundo na altura, a Hungria partia como grande favorita. Tinha sido campeã olímpica dois anos antes em Helsínquia, derrotando a Jugoslávia na final por 2-0. Tinha ganho o Campeonato da Europa Central em 1953, derrotando na final a Itália por 3-0. E tinha ganho por 6-3 à Inglaterra em Wembley, também em 1953, resultado que ficou para a História como a primeira derrota sofrida pela selecção inglesa no seu estádio nacional. No ano seguinte voltariam a derrotar os ingleses em Budapeste por 7-1, ainda hoje a maior derrota de sempre sofrida pela Inglaterra. Na fase final do Campeonato do Mundo, a Hungria ficou no mesmo grupo que a Turquia, a Coreia do Sul e a República Federal Alemã (RFA), um dos dois estados da Alemanha dividida pelos aliados em 1949. Contra a Coreia da Sul, a Hungria venceu por 9-0, um resultado que ainda hoje se mantém como o mais desnivelado em jogos a contar para o Campeonato do Mundo, juntamente com o 9-0 da Jugoslávia frente ao Zaire, em 1974, e o 10-1 da mesma Hungria a El Salvador, em 1982. Contra a RFA, que só tinha sido readmitida como membro da FIFA quatro anos antes, a Hungria venceu por 8 a 3, mas sofreu um grave contratempo: a lesão de Puskás, provocada por Werner Liebrich, e que obrigou os húngaros a ficar privados do seu líder nos dois jogos seguintes. Apesar dessa derrota, a RFA qualificou-se juntamente com a Hungria para os quartos-de-final, pois ganhou os dois jogos efectuados com a Turquia: o primeiro por 4 a 1 e o do play-off por 7-2.
Nos quartos-de-final a Hungria bateu outro candidato ao título, o Brasil, por 4 a 2, num jogo de tal forma intenso e violento que ficou conhecido como “A Batalha de Berna”. Não só pelo que ocorreu durante a partida (três expulsões e várias cenas de pancadaria), mas também pelo que se passou após o apito final do árbitro, com Puskás a ser acusado de ter acertado com uma garrafa num jogador brasileiro e os companheiros deste a invadirem os balneários dos húngaros e a prolongar a luta fora de campo. Pelo menos um jogador húngaro ficou inconsciente, e o seleccionador Gusztáv Sebes levou quatro pontos na cabeça depois de ter sido atingido por uma garrafa partida. Nessa mesma fase, a RFA, onde jogadores como Helmut Rahn, Hans Schfer e o capitão Fritz Walter começavam a notabilizar-se, derrotou a Jugoslávia por 2-0. Nos outros jogos, o Uruguai derrotou a Inglaterra por 4-2 e a Áustria venceu a Suíça por 7-5, no jogo com mais golos marcados até hoje em fases finais de campeonatos do mundo.
Nas meias-finais, enquanto a RFA derrotou a Áustria por 6-1, mostrando-se uma formação cada vez mais confiante sob a direcção do técnico Sepp Herberger, a Hungria, ainda sem Puskás, mas com Zoltn Czibor, Nndor Hidegkuti, Jzsef Bozsik e Sndor Kocsis (o melhor marcador da prova com 11 golos), bateu o Uruguai por 4-2, após prolongamento, num dos mais espectaculares jogos da competição. Talvez hoje em dia o facto de vencer o Uruguai não pareça particularmente relevante, mas na altura significava bater uma selecção que havia ganho todos os Mundiais que tinha disputado e que ainda não tinha perdido qualquer jogo em fases finais. Entre as vitórias nos Mundiais de 1930 e 1950, o Uruguai tinha feito boicote ao Mundial de Itália em 1934, como resposta ao facto de muitas selecções europeias se terem recusado a participar no Mundial que o próprio Uruguai havia organizado 4 anos antes. Quanto ao boicote ao Mundial de 1938, este deveu-se ao facto de a escolha da França como país organizador ir contra ao acordo existente de alternar a organização de Mundiais entre a Europa e a América do Sul.
«O milagre de Berna»
Na final, disputada no Wankdorf Stadium, em Berna, perante 60 mil espectadores, a Hungria era obviamente favorita. Não só por contar novamente com Puskás, ainda que não totalmente recuperado da lesão. Não só pelos adversários fortíssimos que havia deixado pelo caminho (Brasil e Uruguai). Não só pela estrondosa vitória que havia infligido à RFA na primeira fase do torneio. Acima de tudo, por ser uma equipa que praticava um futebol dominador e que estava imbatível há 32 jogos (ainda hoje, recorde absoluto em termos de selecções). E, na verdade, durante os primeiros minutos de jogo, tudo parecia indicar que a vitória não lhe escaparia. É que bastaram seis minutos para Puskás inaugurar o marcador e mais dois para Czibor dilatar a vantagem, num golo muito consentido pelo guarda-redes alemão Toni Turek. A questão que se colocava na altura já nem era em relação ao vencedor da partida, mas em relação aos números com que a Hungria iria ganhar. Entre os adeptos alemães, para quem os anos do pós-Guerra haviam sido devastadores, o sentimento de impotência da sua selecção perante os húngaros era aceite com naturalidade. Só que aos dez minutos de jogo Max Morlock reduziu a desvantagem. E aos 19 Helmut Rahn empatou a partida. Quatro golos em menos de 20 minutos, com tudo a voltar à estaca zero. Na RFA era principalmente através dos relatos do famoso radialista Herbert Zimmermann que os alemães seguiam a proeza dos seus jogadores. E se há algo que esses relatos transmitem é, curiosamente, a admiração profunda que Zimmermann sentia pela qualidade de futebol da selecção húngara. Uma admiração que acabava por dar uma dimensão ainda maior à proeza que os jogadores alemães estavam a cometer, à forma como resistiam ao caudal ofensivo dos “mágicos magiares”. Nesse momento não eram só esses 11 jogadores, mas toda uma nação que estava a recuperar o orgulho e a reerguer-se literalmente das cinzas, após a capitulação sofrida na II Guerra Mundial.
Até que a seis minutos do fim da partida, Rahn voltou a marcar, tornando assim real o que antes do jogo parecia impensável: a derrota da Hungria. A importância que esse golo teve para a própria recuperação económica da sociedade alemã está espelhado na cena final do filme “O casamento de Maria Braun”, de Rainer Werner Fassbinder, sobre a Alemanha do pós-guerra. No preciso momento em que o radicalista Herbert Zimmermann grita golo de Rahn, o par de protagonistas principais do filme morre num acidente doméstico. Com esse golo fechava-se um dos mais miseráveis e humilhantes capítulos na história da Alemanha e iniciava-se um novo capítulo: de prosperidade económica e crença no futuro e na ideologia da RFA. E quem acha que a metáfora é exagerada, é porque ainda não compreendeu porque é que o futebol foi o maior fenómeno de massas do século XX. A dois minutos do fim do jogo, Puskás ainda colocou a bola no fundo das redes da baliza alemã, mas o golo seria anulado por indicação do fiscal de linha, já depois de o árbitro ter apontado para o centro do terreno. Pouco depois, a Alemanha sagrar-se-ia pela primeira vez na sua história Campeã do Mundo de futebol. E não seria a última vez que derrotaria na final a grande favorita à vitória: precisamente 20 anos depois seria a Holanda de Cruyff, Rep, Rosenbrink e Neeskens a sofrer o mesmo destino de Puskás e restantes mágicos magiares.
O regresso a casa
No regresso à Alemanha, feito por comboio, os jogadores da selecção foram recebidos como deuses pelos seus conterrâneos. Não era caso para menos: eles tinham derrotado aquela que era provavelmente a melhor equipa de futebol de sempre. Anos mais tarde, no entanto, começaram a surgir acusações acerca do uso de doping por parte dos alemães. E em 2004, num documentário televisivo realizado a propósito do 50º aniversário desse encontro, o historiador Guido Knopp afirmou que os jogadores alemães tinham injectado substâncias dopantes no intervalo do jogo, usando seringas que haviam pertencido a um médico desportivo da União Soviética. Verdade ou não, o certo é que após o torneio alguns jogadores alemães começaram a sofrer de icterícia. No mesmo ano, uma reportagem para uma outra televisão alemã mostrou imagens que tentavam provar que o golo de Puskás que daria o empate a escassos minutos do fim foi legal. Independentemente da veracidade ou não destas afirmações, o que não pode ser negada é a importância que este encontro teve na História desportiva e política da RFA. Para a Hungria deu-se o efeito contrário: nunca mais conseguiu ter uma selecção tão forte. Apenas dois anos mais tarde, após a ocupação soviética que pôs fim à Revolução Húngara, os seus melhores jogadores abandonariam o país e, por conseguinte, a possibilidade de defenderem as cores da sua selecção. Para a História, no entanto, ficou uma equipa cujo estilo de jogo antecipou em cerca de duas décadas o “futebol total” praticado pela Laranja Mecânica.



