Os «Nossos» 23
A não chamada de Maniche e Caneira acabaram por ser os pontos de destaque seleccionados pelos media lusos, no rescaldo à conferência de imprensa de Scolari. Achei então pertinente analisar um conjunto de escolhas que, apesar de tudo, acabaram por não ter a controvérsia de outras do passado (lembro-me de Quaresma no Mundial 2006, ou de Vítor Baía no Euro 2004). O técnico de Portugal, e apesar de guardar algumas das suas manias antigas – como Ricardo ou Postiga – desta feita foi capaz de seguir o rumo da renovação e convocar alguns elementos que francamente mereciam essa premiação.
Começo pela linha intermediária. Moutinho e Meireles eram dois jogadores colocados pela imprensa como na luta por um único posto. O que é facto é que ambos mereciam estar na Áustria/Suiça, e Scolari soube fazer aquilo que raramente sucede no seu “reinado”: premiar pelo trabalho revelado, em detrimento do núcleo duro, que quer nos dá maravilhas como tem o condão de deitar tudo a perder. Maniche acabou por ser o visado, e muito bem. Jorge Ribeiro é outro caso de uma premiação que tem tudo para ser bem sucedida. A temporada que tem conseguido no Boavista é formidável – num quadro literalmente caótico – e a sua convocação acaba por ocupar um espaço que desde Nuno Valente era reservado a adaptações absolutamente duvidosas e limitativas.
Coloco no ataque o meu maior tom crítico, isto porque Scolari acaba por “estragar” um lote perfeito de jogadores ao “pegar” em Postiga, um eterno jogador sem chama. E a culpa não é certamente do atleta, que se limita a agradecer e a embarcar em mais uma prova de sonho. Parece-me no entanto gritante como entre Hugo Almeida, Nuno Gomes e Postiga não haja espaço para o avançado luso-congolês Makukula, talvez o único verdadeiro ponta de lança de formação actualmente disponível para representar a equipa das quinas. A aposta no gigante africano acabou por se revelar fundamental numa fase complicada da qualificação, e actualmente seria de bom tom incluir o atacante no lote dos 23 – independentemente da sua condição no Benfica – algo que mostraria não apenas sensatez mas igualmente inteligência e visão, alargando um pouco os planos ofensivos da equipa.
Essencialmente, parece-me que este lote encarna o equilíbrio que tão importante é em provas desta natureza. A mescla de elementos experientes e rodados com outros mais irreverentes e imaturos é o caminho que deve ser tomado, não apenas por uma questão de equilíbrio, mas também porque essa é a verdadeira génese de uma equipa nacional. O Euro está ai à porta, e sabemos como os timings fazem a diferença em termos de competições de selecções nacionais. O estágio em Viseu será decisivo a todos os níveis, quer na descompressão individual dos atletas, quer na forma como os técnicos nacionais venham a abordar os adversários nacionais na fase inicial da competição – e esse sim será, na minha óptica, o ponto crucial de todo este processo.



