SuperClássicos: Boca Juniors x River Plate
Argentina, Buenos Aires. Se a América do Sul é sobretudo um continente de partida para muitos prodígios em direcção ao Velho Continente, é na estrondosa clivagem e rivalidade entre dois clubes locais que encontramos um dos maiores derbies do Mundo. O futebol pode não ser o mais vistoso, dado que com tanto orgulho em jogo frequentemente é gerado um calor apenas suplantado pela luz da paixão dos fãs, capaz de ofuscar qualquer amante de futebol, mas este é seguramente o desafio que estabelece os parâmetros de festa e cor para todos os derbies da América do Sul. Aterrador, claustrofóbico e intimidante… assim é a La Bombonera no superclasico Boca Juniores x River Plate.
Como nos conta o ditado sul americano, os Mexicanos descendem dos Aztecas mas os Argentinos descendem dos barcos. É nesta relação com o mar e a imigração que nasce a boca mais popular do Mundo, o famoso bairro La Boca, onde o tango e o futebol alviceleste emergiram para conquistar o Mundo. Depois de um duro dia de trabalho nas docas, muitos emigrantes se reuniam para mais um jogo de futebol, uma prática que em conjunto com o crescimento do bairro, gerou dois clubes que conseguiriam transcender o desporto com a definição de dois extremos da experiência dos emigrantes: River Plate (fundado em 1901) e Boca Juniors (1905) nasceram ambos em La Boca e enfrentaram-se pela primeira vez num amigável em 1908, num descampado perto das docas. Reza a História que os dois grandes clubes alvicelestes têm as mesmas raízes, isto é, a zona portuária de Buenos Aires, onde os responsáveis do Boca decidiram escolher as cores para o clube segundo a bandeira do próximo navio que passasse no porto. Foi um barco da Suécia, e assim adoptou o azul e amarelo (daí as inúmeras bandeiras suecas exibidas na Bombonera) enquanto que o rival River deve o seu nome ao facto de na altura da reunião de fundação do clube ter chegado à cidade um navio cujos contentores gigantes tinham escrito “River Plate”. Estavam dados os primeiros passos para os dois clubes mais recentes da então história do futebol argentino, mas foram ainda muitos os anos de sacrifício e instabilidade até que afirmação definitiva estivesse confirmada. Boca Juniors passou todo o ano de 1914 fora do bairro de La Boca, enquanto o River Plate deambulou pela cidade entre 1912 e 1915, até que em 1923 os seus responsáveis decidiram dar um novo rumo ao clube e assim passar o clube para outras zonas da cidade, o que mudou radicalmente o relacionamento com o bom rival Boca. Seria recolocado a norte, no bairro de Palermo até que face à sua rápida ascensão, mudava-se para o bairro rico de Nunez onde inauguraria o seu Estádio Monumental. Esta seria a gota de água na afirmação do River Plate face ao Boca Juniors, que reafirmou as suas raízes mais humildes ao abrir também o seu próprio estádio - La Bombonera – estávamos nos anos 40 quando o futebol argentino estava no auge da sua afirmação em todo o Mundo, e assim os dois clubes estabeleciam duas identidades bem distintas.
Nos requintados subúrbios da capital, o River apostou em grandes contratações e assim ficariam apelidados como milionários, até porque os seus adeptos eram os imigrantes de sucesso, que viviam o sonho de abandonar o suor e o cheiro das docas para usufruir do conforto dos subúrbios. O Boca ficaria com a alcunha de bosteros, que deriva do facto do seu campo ter sido construído no espaço que outrora era de uma fábrica de azulejos que usava bosta como matéria principal. Esta é a equipa das “massas”, que lutam dia-a-dia pelo seu bem-estar e que encontram na paixão da solidariedade colectiva a sua maior arma.
Tudo em relação ao ambiente do River Plate nos dá uma sensação de espaço e grandeza, perto do seu estádio existem enormes parques com lagos gigantes, avenidas monstruosas e no interior do seu estádio existem corredores tão largos que parece que estamos no edifício das Nações Unidas, e uma pista de atletismo nos separa do relvado de tal forma que o relacionamento dos adeptos com os jogadores é um pouco como um diálogo numa mesa muito ampla, com os fãs a apreciar o jogo da forma mais cerebral e racional possível. É tudo isto que não encontramos quando nos deslocamos ao humilde bairro de La Boca, onde o clube com o mesmo nome tem os adeptos constantemente a gritar nas orelhas dos seus heróis, admirando o esforço e o carácter acima de tudo. Tudo no seu ambiente envolve a falta de espaço, as estreitas e íngremes ruas do bairro, com um estádio extremamente apertado, construído em estratos tal e qual uma caixa de chocolates, daí o nome Bombonera. Em geral, a atmosfera num estádio Argentino é algo inconfundível. Se no Brasil o nível de barulho nas bancadas é dependente do que está a acontecer nos relvados, e se em Inglaterra os adeptos estão perto e sem barreiras face à acção, a forma como a modernização dos estádios dispôs os lugares nem sempre foi favorável a cânticos e grandes exaltações, mas na Argentina tudo é diferente. Apenas pura emoção, uma cativante e colectiva celebração constante ao som ensurdecedor dos tambores. A Bombonera pode não estar em perfeitas condições, mas que estádio! Incrível é ver que todos cantam a mesma música, dos camarotes VIP às bancadas, onde fica a mega claque “La 12″, a grande responsável pela sintonia dos adeptos. Como pode um estádio com cerca de 50 mil xeneizes, todos seguirem o mesmo ritmo, o mesmo grito? Todos sabem o que cantar no momento difícil, no fácil, na hora do golo, na hora da entrada em campo. A claque do Boca teve muitos conflitos localizados devido aos adeptos que não cantavam. Então, a famosa e temida “La 12” começou a espalhar integrantes por todos os sectores do estádio, e ai de quem não se manifestasse. Assim nasceu um dos ambientes mais ensurdecedores num estádio de futebol.
Outra realidade na Argentina é o respeito pelo passado e sobretudo pelas raízes, algo que é levado muito a sério. Como prova disso, a mentalidade do Boca Juniors no que toca a exaltação das origens – nas últimas décadas, as camisolas do clube tinham escrito atrás a palavra xeneizes, mais uma alcunha cujo significado é Genovese no dialecto de Génova, região de Itália onde os fundadores do clube eram originários. É o clube do povo e sobretudo dos trabalhadores, e por isso tem incontestavelmente mais adeptos que o River Plate que contrapõe sempre com o facto de possuir mais títulos domésticos – 33 contra 22 do Boca – algo que é levado muito a sério quando confrontam os eternos rivais e exibem o nome: Club Atlético River Plate escritas no scoreboard do Monumental sempre com a mensagem : “O maior clube… de longe!”
Não é difícil entender como o derby Boca x River é seguido tão de perto, não só em toda a América do Sul como em todo o Mundo. Primeiro, pela tradição histórica que a Argentina e o seu campeonato tem como inspiração para todo o continente, dado terem sido os Argentinos a solidificar o desporto-rei trazido pelos Britânicos. Segundo, pela forte componente social que tal confronto representa para o próprio país, e terceiro, pela dicotomia do ter e não ter, uma linha que é a génese do superclasico de Buenos Aires.









Comentário de Dannymad - 21 Agosto 2008, 22:20:
Excelente artigo! Agora percebo porque é dos derbis mais emocionantes do mundo.