Oceano – O Indomável
Muitos foram os jogadores que trouxeram um novo significado ao termo “trinco” no futebol luso ao combinarem garra, entrega e raça a um conjunto de atributos humanos que os colocaram no mais alto patamar dos médios batalhadores lusos. Um dos melhores representantes deste leque do futebol nacional é sem sombra de dúvidas Oceano, o eterno batalhador do Sporting.
Filho de pai portista e mãe benfiquista, Oceano sempre esteve envolvido no futebol: “O meu pai foi jogador de futebol, mas nunca cheguei a vê-lo, pois quando a minha mãe engravidou, parou de jogar.” O antigo internacional português começou a carreira no Almada, com 13 anos, onde permaneceu até os 17. ” No meu primeiro ano de sénior, aos 17 anos, fui para o Odivelas, onde estive apenas um ano e rumei para o Nacional”, conta. Tinha contrato com a equipa da Madeira mas o seu treinador no Nacional foi para o Sporting e convidou-o para treinar uma semana nos leões: “A princípio disse que não, que tinha contrato e iria cumpri-lo. Depois conversei com a minha família e chegamos à conclusão que era uma oportunidade única.” Oceano foi então para o clube de Alvalade, tendo no seu primeiro encontro um momento inesquecível: “No meu primeiro treino, numa jogada mais dura carreguei o Jordão, coloquei as mãos na cabeça e pedi desculpas.” Ele disse-me: “O que é isso miúdo, o que estás a fazer? – Estava habituado a ver aqueles jogadores pela televisão e, de repente, estou a equipar-me com eles e a treinar ao lado deles, tremi por dentro mas por fora não o demonstrava”, confessa. A subida de Oceano aconteceu muito rápida. No ano em que chegou ao Sporting foi titular em todos os jogos e ao fim de um mês foi chamado à selecção nacional. “Tenho de agradecer à minha mãe, porque foi devido à educação que me deu, que consegui segurar esses golpes bons da vida”, assegura.
Foi ao serviço dos leões que se tornou um verdadeiro ícone do clube, atleticamente possante com 1.77m e 83 kg foi um verdadeiro “leão” dentro e fora de campo como profissional. Apresentando como principais argumentos a sua garra, a sua total entrega ao jogo e a sua força de vontade, foi um dos melhores jogadores a actuar no nosso país na posição de trinco, chegando mesmo a jogar noutros lugares sem nunca comprometer a actuação da equipa. Chegou inclusive a ser guarda-redes num jogo da Supertaça Cândido Oliveira contra o Porto, sendo um dos grandes responsáveis pela ida a um terceiro jogo no qual os leões ganharam por 3-0. Guarda no coração vários momentos da sua carreira, mas destaca dois: “A final da Taça de Portugal foi quando vi realmente uma loucura muito grande, foi contra o Marítimo. Até eles entraram na festa.” Pela selecção, o desafio inesquecível frente à Irlanda do Norte, no Estádio da Luz: “Chovia torrencialmente e estavam lá 120 mil pessoas que nos apoiaram do início ao fim. Ganhámos por 3-1 e até os torcedores irlandeses nos aplaudiram no final do encontro.” remata numa retrospectiva. Foi assim desde a época 1982/83 a 1989/90 até que Toshak convidou Oceano para a Real Sociedad, juntamente com Carlos Xavier. A sua dedicação em campo fez com que se tornasse um ídolo em terras de nuestros hermanos sendo mesmo considerado um dos melhores jogadores da então denominada Liga das Estrelas. No final de algumas épocas em terras bascas regressa novamente ao Sporting, e melhor que nunca pois conjugou a sua força com uma técnica que os sportinguistas e adeptos lusos desconheciam até então, sendo sem dúvida eternamente bastante voluntarioso, que por vezes por querer fazer tanto e bem, até se atrapalhava.
Foi capitão durante vários anos (1994 a 1998), quem com ele lidava sabia que podia encontrar uma pessoa rigorosa e disponível para ajudar o grupo em todos os instantes. Apesar de tudo o que deu ao seu “clube de coração”, não teve nem de longe nem de perto o tratamento que merecia. Quiseram antecipar o fim da sua longa e brilhante carreira, quando só o próprio o poderia fazer, uma situação já sucedida com outros capitães verde e brancos. Ao serviço da Selecção nacional contou com 56 internacionalizações, 8 golos e uma presença no EURO 96. Após deixar o clube leonino, Oceano ainda jogou uma época ao serviço dos franceses do Toulose FC em 1998/99, onde finalmente se retirou aos 36 anos.
O antigo capitão confessou que tem um ídolo e que foi o único jogador a quem pediu um autógrafo: Eusébio. Ainda recentemente recordou que já por 2 vezes esteve a um pequeno passo de regressar ao futebol. “A primeira proposta que me foi feita, em 97/98, era para ser treinador. Mas atrás da proposta vinha a dispensa de dez ex-colegas meus. Nunca mais poderia olhar-me ao espelho, nunca mais poderia ser aquela pessoa que tentei ser ao longo da carreira. A segunda foi o convite para integrar a equipa técnica liderada por Paulo Bento. Segundo Oceano, sente-se mais talhado para desempenhar outras funções como gestor de futebol, pelo que entende, mais uma vez, não ter sido tratado com respeito pela SAD do Sporting, confessou mostrando assim todo o seu carácter como profissional.
O convite para integrar a formação das quinas, como responsável pela selecção de esperanças (sub-21) portuguesa, foi recebido com orgulho e emoção e de imediato aceite. Como o próprio assumiu, trabalhar com jovens é estimulante e contagiante, e certamente uma experiência enriquecedora para um futuro como técnico principal. Oceano terá assim a oportunidade para se lançar no difícil mundo da gestão desportiva, depois de uma carreira recheada de sucessos e boas experiências, e essencialmente onde revelou um profissionalismo literalmente inultrapassável.



