Observatório: Uma Questão de … Talentos

As últimas notícias no reino da Luz, ainda que “serenadas” pelo efeito da contratação de Pablo Aimar, não deixam qualquer adepto encarnado menos céptico em relação à gestão dos valores do plantel deste Benfica 2008/09. A aposta no último par de anos em jovens promissores, não passou porém de tentativas que chocam com inúmeras dificuldades para lançar jovens de cantera na primeira equipa. Seja por falta de qualidade ou escassez de oportunidades para vingar de águia ao peito, a verdade é que mesmo com Rui Costa ao leme, a nação benfiquista vê com desconfiança o desperdiçar do potencial de jovens como Freddy Adu, Fábio Coentrão, entre outros, e da mais valia que poderiam vir a representar para o sucesso desportivo e económico do clube.

O empréstimo de Freddy Adu ao AS Monaco não deixa ninguém indiferente. Se por um lado a jovem promessa norte-americana vinha rodeada de um mediatismo excessivo, por outro lado parece-me evidente que dos jovens talentos contratados nos últimos anos, foi dos poucos que correspondeu por completo nos poucos minutos jogados, chegando mesmo a ser decisivo num punhado de partidas. Posto isto, Adu pode muito bem ser mais uma “vítima” do cemitério de talentos desperdiçados na Luz. A verdade é que a dificuldade na criação de craques é também e em primeiro lugar resultado da ruinosa política ao nível da formação que o clube seguiu há uns bons anos. Ultimamente, contudo, o Benfica tem apontado baterias em inverter o ciclo, algo em que vem claudicando sobretudo pela esboço assente numa base que é um plano errado que visa o imediato, isto é, sem recurso a um trabalho de fundo que aponte para o longo prazo, com calma e a tranquilidade e protecção necessárias. Este sistema não produz jogadores quase do pé para a mão ou com uma lapidação final, mas pode representar títulos, tanto em juniores, como em juvenis e infantis. Em juniores, por exemplo, o Benfica conquistou o último título português em 2003/04 e apenas dois nos últimos 18 anos. Esclarecedor.

Actualmente o Benfica conta nos seus quadros com 4 jovens que estiveram presentes no Mundial Sub-20: Fábio Coentrão, David Luiz, Di Maria e Adu. Quatros nomes onde parecem não restar dúvidas acerca do seu potencial, mas se em teoria tudo apontava para que os seus investimentos tivessem tudo para ser rentabilizados de forma quase exponencial, eis que o Benfica decidiu ignorar as leis da arte e engenho e não soube ultrapassar a dificuldade evidente de gerar jovens jogadores talentosos, colmatando-a através da aproximação a jovens formados por outros clubes (algo que no Porto resultou muito bem no caso do Anderson, por exemplo). A este nomes podemos ainda juntar outros de “produção estrangeira” que deambulam entre os júniores: Wagner Silva, defesa-central de 18 anos que jogava no Rio Grande do Sul, Airton Oliveira, 19 anos, um polivalente que tanto pode jogar sobre o lado esquerdo da defesa como no meio campo, que se juntaram a João Alberto, defesa que assume um lugar na lateral do lado direito. Pelo Seixal, casa das categorias de base do Benfica, passaram ainda Guido Abayian, ponta-de-lança argentino de 18 anos - que entretanto esteve para ser cedido ao Atlético - o defesa-central romeno, de 18 anos, Vlad Chiriches, Arvidas Novikodas, lituano internacional sub-19, e mora lá nos juvenis, o senegalês Toumany Sambú, que também já actuou pela equipa de juniores.

É aliás no mercado africano que o Benfica vem investindo, sendo que ainda há poucos meses chegaram à Luz, para um período de experiência, dois nigerianos, Mustapha Ibrahim, 17 anos, lateral direito, e Uremu Egbeta, 16 anos, volante, ambos campeões mundiais de sub-17. Ibrahim e Egbeta são, todavia, apenas dois dos muitos jogadores africanos que este ano têm tido oportunidade de vestir a camisa do Benfica. Outro bom exemplo é o de Orphée Demel, atacante de 18 anos, natural da Costa do Marfim, sinónimo de golos na equipa de juniores e além de demonstrar bons dotes para a posição, assume-se já como uma das estrelas maiores do conjunto orientado por João Alves, antigo jogador do clube com o percurso distinto no treino profissional, que engloba Ugo Akuchie, 18 anos, atacante da Nigéria, internacional sub-20, que foi adquirido, há pouco tempo, ao Royal King Academy, clube senegalês que se dedica apenas à formação. Outro exemplos são os de Daúd Machude, moçambicano de 17 anos, esquerdino e conhecido como ‘Rivaldo de Moçambique’, que transitou de Old Trafford - onde teve a sua primeira e curta experiência europeia - para a Luz no final de 2005, Ishmael Yartey e Lassana Camará, médios naturais do Gana e da Guiné-Bissau, respectivamente, e o senegalês Abdoulaye Fall, trinco moderno, encorpado e de espírito guerreiro.

Resumindo, os talentos importados são inúmeros na Luz, prometendo mas nunca aparecendo, muito pela pouca paciência dos homens fortes da gestão desportiva encarnada, que creio ter um gritante e evidente desfasamento na formação em relação àquilo que se faz por exemplo no Sporting. Não podem haver dúvidas de que a academia leonina é um terreno muito fértil em captar e trabalhar jovens prodígios, assim como a própria estrutura do futebol sénior de Alvalade faz questão de apostar nesses mesmo talentos colocando-os entre os graúdos com resultados excepcionais quer do ponto de vista desportivo, quer mais tarde financeiro.

Tudo isto para salientar a perda exaustiva de talentos por parte dos responsáveis da Luz, que desperdiçam talentos internacionais e continuam a abafar e ignorar a prata lusa da sua própria academia: André Carvalhas, Miguel Rosa , Rúben Lima, Romeu Ribeiro, Miguel Vitor, Tiago Gomes, Bruno Costa, entre outros, são desde logo os grandes prejudicados perante a questão sobre a verdadeira necessidade de recurso a tantos estrangeiros, se depois, como referido no início do texto, estes não têm capacidade para jogar na equipa principal ou oportunidade para o fazerem. O próprio Benfica, sendo um clube de dimensão mundial, deveria optar por tentar contratar e lapidar os melhores portugueses que vão surgindo – aí sim aprofundar e aprimorar o garimpo – onde perde claramente para os rivais, e não recorrer quase exclusivamente a estrangeiros tão jovens, que além de não ter sido a base para o seu rico historial, é, muito claramente, uma fuga para a frente, mais própria de clubes endinheirados ou com menor dimensão.


6 Comentários. »

  1. Bom artigo! Não sabia que o SLB tinha tantos jovens jogadores estrangeiros, por um lado isso é bom, por outro isso faz com que muitos jovens portugueses sejam postos de lado por isso.
    Mau, mau é o emprestimo do Adu. Se o Coentrão não tivesse sido emprestado ao Saragoça, ainda dava o desconto, agora sendo os dois emprestados quem vai fazer a esquerda se o Di Maria se lesionar? O JOrge Ribeiro? O Sepsi? Apesar de não os considerar maus jogadores era preferivel emprestar o Sepsi do que o Adu na minha opinião. O pior é a opção de compra.
    Tenho pena que o SLB não aproveite os jovens que tem. Esperava ver o COentrão, o Adu e o CArvalhas no plantel principal esta época, mas tou a ver que a politica continua a ser a mesma. Espero ao menos que este ano deem alguma hipotese ao Yu Dabao, tenho um feeling que ele pode se tornar um bom jogador. Devido à sua situação no Benfica, não foi convocado pros jogos Olimpicos. É pena.

  2. Nas camadas jovens há vários jogadores estrangeiros, mas alguns deles sem a qualidade desejável (casos gritantes são os do Wagner Silva ou do João Alberto, mas também o Wang Gang ou o Arvidas), o que levanta muitas dúvidas sobre algumas escolhas de recrutamento, especialmente quando esses novos recrutas tapam o lugar a outros jogadores que vêm de escalões mais baixos e que deixam de ter lugar no escalão seguinte por causa destas entradas duvidosas.

    Há também jovens de qualidade indiscutível. Dos que vi, especialmente o talentosíssimo Lassana Camará, o Yartei e o Fall (que me faz lembrar muito o Sissoko).

    O problema actualmente não está mais na formação nem recrutamento para a formação, penso. Estamos ao nível dos outros “rivais” em Portugal e no estrangeiro. Bons treinadores - o que dói é ver que temos óptimos treinadores de formação e depois no topo da escada, nos juniores, descamba tudo com João Alves… É um retrocesso em relação a tudo o que foi feito nos escalões anteriores e reflecte o facto de os juniores serem ainda o escalão mais cheio de “máfia” da formação do Benfica - , boa metodologia de treino, profissionalismo, competência e talento dos jogadores. O problema é o espaço na equipa sénior. Aí continuamos e “queimar” jovens. Por muito que custe, se um jogador em fase decisiva de carreira entre junior e sénior tiver a hipótese de escolher entre Sporting e Benfica, qual escolheria? O Sporting, que aposta nos jovens dando-lhes tempo para amadurecer, ou o Benfica, qua a cada defeso contrata 5 jogadores para as posições dos talentos emergentes da cantera (o caso do Ruben Lima ai é laríssimo: um jogador que se destacou no empréstimo ao Aves e que tem mostrado qualidade é tapado por Sepsi, que tem qualidade sem dúvida, e Jorge Ribeiro, uma contratação absolutamene desnecessária e excedentária, a meu ver)?

    Há melhorias, sim. Penso que o Fellipe Bastos, o Carvalhas e o Miguel Vitor terão oportunidades e farão parte de plantéis futuros (o Miguel Vítor tem tudo para ser capitão daqui a uns anos, se me perguntarem).

    Mas contratar Adu e agora “emprestá-lo” desta forma… Ele ainda está imaturo e decide mal, sim. Mas tem talento. Vai jogar no Mónaco, treinado por um ex-benfiquista. Mas porque não ir jogando cá, num campeonato muito similar ao francês em termos de qualidade e beneficiando da influência do Pako Ayesteran e do seu inglês? É que duvido que ele queira voltar, se fizer uma boa época. País mais desenvolvido, mais rico, com melhor qualidade de vida., com estádios com mais gente. Parecendo que não, também influencia.

  3. Nao conheco os jogadores africanos em questao mas o problema das idades persiste em muitos paises africanos, alias basta ler alguns forums de futebol desses paises para ver como o problema e comum e conhecido de todos.
    Preocupa-me que nao se procure lidar com essa questao de uma forma eficaz e aberta pois havera muitos jogadores com mais quatro ou cinco anos do que aquilo que o bilhete de identidade diz a jogar em equipas jovens porque obviamente teem um nivel de maturidade fisica e mental superior. Como resultado nao ha realmente investimento a nivel de formacao, porque esses jogadores ja estarao “formados” tiram o lugar a jogadores que deveriam estar a ser formados.
    Ha varios casos de jogadores que apareceram muito cedo, tanto o Zoro como o Adu podem ser exemplos disso.
    Lembro-me de ver o Zoro dar entrevistas quando tinha “14″ anos e tambem falei com treinadores que jogaram contra ele por essa altura e a opiniao generalizada era a de que o rapaz era excepcionalmente desenvolvido para a idade tanto fisica como mentalmente.

  4. Desculpem, no ultimo paragrafo referia-me ao Adu, nao ao Zoro que nunca vi jogar.

  5. O caso de Adu foi muito falado em certa altura, pois parecia para muitos evidente tratar-se de um clássico caso de idade falsa - não necessariamente por falseamento de documentos de identidade, mas na maioria dos casos porque nos seus países de origem os pais apenas registavam o nascimento dos seus filhos anos mais tarde.

    O que é facto é que devem ser diversos os casos que, sem saber, vamos presenciando em relvados europeus. Sabe-se como a formação pedagógica, educacional, até mental, é cada dia que passa mais importante na criação de um atleta vencedor, e é efectivamente um “tiro no escuro” apostar consecutivamente em jovens vindos de continentes de maior pobreza, com infraestruturas bem mais precárias a nível desportivo. Temos matéria-prima quanto baste para lançar anualmente 1 ou 2 jogadores de grande futuro no nosso futebol, e estou certo de que temos actualmente uma das escolas de formação com maior qualidade do futebol mundial, num misto de boas equipas de formação com a tão importante qualidade inata de um miúdo que começa a jogar futebol.

    Contudo, o futuro é a meu ver risonho. As estruturas têm ainda muito a evoluir, e estou seguro de que virá uma fase em que a cantera terá forte preponderância no futebol das nossas maiores equipas.

    Abraço

  6. Parabéns, este artigo está muito bom e debate sobre um tema que a mim me interessa bastante. Parabéns!

    Já agora, se se quiserem rir um bocado às custas das andanças do futebol Tuga visitem (e divulguem): http://www.pontapedecabessa.blogspot.com

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