Análise: BwinLiga 07/08 > J30 > Benfica 3×0 V. Setúbal
11 de Maio de 2008, uma data que ficará para sempre marcada nos almanaques dourados do desporto rei. Rui Manuel César Costa coloca um ponto final na sua brilhante carreira na última partida oficial do “maestro” como desejou, entre a “sua” eternamente agradecida família benfiquista. O Benfica, por outro lado, terá que
se contentar com a justiça da quarta posição do Campeonato, perdendo os milhões da “Champions” para disputar a Taça UEFA na próxima temporada.
A partida da 30ª e última jornada da BwinLiga 07/08 ainda se revestia de importância pois matematicamente ninguém tinha assegurado o apuramento para a Liga dos Campeões. Os “encarnados” sabiam de antemão que fruto dos inúmeros desaires caseiros, a despedida da época 2007/2008 acarretaria a obrigação de vencer os sadinos mas ainda a ajuda de Boavista e Estrela da Amadora, nos redutos do Sporting e Vitória de Guimarães respectivamente. Ainda assim o sentimento era justamente que o Benfica ao depender de terceiros, os adeptos iriam quase certamente “reprimir” a equipa com um estádio novamente vazio, mas foi precisamente o contrário que se verificou tal era especial o momento que estava marcado para este encontro. No último jogo como treinador principal das “águias”, Chalana colocou Katsouranis a meio-campo, no lugar do castigado Petit, apostando numa dupla de centrais composta por Luisão e Edcarlos. Na frente, Nuno Gomes e Óscar Cardozo formaram a habitual dupla de ataque, apoiados por Cristian Rodriguez e pelo “maestro” Rui Costa. Nos visitantes, Carlos Carvalhal também se despedia do comando dos sadinos antes de se mudar para o campeonato grego, fazendo descansar o excelente defesa Auri, totalista esta temporada, e colocando no seu lugar o veterano Hugo.
O mote tinha sido deixado por Chalana durante a semana, como que retirando qualquer pressão aos jogadores e atirando para segundo lugar a questão do acesso aos milhões europeus, pedindo uma “festa bonita” e digna aos 55 mil adeptos que se deslocaram ao Estádio da Luz. Com o Estádio da Luz lotado para assistir à despedida de Rui Costa, o Benfica empolgado pelos gritos dos adeptos numa altura em que o Boavista vencia o Sporting em Alvalade, começou a partida em cima da defesa sadina e assustou o guardião “sensação” desta época - Eduardo - por duas ocasiões, com Léo, e o “maestro” a falharem o alvo, após duas boas jogadas. O Vitória de Setúbal, em clara descompressão de final de época e com a Europa já assegurada, tentou “pegar” mais no jogo, quase sempre através da “revelação” Cláudio Pitbull, mas a equipa de Carvalhal pouco conseguiu incomodar Quim.
Frente aos sadinos, Katsouranis de cabeça (25 minutos), Cardozo à entrada da área adversária após executar o seu característico disparo com o pé esquerdo (39) e Nuno Gomes de recarga à entrada da área (88), trataram de dar a esperada vitória às “águias”. No entanto, o jogo teve sempre em Rui Costa o seu centro da atenções e foram várias as tentativas e remates do maestro na tentativa de marcar um golo na sua despedida.
O jogo atingiria sentimentos completamente paradoxais, tal seria de imaginar a teórica frustração e raiva dos adeptos para uma equipa que acaba o ano em 4º lugar, mas a verdade é que os 86 minutos, trataram de mostrar o que mais de 50.000 pessoas no estádio e outros tantos milhares em casa queriam assistir. Rui Costa era substituído por Binya e, aos 36 anos, despedia-se definitivamente dos relvados, perante aplausos, cânticos e algumas vénias dos adeptos “encarnados”. A verdade é que mesmo entre gregos e troianos, todos não se cansaram de aplaudir um jogador ímpar, tal é a classe que passeava em campo, mas também um Homem de invulgar simpatia, simplicidade, frontalidade e disponibilidade para esclarecer quem o procurava. Lembro-me de Rui Costa como simplesmente o melhor exemplo do que é um futebolista, a todos os níveis e sem querer ferir ninguém, penso que a forma como o Rui tratava desde a bola ao adepto mais desconhecido, não pode deixar ninguém indiferente.
PS - Apesar da merecida e emocionada despedida de Rui Costa, a verdade é que a triste e catastrófica época encarnada não pode nem deve ficar encoberta face à classe do maestro. Resta agora reflectir e esperar que o príncipe da Luz transporte toda a sua mestria para a gestão de um clube à deriva.


Comentário de Paulo - 12 Mai 2008, 15:35:
Rui Costa foi, a seguir a Zidane, o jogador que mais “estética” trouxe aos campos de futebol, na minha opinião. Em termos de beleza no tratamento da bola, de “bailado” (no sentido positivo do termo), foi inigualável na história deste desporto. Para além das qualidades exra-futebol, revelou um nível de qualidade elevadíssimo dentro de campo. Deixará muitas saudades a todos aqueles que gostam de um futebol competitivo, sério, mas “lírico” (o que quer que seja que isso significa em termos futebolísticos).
Perdoem-me o negativismo mas, se bem que considero Rui Costa um futebolista modelo e uma figura da história do futebol mundial, não posso deixar de apontar o facto de a sua despedida ter sido marcada por um exagerado sentimentalismo, um dramatismo intenssíssimo que conferiu a tudo isto uma carga quase ridícula (sei que o termo é talvez exagerado e forte de mais para o caso…), um fatalismo lamechas em muitos sentidos… Chamem-me frio, mas todo este cerimonial e choradeira parece-me demasiado preaparado, estudado, cozinhado durante tempo demais, o que retira um pouco de espontaneidade ao processo (isto para além de toda a “novela” Rui Costa director desportivo, que só mancha este fim de época, na minha opinião, e é uma acção desesperada num timing errado…)
Negativismos à parte, é de facto uma pena que jogadores destes deixem de jogar.
Quanto ao jogo, o Benfica demonstrou uma intensidade elevada e uma mentalidade ganhadora, “acelerada”, que deveria ter em todos os jogos, mas que apenas apresenta em desespero, em alturas em que “é mesmo preciso”. Esta é a diferença para o FCP, que é sempre competitivo, sempre sério, sempre competente (salvo raras excepções) e isso no fim da época faz a diferença. Porque é que nós, adeptos do Benfica, temos de fazer sempre tudo em esforço, com sofrimento, à última da hora?…
E penso que ficou demonstrado que neste plantel não há falta de qualidade, ou pelo menso tão gritante que justificasse uma época tão negativa em termos desportivos. Um Léo sério, um Rodriguez de boa qualidade, Di María com um talento gigantesco - mas ainda, cada vez menos, pouco maduro -, Cardozo como um dos melhores avançados dos últimos anos do Benfica… Dava para mais.
Mais uma épca terminada, mais expectativas frustradas, novos desgostos. Será “para o ano”?
PS - Finalmente o Jogo de área está de regresso! Isto de vir aqui todos os dias e deparar com aquela mensagem “nefasta” não estava com nada… Os meus cumprimentos e saudações por esta óptima notícia.
Comentário de Gustavo Devesas - 12 Mai 2008, 23:07:
Caro Paulo,
Não podia estar mais de acordo com este comentário. Na verdade, achei que os benfiquista pura e simplesmente se agarraram à única coisa positiva de uma época literalmente para esquecer! O adeus de um jogador como Rui Costa é claramente merecedora dos mais de 50.000 adeptos no estádio e tantos outros fora dele, no entanto, acho que os choros e lágrimas que se viram na TV… já ultrapassavam o limite da realidade. O Rui Costa não morreu, certamente vive bem melhor que todos nós juntos e acho que levar as coisas ao sentimentalismo é realmente 1 exagero não obstante da grandiosidade do Rui.
Em relação à equipa, vê-se bem que é uma equipa com belos valores, alguns que já sabemos, mas outros dos “recentes” que realmente confirmaram potencial - Rodriguez, Cardozo, Di Maria e quanto a mim também Adu. Veremos o que este Benfica vai engendrar para o ano.
PS- Não podia deixar de agradecer as palavras de incentivo ao Jogo de Área e acredita que fizemos o possível e impossível para ultrapassar a “calamidade” o mais rápido possível!
Obrigado pela preferência!
Um abraço