Análise: EURO 2008 > G1/J1 > Portugal 2×0 Turquia

Temos Portugal! Numa partida soberba, a fazer lembrar grandes jogos de outrora, a equipa das quinas entrou definitivamente com o pé direito em mais um Europeu de futebol. O adversário não facilitou, e a sorte não esteve também do nosso lado, mas a vitória foi conseguida e de forma sublime.

Na antevisão de uma estreia desta natureza, e como não poderia deixar de ser, muitas eram as opiniões lançadas pelos media. Para uns, a vitória portuguesa era a realidade mais próxima; para os mais cépticos, era um jogo de 50/50. Havia no entanto algo aceite por todos: só um Portugal de grande crer, sacrifício e eficiência táctica poderia alcançar uma vitória para todos nós. O onze escalado por Scolari correspondia ao que já havia sido revelado no dia anterior – Ricardo na baliza, Bosingwa e Paulo Ferreira nas laterais, Petit e Moutinho coexistiam no meio-campo defensivo ao passo que Deco era o motor de construção do futebol luso. Ronaldo, Simão e Nuno Gomes fechavam o trio de ataque.
E quando começou, a partida parecia já levar 15 minutos. Isto porque foi imediata a garra de ambas as equipas empregue em cada lance. Se para os turcos o mais importante parecia ser impedir os lusos de jogar, para Portugal era mesmo o golo o objectivo eminente. E depois de 15′ de domínio português, esse tento surgiu mesmo – 17′, cabeceamento genial de Pepe a cruzamento de Simão – pronta e correctamente invalidado pelo juiz auxiliar. Este lance, apesar de frustrante, trouxe uma maior moralização ao conjunto luso, que nesta 1ª jornada contou também com um 12º jogador – os milhares de portugueses que lotaram o Stade de Geneve. O intervalo chegava, não sem antes Ronaldo fazer embater a bola no poste esquerdo de Demirel, na cobrança de um livre directo.

Análise: EURO 2008 > G1/J1 > Portugal 2x0 TurquiaAo intervalo, Scolari certamente terá enfatizado o tão emotivo carácter demonstrado pelos 11 portugueses. Mas era preciso concretizar, transformar em golos as oportunidades criadas. Se por um lado a sorte tinha estado do lado dos turcos, muita desta ineficácia portuguesa resultava dum anti-jogo diabólico praticado pelo nosso oponente, com constantes faltas, agarrões, simulações. O juiz da partida teve neste aspecto uma leitura perfeita, e apesar de raramente levar a mão ao bolso, defendeu sempre que possível o futebol atractivo praticado pelos lusos. Nesta 2ª metade, houve um recuo evidente da equipa de Fatih Terim. Portugal atacava e apostava no golo, golo esse que apenas surgiu aos 61′, e para alívio dos milhões de portugueses a assistir a esta jornada inaugural do Euro2008 por esse mundo fora. Foi simplesmente sublime o lance de Pepe, que iniciou e completou frente ao guardião turco, mesmo sofrendo uma entrada duríssima pelas costas. Não há palavras para descrever tão incrível golo (o segundo do brasileiro, primeiro dos quais legal), e Portugal via-se finalmente na frente do marcador.

Depois do golo de Pepe, importante realçar alguma falta de confiança (e de pulmão, quiçá) que se foi revelando no meio campo português. Houve uma clara dificuldade em pegar no esférico e efectuar alguma troca de bola. Pelo contrario, a única solução encontrada pela defensiva portuguesa consistia em “despachar” as bolas por intermédio de pontapés longos, colocando-as novamente nos pés dos turcos. Foram vários os momentos em que isto sucedeu de forma consecutiva, sendo mais tarde de certa forma rectificado com a entrada de Nani – e as evidentes ajudas a meio-campo que o jovem extremo veio trazer – e aos 83′, na entrada do trinco Raúl Meireles. Uma estreia é uma estreia, e numa competição de final de temporada são naturais as lacunas a nível físico e táctico, mas o que é facto é que esta nossa equipa se comportou de forma gloriosa, denotando frescura, rapidez de movimentos e uma enorme interacção entre os vários sectores.

O golo de Raúl Meireles, a passe (magistral) de Moutinho e depois de uma arrancada monumental de Ronaldo, foi o carimbar de uma vitória por demais merecida de Scolari e seus pupilos. Foi demasiadamente evidente a superioridade lusa, e o segundo tento assentou como uma luva nas pretenções nacionais. Uma entrada de leão, e a juntar aos 3 valiosos pontos vem uma forte moralização para os restantes 2 jogos que fecham a etapa inicial. Pepe cotou-se evidentemente como o MVP desta Jornada 1, juntando-se-lhe Moutinho com uma partida plena de eficiência e precisão. Realce também para Bosingwa, que juntamente com Cristiano Ronaldo foram uns autênticos todo-o-terreno nesta importante prestação. Por seu lado, Nuno Gomes – o avançado português que colocou duas bolas no ferro – apesar de alguma infelicidade revelou boa movimentação e uma forte possibilidade de se manter como o elemento mais adiantado de Scolari. Venham os Checos!





4 Comentários

  1. Gustavo Devesas diz:

    Penso como está bem destacado neste artigo, que Portugal teve 1 estreia auspiciosa. Se a exibição foi muito bem conseguida, a consistência dos processos nas 3 linhas da equipa surpreendeu tudo e todos. Parece-me fácil dizer que correu tudo bem quando o resultado foi positivo mas sobretudo a exibição foi elucidativa do potencial desta equipa, que levou mesmo Fatih Terim a dizer que “até os suplentes são grandes jogadores”. Mais que a vitória e os “açucarados” 3 pontos, este jogo foi a injecção de moral para o todo o grupo que na 2a jornada enfrenta os checos que assim olham Portugal com (ainda) mais respeito.

  2. Bruno Pinto diz:

    Portugal fez uma óptima exibição, perante a selecção do grupo tida, à partida, como a mais difícil de bater. De facto, a exibição colectiva lusa foi até algo surpreendente, se tivermos em conta a fase de apuramento sofrível e as dúvidas que existiram nos últimos tempos em redor da equipa. Domínio absoluto do jogo, futebol bonito e envolvente, procura constante do golo, poucas ou nenhumas veleidades concedidas ao ataque turco, alguns magníficos desempenhos individuais. Tudo somado resultou numa vitória incontestável, que convenceu não só os portugueses, como a generalidade da imprensa europeia. Todos os jogadores estiveram em bom plano, com particular destaque para três homens: João Moutinho, Pepe e Deco. Os golos apenas surgiram no segundo tempo, embora pudessem ter acontecido mais cedo, caso a pontaria não estivesse particularmente direccionada para os postes.

    Scolari apresentou o habitual sistema 4-3-3, sem qualquer surpresa no onze inicial. Acabou por acertar em todas essas opções, já que todos cumpriram o seu papel de forma adequada. Apenas um reparo: a substituição de Nuno Gomes por Nani e a passagem de Ronaldo para avançado-centro, após o tento inaugural, não me pareceu uma boa solução. A partir daí Portugal recuou em demasia sem necessidade e teve menos bola, expondo-se mais a um lance fortuito que pudesse resultar no empate, quando poderia ter perfeitamente mantido a mesma toada. Mesmo que optasse por um normal abrandamento, poderia tê-lo feito mais longe da nossa baliza, até porque os turcos nunca contituíram uma verdadeira ameaça para as redes de Ricardo. No entanto, a lei do mais forte imperou e Portugal deu uma demonstração de que é mesmo um dos principais favoritos a ser campeão da Europa. Em termos individuais somos fortíssimos. E a jogar assim, como um bloco homogéneo e entrosado, somos mesmo, na minha opinião, o candidato número 1.

    Agora, um a um, a nota dos jogadores portugueses no jogo de ontem (0 a 10) e uma breve análise individual:
    Ricardo (6): Jogo de pouco trabalho, que se resumiu a algumas saídas a cruzamentos fáceis e recolhas de alguns atrasos dos seus companheiros.
    Bosingwa (6): Pleno de força e velocidade, foi intratável na defesa e apoiou o ataque de forma quase constante. Uma ou outra perda de bola, um ou outro passe falhado, não mancharam uma exibição de bom nível.
    Pepe (8): Magnífica exibição do central ‘merengue’, coroada com um belo golo, surgido de uma das suas habituais subidas no terreno. Marcou ainda outro golo, anulado por fora-de-jogo e, na defesa, esteve sempre intransponível.
    Ricardo Carvalho (7): A costumeira classe e serenidade, garantia de solidez e qualidade no centro da defesa. A experiência acumulada fazem dele um central calmo mas soberbo. Forma com Pepe a melhor dupla de centrais do torneio. Há dúvidas?
    Paulo Ferreira (6): Muito bem a fechar o flanco esquerdo e a dobrar as subidas dos centrais, teve tempo para apoiar o ataque de forma pausada mas eficaz. Não é um jogador exuberante, mas sabe exactamente o que tem de fazer no relvado.
    Petit (6): Bom jogo do trinco benfiquista. Funcionou bem à frente da defesa, quer a ocupar o espaço e a dificultar as trocas de bola turcas, quer a iniciar os ataques portugueses. Jogou simples mas sempre bem. Veloso está bem no banco e vai lá continuar.
    João Moutinho (8): Enorme Moutinho. Do meu ponto de vista, foi o jogador mais valioso do encontro. Sempre em movimento, foi o jogador português que mais correu e isso reflectiu-se positivamente na sua actuação. Apareceu em todo o lado, recuperou bolas, participou com critério no jogo ofensivo, chegou a zonas de finalização e ainda teve tempo para assistir Meireles para o segundo golo. A defender e a atacar, é intenso, tecnicista, inteligente. É o verdadeiro médio do futebol moderno.
    Deco (8): O verdadeiro Deco começa a ressurgir, depois de uma temporada desastrosa no Barcelona. Jogou e fez jogar, foi o cérebro da equipa, o toque de classe, além de ter estado permanentemente em acção. Por vezes, parece jogar de forma displicente e demasiado descontraída (errou 2/3 passes sem necessidade), mas o belo jogo de Portugal deveu-se muito à sua qualidade. Na retina, um fantástico passe de um flanco ao outro, executado de primeira.
    Simão (7): Carrilou muitos lances ofensivos e foi sempre perigoso para o último reduto da Turquia. É um jogador rápido, de equipa, que solta a bola no momento certo e participa no processo ofensivo quase sempre correctamente.
    Cristiano Ronaldo (7): Para um jogador do seu nível, fez um jogo mediano. Concentrou muitos adversários em seu redor e isso retirou-lhe espaço para ensaiar algumas das suas jogadas, mas em compensação libertou ou seus colegas e isso foi bem visível ao longo da partida. Ainda assim, enviou uma bola ao poste de livre directo, fez o passe para Moutinho na jogada do segundo golo e esteve sempre bastante interventivo.
    Nuno Gomes (7): Uma bola no poste, outra na trave e uma assitência primorosa para Pepe inaugurar o marcador, foram os lances em que esteve mais em evidência. Belo jogo do capitão português, que foi substituído de forma prematura e incorrecta.
    Nani (5): Entrou rápido e mexido, ensaiando algumas jogadas pelo lado direito. Numa fase de adiantamento turco, pôs sempre a defesa contrária em sentido. Sofreu uma entrada assustadora de Mehmet Aurélio, a pedir o vermelho, mas nem falta foi assinalada.
    Raúl Meireles (6): Acabou com as ténues esperanças da Turquia, ao marcar o segundo golo mesmo ao cair do pano. O toque final foi o mais fácil, mas teve o mérito de ter acompanhado a jogada e dado a linha de passe a Mountinho. Uma opção credível sempre que fôr chamado.
    Fernando Meira (-): Entrou apenas para fazer parte da ficha do jogo e somar mais uma internacionalização.

  3. Rui Brandão diz:

    Ja ha muito que nao tinha possibilidades de comentar os artigos deste site e é com prazer que vejo que tudo funciona novamente com normalidade – o site e os sempre excelentes artigos.
    Nada melhor que voltar com uma vitoria – importante – de Portugal para começar o Europeu.
    Muita coisa ja foi dita – e bem – mas gostaria igualmente de ‘resfriar’ os animos perante a exibiçao da Seleçao. Suponho que todos os comentarios devem-se a pobre campanha que fez a Seleçao durante as eliminatorias e a animadora prestaçao da equipa neste primeiro jogo.
    Mesmo assim, continuo um pouco sceptico com o que vimos. Nao sou daqueles que pensam que temos jà Portugal, e por varias razoes.
    A equipa turca nunca jogou, e quando o fez – abrindo igualmente espaços para os nossos jogadores – mexeu com a estrutura portuguesa.
    O meio campo é promissor, mas mesmo assim nao evidenciou grande homogeneidade e muita pouca pressao. Se formos a ver, recuperamos poucas bolas activamente ao meio campo…os turcos perderam muitas bolas com maus passes e pouca clarividencia.
    O ataque, no meu ponto de vista, foi um desastre. O Nuno Gomes completamente perdido – a nao ser o fabuloso desvio para o Pepe – e muito pouco futebol pelas alas. Muitos criticam o Quaresma de ser individualista, mas tivemos outro em campo e mais pequeno : o Simao.
    O sector de que mais gostei foi a defesa, e bem que por momentos o R. Carvalho e o Pepe pareciam um pouco descordenados. Mesmo se nao comprometeu, no meu ponto de vista o P. Ferreira nao devia jogar. Nao gostei da sua actuaçao, perdeu sempre os duelos com o Kazim – ainda bem que foi sempre bem coberto por R.Carvalho o Pepe – e nao acrescentou nada ao ataque.
    Os meus comentarios podem parecer injustos mas foi a impressao que tive e ninguem mais do que eu – a nao ser os 20mio de portugueses no mundo inteiro – torce mais por Portugal.
    Em conclusao, o(s) elo(s) mais fracos que deveriam ser substituidos parecem ser :
    - Paulo Ferreira ( por Ribeiro )
    - Nuno Gomes ( por Postiga o H. Almeida – o até por o Cristiano no centro com Nani o Quaresma nas alas )
    - (Simao Sabrosa) – Quaresma o Nani

    Um abraço sincero de Genebra,
    Rui

  4. Rui Zamith diz:

    Sou também um pouco pessimista por natureza, contudo Portugal conseguiu ver convincente em variados parâmetros de jogo. Acho, e aliás como referenciei no artigo, que algo a analisar será a dificuldade que tivemos em gerir a bola a meio campo. A posse de bola é algo fundamental no futebol moderno, e é imperial saber geri-la em determinados momentos do jogo, algo que Portugal não conseguiu fazer no segundo tempo. Por momentos, previ o pior, pois não estavamos sequer a ter sorte na finalização, e o golo turco não seria propriamente uma surpresa (a expressão “quem nao marca, sofre” é ainda bem verdadeira no futebol actual).

    Acho no entanto que deveremos estar optimistas, pois entrar num Europeu desta forma é bastante positivo, tendo em conta que os atletas vêm de épocas tremendamente desgastantes e que a equipa esteve reunida durante um periodo curtíssimo. Como tal, o tempo só poderá ajudar-nos.

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