“Talento em Ascensão III” – Andrei Arshavin

Cria algo a partir do nada, vê-se a bola nos seus pés e espera-se algo grandioso. Andrei Arshavin apareceu apenas ao terceiro jogo deste Euro 2008, frente à Suécia – esteve suspenso nos dois primeiros – mas a tempo de se assumir como o estilista do criativo futebol russo e a grande pérola deste Euro 2008. O culto pelo estilo, de resto, está instalado na personalidade do jogador, estrela do Zenit St. Petersburgo.

Andrei Arshavin passou para figura de primeiro plano depois da espectacular exibição na vitória da Rússia sobre a Holanda (3×1) nos quartos-de-final do Euro 2008, passando a destacar-se como um dos jogadores mais apetecidos do mercado. A sua história não deixa de ter contornos interessantes pois “apenas” explodiu nos últimos dois anos – em 2004 não esteve no Euro português e em 2006 também não marcou presença na Alemanha. Esta é uma das justificações pela qual aos 27 anos tem “apenas” 36 internacionalizações. Típico playmaker, actua desde 1999 no Zenit St. Petersburgo, onde iniciou a carreira na equipa B do clube de sua cidade. No ano seguinte saltou para a equipa principal, onde aos poucos foi tornando-se o “motor” ofensivo da equipa e um dos heróis na ascensão do clube quer a nível interno como externo. Prova disso foi terceira posição no campeonato russo de 2001 (sendo mesmo eleito o melhor médio) e vice-campeão em 2003. Mas seria em 2006 que a imprensa e a Federação Russa o elegeram como o melhor do campeonato e jogador russo do ano.

Com o “clássico” 10 nas costas, Arshavin é claramente o rosto de uma selecção e país em claro estado de graça. O enriquecimento de uma população com sede de grandes conquistas faz com que o investimento no espectáculo do futebol proporcione verdadeiros contratos milionários aos jogadores. Como exemplo, Arshavin ganha três milhões de euros anuais, algo que nas décadas transactas era completamente impensável na terras dos Czares, mas actualmente é só relembrar a equipa do CSKA que bateu o Sporting na final da Taça UEFA, ou como foram para Moscovo tantos jogadores do campeonato português para perceber que na Rússia manda o dinheiro. No Zenit, por exemplo, manda a Gazprom, o gigante estatal do petróleo e do gás. Basta observarmos que a selecção russa é praticamente um mar de nomes “desconhecidos” no panorama internacional, pois dos 23 jogadores da selecção de Hiddink, 22 jogam na Rússia – o petróleo e o desejo de elevar o nome do país levaram o poder a investir no futebol.

A verdade é que se outrora a Rússia era um dos grandes “exportadores” de talentos, a adaptação a um novo estilo de vida e de futebol mostra que os russos nunca viajaram bem – Kerzakhov, que há dois anos era a grande estrela do país, foi do Zenit para o Sevilha e já está emprestado a um clube de Moscovo. “Não é fácil saírem jogadores da Rússia, porque ganham muito bem e estão em casa”, diz Semak, um médio que tem feito grandes exibições e jogou um ano no Paris SG antes de ser dispensado por fraquíssimo rendimento. Arshavin era seguido pelo Real Madrid que o queria, há uns meses, como jogador de segunda linha. Mais recentemente era o Newcastle, agora fala-se da Juventus. O próprio Hiddink, diz-se, é pago directamente por Roman Abramovich, numa espécie de acção de “responsabilidade social” do patrão do Chelsea. O técnico holandês não levou um “staff” completo, à brasileira – escolheu como adjunto Igor Korneev, que jogou até um ano no Barcelona e vários anos na Holanda (tem, aliás, a dupla nacionalidade).

Andrei ArshavinArshavin já espalhava talento pela selecção Russa desde Maio de 2002, onde apontou 10 golos em 33 aparições. A sua magia, astúcia e clareza de raciocínio em campo levaram que mesmo sob a suspensão da UEFA de dois jogos oficiais, tenha sido pré-convocado para o Euro 2008 no mesmo dia em que ajudou o Zenit a igualar-se ao CSKA Moscovo como a única equipa russa a ganhar um troféu europeu, ao ser determinante na vitória por 2×0 na final da Taça UEFA face aos escoceses do Rangers. Guus Hiddink, o treinador holandês que devolveu a selecção russa à elite do futebol, descreve-o da seguinte forma: “É o jogador mais inteligente que já vi jogar”, disse, ainda antes de Arshavin ganhar o campeonato russo (o primeiro depois de cair o muro) e a Taça UEFA com o Zenit St. Petersburgo. Hiddink tem tentado dar alguma nova organização à federação, criando centros de treino e lançando novos jogadores (Shirokov, Pavlyuchenko, que jogavam em pequenos clubes). E muda quando as coisas não correm bem – os centrais jogaram mal na derrota com a Espanha e Shirokov foi substituído por Ignashevitsh a partir daí, ainda que a dupla que forma com Kolodin esteja longe de ser infalível.

O carácter fortalecido por uma infância passada com a mãe num apartamento comunitário partilhado com outras famílias, fazem de Arshavin uma personagem rara do futebol russo. Arshavin tem mesmo uma formação académica em design de moda, uma escolha que o próprio justifica ter sido influenciada pelo facto de “ser um curso onde poderia conhecer muitas mulheres”. Andrei graduou-se com uma tese sobre o estilismo nos equipamentos desportivos. A associação (futebol-criatividade) que o jogador cultiva nos relvados. Aos 27 anos, aproveitou o Euro para sair definitivamente do armário da liga russa – Inglaterra e Espanha já disputam o estilo Arshavin.


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1 Comentário

  1. Pedro Matos diz:

    Não li esse texto todo, mas só sei que esse Archavin joga muito…mesmo muito…futebol!

    O Porto devia ir buscar destes…

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