Memória: «O golo que silenciou 200.000 espectadores»
A selecção brasileira que disputou o Mundial de 1950 marcou, em seis jogos, 22 golos - mais do que qualquer outra selecção brasileira em fases finais de Campeonatos do Mundo, incluindo as de Pelé. E, no entanto, o único jogador dessa selecção que ainda hoje é recordado é o guarda-redes Barbosa. E por causa de um golo sofrido.
Um Mundial único
O Mundial de 1950 foi um evento muito especial. Talvez o mais especial de toda a História de campeonatos do mundo. Não só por ter sido o primeiro a ser disputado após a II Guerra Mundial, interrompendo assim uma paragem de 12 anos (o último tinha sido disputado em 1938, em França); não só por ter sido o Campeonato que inaugurou o mítico Maracanã, então o maior estádio alguma vez construído, com lugares para 200.000 espectadores; não só por ter sido o primeiro Mundial a contar com a presença da Inglaterra que, apesar de se proclamar “inventora” do futebol, até então, sempre tinha menosprezado a competição; mas foi também um caso muito especial por ter sido o único campeonato, na História dos Mundiais, a não ser decidido através de uma final. Na verdade, o formato inovador, e nunca mais repetido desse mundial, contemplava inicialmente quatro grupos de equipas, com o primeiro classificado de cada um desses grupos a seguir para a poule final, na qual jogariam todos entre si. O campeão seria aquele que, nessa pole, somasse mais pontos. O Brasil, por jogar em casa e por ser a selecção com melhores jogadores, era claramente o favorito. Durante a primeira fase, bateu o México por 4 a 0 e a Jugoslávia por 2-0, consentindo apenas um empate por 2 a 2 com a Suíça (no único jogo que disputou fora do Maracanã), algo que não o impediu de se qualificar para a segunda e derradeira fase da prova. Aí, teria de enfrentar a Suécia, a Espanha e o Uruguai. E foi nos dois primeiros jogos dessa pole que a selecção brasileira demonstrou de forma impressionante todo o seu poder futebolístico, derrotando a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1. O terceiro e decisivo jogo seria com o Uruguai, que tinha empatado 2 a 2 com a Espanha e vencido a Suécia por 3-2. Ao Brasil bastava um empate para se sagrar campeão.
Os vencedores antecipados
199.954 bilhetes foram vendidos para a partida decisiva, mas segundo estimativas da época estiveram presentes mais de 200.000 espectadores. O jornal “O Mundo”, na véspera, tinha feito capa com a fotografia da selecção brasileira, usando a manchete “Estes são os Campeões do Mundo”, e era exactamente isso que cada um daqueles 200.000 espectadores tinha ido comprovar: a vitória dos seus ídolos. Entre eles, Ademir que, com 9 golos, seria o melhor goleador da prova, Zizinho, o melhor jogador da competição e o grande ídolo de Pelé, e José Carlos Bauer, apelidado de “o gigante do Maracanã”, que anos mais tarde, numa digressão a Moçambique como treinador da Ferroviária de Araraquara, descobriu um miúdo chamado Eusébio da Silva Ferreira, tendo-o posteriormente indicado a Bela Guttman do Benfica. O guarda-redes era Barbosa, titular indiscutível do Vasco da Gama, clube pelo qual já havia ganho 4 campeonatos cariocas e, em 1948, o Campeonato Sul-Americano de Campeões (precursor da actual Taça dos Libertadores da América). Barbosa fora precisamente o herói dessa prova, ao defender um penalti no jogo decisivo contra o River Plate. Pela selecção brasileira tinha também sido Campeão Sul-Americano em 1949.
Os adversários
O ambiente, entre o público no Maracanã, não era só de euforia. Era também de intimidação, pelo menos para os jogadores uruguaios, onde o único que não dava sinais de medo em campo era o capitão Obdulio Varela. O único capaz de manter a cabeça erguida depois de ver o Brasil adiantar-se no marcador com um golo, no segundo minuto da segunda parte por Friaça, e de gritar com os companheiros de equipa e obrigá-los a acreditarem na reviravolta. Varela era um duro, um general dentro de campo para quem cada jogo era uma verdadeira batalha. O escritor Nélson Rodrigues escreveu que Varela “não atava as chuteiras com cordões, mas com as veias”. Mas era também, à sua maneira, um romântico do futebol enquanto fenómeno puramente desportivo. Recusou sempre jogar com a camisola do seu Peñarol “profanada” com publicidade. A equipa entrava em campo com dez jogadores patrocinados e com Varela a ostentar a velha camisola de sempre do Peña. Foram a força e a liderança de Varela que permitiram à selecção uruguaia voltar a unir-se e a empatar o jogo com um golo de Juan Alberto Schiaffino, o segundo melhor marcador da prova, e grande estrela da equipa. Um golo que, no entanto, não desmotivou nem a selecção brasileira nem o público que a apoiava, crentes de que seria apenas uma questão de tempo até a sua superioridade voltar a resultar em golo. O único brasileiro que parecia preocupado era o treinador, Flávio Costa, que pedia para os jogadores defenderem. Mas como é que os jogadores podiam ouvir os avisos do treinador, quando tinham duzentas mil pessoas, à sua volta, já a festejarem o título?
O momento decisivo
Até que a dez minutos do fim da partida o impensável aconteceu: o uruguaio Alcides Ghiggia aparece pelo lado direito da área brasileira e, apesar de ter ângulo muito apertado, remata. Barbosa, o guarda-redes em quem todos confiavam, lança-se à bola, junto ao seu poste esquerdo, mas é incapaz de a defender. O que se seguiu foi o silêncio de 200.000 pessoas. Sabem o que é ter duzentas mil pessoas a olharem para vocês com um silêncio de desespero e incredulidade? Não deve ter havido, ao longo da História, muita gente a sabê-lo, mas às 16 horas e 50 minutos do dia 16 de Julho de 1950, Moacir Barbosa Nascimento ficou a saber. O Brasil já sofreu muitas tragédias, entre ditaduras militares, violência urbana e crimes ecológicos, mas para Nélson Rodrigues “esse golo foi a nossa Hiroshima”. Uma tragédia que chegou ao ponto de comover os próprios jogadores do Uruguai, como Schiaffino, que disse mais tarde “eu chorava de alegria, mas também de pena por vê-los sofrer assim. Eu chorava por eles”. Mas mais impressionante ainda foi a declaração do capitão Varela: “Fiz um país chorar de tristeza mais do que o meu país de alegria. E acho que se pudesse jogar aquela final novamente faria um autogolo.”
A ressaca
Dez pessoas morreram no estádio de ataque cardíaco. Nos dias seguintes, inevitavelmente, houve vários relatos de suicídios e cenas de pancada em bares. Também inevitavelmente, Barbosa ficou marcado até ao fim da carreira por esse golo sofrido. Aliás, até ao fim da vida. Foi principalmente por causa desse golo que os guarda-redes brasileiros começaram a ser encarados com desconfiança. Por mais fortes que tivessem sido as selecções brasileiras seguintes, os guarda-redes eram sempre encarados como o elo mais fraco. Mas a humilhação suprema, para Barbosa, ocorreu em 1994, quando foi impedido de entrar no hotel onde a selecção brasileira estagiava para o Campeonato do Mundo, para não dar azar à equipa. “No Brasil a pena máxima para um homicídio é de 30 anos. Eu pago há 44 por um crime que não cometi”, disse Barbosa, falecido a 7 de Abril de 2000. O colega Zizinho era da mesma opinião: “Ele fez tudo com correcção. No golo do Schiaffino fechou o ângulo e o Ghiggia cruzou aberto para o companheiro. No segundo entendeu que Ghiggia ia repetir o lance e lançar aberto para Schiaffino. Então ele se afastou e foi para o centro da baliza. E Ghiggia rematou entre o poste e ele”. O único Campeonato do Mundo em que não foi jogada uma final foi o que teve a mais dramática final de todos. É aquele tipo de ironias de que a História é feita. Para além de Barbosa, os mais supersticiosos justificaram ainda a derrota com a mudança do local de concentração da equipa na véspera da final. O Brasil trocou a concentração de Joá pelo estádio do Vasco da Gama, em São Januário. Outros culparam o treinador Flávio Costa por ter imposto duas horas de missa na manhã do jogo aos seus pupilos, que rezaram de pé. Quaisquer que tenham sido os motivos, a inspiração e coragem dos jogadores uruguaios é bem capaz de ter o maior de todos, e a verdade é que para o Brasil esse Campeonato do Mundo continua, ainda hoje, a ensombrar a sua brilhante História futebolística. Como disse Luís Fernando Veríssimo, depois de o Brasil ter conquistado o seu quinto Mundial em 2002, “por mais campeonatos que o Brasil ganhe, nunca vencerá aquela final de 1950.”


Comentário de Gustavo Devesas - 26 Jun 2008, 12:02:
Acabei de ler pela 2a vez estes incríveis 6 parágrafos de ouro. Não posso ficar indiferente à forma apaixonada e cativante como o Luís Coelho narra cada detalhe desta Memória. Desconhecia por completo a inacreditável história desta final de 1950 e congratulo, uma vez mais, o Luís pela oportunidade que dá a todos os nossos leitores do Jogo de Área de serem presenteados com tamanha riqueza de escrita!
Comentário de João F F Costa - 27 Jun 2008, 0:31:
Lindo. Bela história, texto fantástico. Fez-me mesmo sentir a tristeza da derrota daquela final. Mais uma vez, foi simplesmente fantástico. Proporcionou-me um óptimo final de dia. Muitos parabéns.