EURO 2008 > A Queda dos Lusos
Depois de uma derrota que deixa qualquer português triste e frustrado, escrevo este artigo não para abordar directamente a partida em si, mas para destacar aquele que é um ciclo (finalmente) terminado. Foram 5 anos de um futebol “internacionalizado”, de um equipa gerida de forma muito discutível por um personagem detestável, e de um percurso que apenas um punhado de vitórias importantes fizeram questão de camuflar.
Chamem-me antiquado, mas sempre serei daqueles que rejeita em absoluto um seleccionador nacional que não seja português, ou um jogador estrangeiro a representar a nossa selecção. No meu ponto de vista, é estar a ir contra toda a essência de uma partida de futebol entre países, onde a vitória nunca deverá ser alcançada a qualquer custo, nem tão pouco o factor monetário deverá ser de algum modo relevante. Há casos e casos, seguramente, mas está claro que nem todas as naturalizações que actualmente vemos na praça pública consistem em “amor ao país que os abrigou”, diria que nem tão pouco metáde delas. E esta transformação das selecções nacionais em autênticas entidades próprias e independentes tira muita da emoção que em tempos nossos familiares tiveram ao assistir a jogos de Portugal. Como se isso não bastasse, durante a última meia-década assistimos a um técnico que “apenas” nos trouxe metodologias rígidas, revestidas de teimosia, ódios pessoais, histórias que para o futebol português quase roçaram a vandalização de alguns nomes queridos – veja-se o caso de Vítor Baía, que depois de anos e anos de amor à camisola, foi literalmente esquecido sem uma partida de despedida sequer. Imperdoável.
Diz-se que Scolari mudou a nossa selecção, e criou uma equipa ganhadora. Será mesmo assim? Um treinador que assumidamente preferia ficar no conforto da sua casa a deslocar-se a estádios de futebol, que por diversas vezes assumiu que gostava de cá estar porque o trabalho era curto, que criou um núcleo duro e renegou literalmente o trabalho e evolução de alguns atletas, que acumulou exibições sofríveis nas fases de qualificação e que tacticamente nunca conseguiu tirar real proveito do lote de atletas de que dispunha. Será que actualmente, e com o conjunto de elementos que Portugal possui, não será exigível chegar à fase final e conseguir pôr a equipa a jogar um futebol aguerrido? Arrisco-me a dizer que sim, evidentemente – veja-se o que Humberto Coelho, sem experiência alguma como técnico de primeiro nível, conseguiu de uma forma quase comum, e com uma postura fantástica, plena de humildade e nacionalismo. Provavelmente, e se Scolari fosse um treinador com uma postura similar, estaria agora a despedir-se deixando saudade. Contudo, e independentemente de vitórias brilhantes contra Holanda, Inglaterra, entre outras, o seu percurso ficará para sempre ligado à teimosia que o fez vacilar nos momentos cruciais. Na partida de ontem, e assim como na final do Euro 2004, o “destaque” acaba por ser o mesmo de sempre: Ricardo, um medíocre jogador de futebol que por obra divina conseguiu manter-se como titular da selecção das quinas durante anos a fio. Ontem, e associado a uma apatia generalizada no sector defensivo, o guardião português tratou de facilitar a vida aos germânicos como se de um futebolista amador se tratasse. O último golo chega a ser quase anedótico, tal é o falhanço técnico na tentativa de defesa. Sem desculpa.
Ultimamente, temo-nos habituado a ver Portugal perder por demérito em fases finais, e não por total valia dos seus adversários. Foi assim contra a Grécia, hoje repetiu-se. Um Portugal que construiu, batalhou, falhou também mais do que devia na altura de finalizar, mas que nas alturas cruciais deitou tudo a perder, relegando os seus níveis emocionais para patamares cada vez mais reduzidos. Com tantas falhas, tantos erros, não há equipa que resista, e depois de uma semana onde a Alemanha foi debatida ao pormenor, parece impossível sofrer 2 tentos quase a papel químico, em livres batidos de frente para os defensores, e onde a predominância aérea deveria ser evidente. São demasiados falhanços, muito pouco trabalho de véspera, e uma excessiva confiança de que o aspecto “motivacional” será decisivo, aquilo em que Scolari era visto como um génio pelos tenros media nacionais. Pois bem, isso não chega para fazer um grande treinador.
Para o pós-Scolari: temos futebol, temos equipa, temos individualidades, temos coração. E isso será uma realidade futura, independentemente do nome que esteja a ocupar o cargo de seleccionador. Sentir-me-ei bem mais satisfeito se, ao invés de ver uma cara famosa (e endinheirada) no comando técnico de Portugal, seja um português a ocupar um cargo que só a ele diz respeito. E aí sim, poderemos recomeçar do zero, e não será uma utopia almejar voos tão ou mais altos quanto este. Parabéns Portugal.



