Memória: A Última Dobradinha do Benfica
Fez esta semana, no passado dia 7 de Junho, 21 anos que o Benfica conseguiu vencer pela última vez o Campeonato e a Taça na mesma época. Na altura, a terceira Taça de Portugal seguida para o clube da Luz. E a terceira dobradinha nos anos 80 (as outras tinham sido em 1981 e 1983).
A hegemonia do Benfica
Quando se diz que o FC Porto começou a deter a hegemonia do futebol português nos anos 80 está-se a contar apenas uma parte da História. Se é verdade que a nível internacional os dragões tiveram grandes conquistas nessa década, a nível interno o Benfica continuava a ser a equipa mais vitoriosa. Basta recordar os cinco campeonatos e seis taças Portugal que conquistou, contra os três campeonatos e duas Taças de Portugal ganhos pelo FC Porto, durante o mesmo período de tempo. Mesmo que, por vezes, o FC Porto ou até o Sporting tivessem melhores jogadores, era ainda o Benfica o grande dominador. E na época 1986/87 foi exactamente isso que aconteceu.
O FC Porto era claramente favorito à conquista do campeonato. Porque tinha ganho os dois títulos anteriores. Porque tinha Madjer, Futre, Gomes, Celso, Juary, Mlynarczyk, Jaime Magalhães e Elói no plantel. E porque tinha ido buscar Jaime Pacheco e Sousa ao Sporting, e Casagrande ao Corinthians. O Benfica não tinha um plantel tão bom. Tinha perdido muitos nomes importantes nos últimos 2/3 anos anos (Humberto Coelho, Chalana, Stromberg, Nené, Bento tinha-se lesionado no Mundial do México 86) e, como jogadores acima da média, jogadores que pudessem de facto fazer a diferença, já só havia Carlos Manuel, Diamantino, Chiquinho Carlos e Rui Águas. O que restava era um conjunto de jogadores que dava tudo pelo emblema. Mas se calhar era a isso que se chamava mística. E se calhar foi isso que permitiu ao clube ultrapassar todas as adversidades ao longo da época, incluindo a derrota por 7 a 1 em Alvalade, a única derrota do Benfica nesse campeonato, mas talvez a mais traumatizante de toda a sua História. Pelo menos, do ponto de vista dos adeptos leoninos que, pela forma como a celebram anualmente, continuam a considerar esse feito como o mais importante do seu clube nas última três décadas.
O primeiro ajuste de contas
Depois de ter estado na liderança do campeonato durante praticamente toda a temporada, o Benfica confirmou a conquista do título a 24 de Maio, ao vencer o Sporting na Luz por 2-1. Três dias antes de o FC Porto vencer o Bayern Munique na final da Taça dos Campeões Europeus em Viena, no famoso jogo do calcanhar de Madjer. Para o Benfica, esse triunfo sobre o Sporting representou um ajuste de contas não só pela humilhação que sofrera na primeira volta em Alvalade mas, mais importante ainda, pela derrota que o mesmo Sporting lhe tinha imposto um ano antes, em pleno estádio da Luz, e que tinha roubado o título ao “glorioso” para o oferecer de bandeja ao FC Porto. Muita gente já não se recorda, mas foi essa preciosa ajuda leonina no final da época 1985/86 que permitiu ao Porto celebrar, um ano depois, a conquista do seu primeiro título europeu.
O segundo ajuste de contas
Depois da conquista do campeonato, faltava ao Benfica a Taça, onde ia defrontar na final o Sporting que, nas meias-finais, eliminara o FC Porto nas Antas, no último minuto do prolongamento. No dia 7 de Junho de 1987 o Benfica, ao bater o Sporting por 2 a 1, conquistou a 9ª dobradinha da sua História. O autor dos dois golos encarnados, e herói da partida, foi Diamantino Miranda, que já havia sido o jogador mais influente da equipa durante o campeonato. O primeiro dos seus golos foi na execução perfeita de um livre directo à entrada da área leonina que só deixa Damas reagir depois de a bola ter entrado. Mas o segundo é ainda melhor, um daqueles golos que demonstra que, mais importante do que ter visão de jogo, é ter a previsão de jogo. Num lance em que tem dois sportinguistas em cima, Diamantino demonstra essa capacidade de antecipar a reacção do adversário com gestos técnicos de pura classe e velocidade imparável, antes de fuzilar Damas. No final do jogo, um jornalista perguntou ao guarda-redes do Sporting se ele não podia ter feito mais no lance do segundo golo. Damas, com o desportivismo que sempre demonstrou, repondeu que, depois de uma jogada daqueles, até lhe ficava mal defender o remate. Só por curiosidade, o golo do Sporting, nesse jogo, foi marcado por Marlon Brandão.
No dia seguinte à dobradinha, o treinador do Benfica, John Mortimore, foi despedido. Dizia-se que tinha uma má relação com os jogadores. O seu substituto foi o dinamarquês Ebbe Skovdahl, de quem se esperava que viesse a ser o novo Eriksson. Era nórdico, relativamente jovem e simpático. E também trouxe um avançado alto e louro para o clube (Mats Magnusson). Acabou por ficar apenas quatro meses, até ser substituido por Toni, devido a maus resultados.

