Observatório: A Crise Técnica na Seleção Brasileira
É impossível isentar CBF e Dunga do momento vivido pela Seleção, quinta colocada nas Eliminatórias, o que significaria, ao final, a disputa da repescagem com o campeão da Oceania. A banalização da Seleção atrás de polpudos cachês, a pouca valorização dada às divisões de base e à busca do ouro olímpico, além do “roteiro” que afasta profissionais como Scolari e Zico e só atrai aqueles que são coniventes ou submissos devem ser debitados na conta de quem dá as cartas (e dará até 2014!) nos silenciosos gabinetes da sede da Confederação.
Dunga não pode mais ser considerado totalmente inexperiente. Ainda que a sua vivência não seja suficiente para um cargo de tamanha responsabilidade, a Copa América foi um tremendo “batismo”, independente do título, que acabou atrapalhando o novato treinador, pela fidelidade exagerada ao grupo vencedor, em nome de uma “coerência” que não consegue enxergar a péssima fase da maioria. Taticamente, o time comete sempre os mesmos pecados: laterais que não se projetam, pelas próprias limitações e falta de companhia, um Robinho que recua demais e isola o atacante de referência, além da insistência com Gilberto Silva, que consegue sobrecarregar o meio e a defesa ao mesmo tempo com a sua lentidão no combate e cobertura.
Mas a péssima notícia é que, desta vez, a crise, acima de tudo, é técnica. Antes, os erros de comando eram “abafados” pelos pés talentosos de craques que decidiam. A Copa de 2002 é o exemplo mais emblemático: uma preparação tortuosa, depois de uma classificação sofrida e sem um time-base confiável se transformou em título graças ao carisma de Felipão, à união de um grupo que se acertou nas dificuldades e, principalmente, aos 3 “R’s” que fizeram a diferença: Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo consertaram através de dribles e gols uma rota mal traçada e colocaram o Brasil no topo. Assim como fizeram Garrincha, Pelé, Didi, Tostão, Gérson, Bebeto, Romário e tantos outros nas conquistas anteriores. Hoje o maior problema não é falta de vergonha, de identificação com a camisa pentacampeã, de garra, de vontade de servir à Seleção. A equipe pode ter sido apática e um tanto desinteressada contra Venezuela e Paraguai, mas o que se via em campo, principalmente contra a Argentina, era um time sem qualidade, sem aquela chama capaz de transformar um improviso em gol. Falta o artilheiro que nos acostumamos a ter desde Careca nos anos 80 até o Fenômeno na última Copa. Nem nas cobranças de faltas, que já ficaram a cargo de Pelé, Rivelino, Zico e Roberto Carlos, temos um especialista para resolver partidas mais complicadas.
E as perspectivas não são as melhores: os que possuem técnica, como Hernanes (São Paulo, que interessa a vários clubes europeus), Lucas Leiva (Liverpool), Anderson (Manchester United) e Pato (Milan), não têm experiência, e os mais vividos, que poderiam assumir a responsabilidade, como Kaká e os Ronaldos, estão mal ou afastados por contusão.
Como em todos os momentos difíceis e de impasse, em qualquer atividade, é hora de ter calma. Uma troca de treinador deve ser bem pensada e o nome bem escolhido. Alguém com mais currículo pode ser importante, principalmente se conseguir compensar a carência de talento com um jogo coletivo consistente e uma equipe bem distribuída em campo. Mas existe este profissional disponível? E será que ele aceitaria o cargo próximo a uma Olimpíada e acataria as ordens que vêm “de cima”? Até que as perguntas sejam respondidas, resta torcer pela rápida e plena recuperação de Kaká, que Ronaldinho Gaúcho encontre um time e um rumo para a sua carreira, e que talentos promissores se confirmem e outros surjam, para que, se nada for consertado no comando, o que é mais provável, o futebol brasileiro possa ser salvo mais uma vez pelo que o tornou famoso e admirado em todo o planeta: a magia de seus craques.

