Paradoxos do Futebol Moderno
É uma realidade de há alguns anos, e que tende a agravar-se no futuro. As fases finais de competições de Selecções Nacionais são de uma dureza enorme para a maioria dos atletas intervenientes, vindos de épocas longas de 40/50 partidas, e com muitos milhares de minutos nas pernas. E nesta fase da temporada joga-se isso mesmo, a gestão da vertente física. Em programas detalhadamente definidos, cada atleta é administrado tal qual uma máquina, de forma a equilibrar os seus níveis competitivos para tão importante prova de final de época.
Daí que me parece permanente analisar o trabalho desenvolvido por equipa técnica numa fase final de um Europeu, quando comparado com os processos diários de um clube, e durante uma época longa e desgastante. Trata-se de um curto estágio (15/20 dias), meramente de recuperação física, mental, e de manutenção dos patamares médios de rendimento. É quase trabalho de um especialista, diria, um misto de um psicólogo com um preparador físico.
Por outro lado, o trabalho táctico torna-se quase contra-producente. Os jogadores passam 95% do seu tempo nos clubes, e hoje parece-me óbvio que o seleccionador mais bem sucedido será aquele que melhor conseguir enquadrar na selecção o conhecimento táctico que os atletas adquiriram no seu clube – veja-se o exemplo da equipa-base de Mourinho, no Euro 2004.
Ronaldo é outro bom exemplo exemplo disso mesmo. Com mais de 40 jogos / 40 golos, o criativo português foi a estrela que mais cintilou no Man Utd versão 2007/08, vencendo a Premier League e a Champions League de forma indiscutível. Contudo, o enquadramento do avançado na selecção portuguesa tem sido extremamente distinto daquele que vemos na equipa inglesa – até que ponto isso será rentável para o futebol de Portugal? Sob a batuta de Ferguson, Ronaldo é um falso extremo que vive da liberdade, juntamente com elementos igualmente móveis como Rooney ou Tevez. Tanto faz trabalho de ala, médio criativo, como de ponta de lança. Na Áustria/Suíça, o mais provável será vermos Ronaldo a jogar nas alas com funções bem definidas e um raio de evolução igualmente limitado. O extremo clássico que Portugal se habituou a desenvolver.
Esta discrepância entre clubes e selecções encontra igualmente paralelismo na vertente financeira. O primeiro passo foi já dado, com a remuneração que será distribuída pelos clubes por parte das várias Federações de Futebol. Mas o futuro deverá passar por uma maior e mais efectiva colaboração entre as duas partes, estreitando interesses e dando maior margem de manobra aos atletas, que são no fundo aquilo que de mais importante tem a modalidade.
A meu ver, será importante encetar um estudo detalhado que vise equilibrar as várias competições de futebol, de forma a que não apenas os atletas, mas igualmente o público saia amplamente beneficiado. É frustrante apreciar a qualidade dos astros do nosso futebol, quando estes acabam por ser sistematicamente sacrificados por um sistema que os relega para segundo plano. Sim, porque o espectáculo ainda é a essência do nosso futebol.



