Modalidades: Pistorius, «The Blade Runner»
Trata-se de uma decisão sem precedentes, no contexto de uma evolução tecnológica que se estende a todos os sectores do nosso planeta, em transformação diária. Oscar Pistorius, nascido em Gauteng (África do Sul), 1986, colocou para trás das costas o facto de com 1 ano de idade ter perdido as suas duas pernas, e correu atrás do sonho de competir desportivamente sem se sentir um “desabilitado”. A 16 de Maio de 2008, fez-se história e certamente se marcou desportivamente o Séc. XXI: Pistorius venceu a sua longa disputa com as entidades reguladoras do desporto mundial, e ganhou a possibilidade de lutar por uma presença em Pequim.
A maravilhosa história de Pistorius teve início no seu pai, Heinke, que desde o primeiro dia travou uma “luta” com a tecnologia, com o objectivo de conceder ao seu filho uma vida o mais normal quanto possível. Oscar era ainda um miúdo, mas já caminhava ajudado por próteses. A sua adaptação a estes instrumentos atingiu um tal nível que permitiu ao jovem, já com um dom natural para o desporto, praticar sem grande dificuldade várias modalidades. Como praticante de ténis, polo aquático ou râguebi, Pistorius destacou-se no mundo do desporto, não apenas por conseguir praticá-lo, mas mesmo porque se superiorizava à maioria dos competidores não amputados. Apostando definitivamente no atletismo, este prodígio do desporto conseguiu em 3 anos o que a maioria dos atletas consegue em décadas de treino e dedicação: ganhou o ouro nos Paraolimpicos, conseguiu o claro estatuto de melhor do mundo na sua categoria, e em 2007 mostrou ter ainda a capacidade para competir de igual para igual com atletas “normais”.
Aqui se iniciou uma intensa batalha, Pistorius de um lado da barricada, a IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) do outro. Foram conduzidos então testes num gabinete alemão de biométrica e estudo ortopédico, que invalidaram a tentativa do atleta sul-africano. Segundo este estudo, Pistorius gastaria menos 25% de energia que um atleta comum, se ambos estivessem a correr à mesma velocidade (isto porque a flexibilidade das suas lâminas de carbono ultrapassaria a capacidade das pernas humanas) - Oscar quebraria portanto uma regra-base do desporto internacional, segundo a qual “é proibida a participação numa competição oficial não-Paraolimpica, de atletas que utilizem um instrumento tecnológico que lhes conceda alguma vantagem perante um atleta que não o utilize”.
O atleta apelou da decisão, considerando que os testes teriam sido demasiadamente simplistas, como que dando a entender que haveriam “jogos de pressão” em torno da sua situação. Em adição, exigiu que o seu processo fosse analisado em mais do que um laboratório. As suas reivindicações foram aceites, e mais tarde, o Tribunal Arbitral de Desporto - com total jurisdição na matéria - acabaria por validar o atleta para Pequim. Uma história com final feliz para um desportista que teima em vencer todos os obstáculos que lhe fazem frente.
Desportivamente, Oscar tem o seu recorde nos 400m cifrado em 46,46, e caso atinja os mínimos fixados pelo Comité Olímpico da África do Sul (45.95) poderá cometer a enorme proeza de participar nos Jogos Olímpicos de Pequim, onde será certamente o destaque absoluto entre centenas de atletas. Tendo em conta que o melhor registo de sempre é de 43.18, por Michael Johnson, é caso para dizer que estamos certamente na presença de um sobre-dotado na disciplina. A incrível vida de Pistorius já seduziu Hollywood, e patrocinadores como a Visa, Honda ou Nike já apostaram fortemente no atleta. O sul-africano é actualmente uma celebridade, mas até que ponto esta sua proeza é “sustentável”? A discussão está lançada. Fará sentido permitir que a tecnologia se intrometa entre duas competições dignas e válidas como os Jogos Olímpicos e os Jogos Paraolimpicos?
Pistorius em Roma, na «Golden League»








