Observatório: O Clássico Luso-Brasileiro de Volta!
Seis anos após o último confronto, Vasco da Gama e Portuguesa, dois clubes de origem lusitana, voltaram a se enfrentar pelo Campeonato Brasileiro exatamente no ano do bicentenário da chegada de D. João VI e da Corte Portuguesa ao Brasil, fato que estreitou os laços entre os dois países, na época vivendo uma relação de metrópole/colônia. O jogo foi realizado no estádio São Januário, muito próximo à Quinta da Boa Vista, local onde o então Príncipe Regente escolheu para viver no Rio de Janeiro.
Desde a última partida (4 a 0 para o Vasco, também pelo Brasileiro e no estádio do Vasco), os dois clubes viveram realidades distintas. A Portuguesa enfrentou o calvário de ser rebaixada na competição nacional em 2002, e até no Campeonato Paulista, em 2006. Mas no ano passado, com um brilhante trabalho do técnico Vágner Benazzi, conseguiu voltar à Primeira Divisão nas duas competições. O time conta com o atacante Diogo, jovem revelação de 20 anos, que só não está no exterior porque se contundiu seriamente no início do ano, o que inviabilizou qualquer negociação. Alguns boatos sobre clubes interessados - inclusive Benfica e o Sporting - de vez em quando aparecem, mas o clube alega que não recebeu nenhuma proposta oficial pelo talentoso jogador que tem contrato com a Portuguesa até 2010 e uma cláusula de rescisão de 11 milhões de euros.
Já o Vasco não caiu, mas também não consegue crescer. Tirando alguns bons momentos, como a conquista do Estadual de 2003 e as boas campanhas na Copa do Brasil e no Brasileiro de 2006, o clube já não consegue contratar ou revelar jogadores como no final dos anos 90 e no início desta década, quando alcançou suas principais conquistas. O clube parece parado no tempo, principalmente pela métodos autoritários e ultrapassados do presidente interino Eurico Miranda, e não consegue investidores nem títulos. O time vive do talento de alguns bons jovens, como Morais, Alex Teixeira, Alan Kardec e Pablo, e da experiência e gols da veterana dupla de ataque, formada por Edmundo e Leandro Amaral, que volta ao clube após imbróglio jurídico que o impediu de jogar pelo Fluminense e o fez retornar para cumprir seu contrato.
A partida foi bem disputada, com domínio vascaíno desde o início, até por atuar em casa. O time, pensando na semifinal da Copa do Brasil, que dá uma vaga na Libertadores ao campeão, vem poupando Edmundo, que fica no banco ou nem vai para o estádio nos jogos do Brasileiro. No sábado, ele saiu da reserva para definir a partida no segundo tempo com dois gols (Leandro Amaral havia marcado na primeira etapa). O veterano atacante encontrou seu posicionamento com a chegada do técnico Antônio Lopes. Mais avançado, Edmundo também tem mostrado ótimo entrosamento com seu novo companheiro de ataque. Ele e Leandro Amaral já marcaram sete gols nas três partidas em que atuaram juntos.
A Portuguesa lutou, mas encontrou dificuldades para segurar o ataque adversário, principalmente pelo lado esquerdo, por onde joga Wágner Diniz, ala vascaíno que vem sendo a principal arma ofensiva da equipe na temporada. O bom goleiro André Luís vacilou em dois dos três gols, e a defesa, que já havia sofrido cinco gols do Figueirense na primeira rodada, voltou a falhar na marcação. No ataque, Diogo lutou sozinho e marcou, de pênalti sofrido por ele mesmo, o único gol dos visitantes.
Mesmo que as equipes não estejam em grande fase, é salutar ver dois clubes que remetem às nossas origens disputando novamente um jogo entre os melhores do país. Em tempos de globalização, onde muitos povos perdem suas identidades e desprezam suas Histórias, o clássico luso-brasileiro nos faz lembrar de onde viemos e traz de volta ao noticiário a boa relação entre os dois países e seus povos. D. João VI, um personagem muitas vezes subestimado pelos hábitos estranhos, mas que, dentro do possível, trouxe progresso para o o nosso país, certamente ficaria feliz ao ver que, dois séculos depois, ainda existem elos unindo Brasil e Portugal, especialmente o futebol.

