Marta – Pelé de Saias
Há uns tempos atrás, não considerávamos “natural” uma mulher tornar-se numa jogadora de futebol. A verdade é que actualmente, seja como espectadora ou praticante, a incorporação da mulher em diversas modalidades desportivas, aponta para importantes mudanças na cultura contemporânea. Novos espaços são gradualmente atribuídos ao futebol feminino que começa a despontar autênticos momentos de beleza no relvado, como os da brasileira e duas vezes melhor jogadora do Mundo FIFA – Marta Vieira Silva nos vem presenteando. Pura sedução.
A configuração tanto simbólica como concreta dos espaços ocupados pelo futebol pertence, primordialmente aos homens. A verdade é que somos um Mundo do futebol (masculino) e a nossa percepção quanto aos papéis dos intervenientes no jogo acompanham consequentemente essas transformações. É a partir deste autêntico privilégio dado ao género masculino que construímos os alicerces que sustentam a identidade que definem aquilo que acreditamos ser mais uma brecha da sociedade. Portugal não é muito diferente do contexto internacional, e podemos mesmo afirmar que o processo de interpretação e incorporação do futebol em terras lusas colocou as mulheres um pouco de lado, muitas vezes representadas como algo quase que incompatível com o futebol. No entanto, o ideal de beleza feminina sofreu uma forte influência do mundo desportivo. Com isso, deixou de ser tão absurdo ver um corpo feminino um pouco mais musculoso do que o costume. Ao contrário, as atletas têm-se tornado símbolos de beleza. Beleza aliada à saúde. Há tempos atrás, não considerávamos “natural” que uma mulher se tornasse uma jogadora de futebol. Desportos como futebol e boxe oferecem maiores restrições às mulheres, pois tanto um quanto outro são designados como territórios próprios à manifestação de virilidade. A postura em campo de muitas jogadoras era – e ainda o é – tida como masculinizada.
A realidade Portuguesa do futebol feminino encontra-se bem enquadrada nos trâmites sociais do pais no Mundo, ou seja, demasiado atrasada e pouco desenvolvida. Os campeonatos são amadores e muitas jogadoras têm mesmo de pagar do seu bolso praticamente para jogarem pelo seu clube. Ao nível internacional, a realidade é ainda mais desastrosa, preze o considerável desenvolvimento da modalidade e das condições para as jogadoras, a verdade é que enquanto não se ultrapassar a barreira da profissionalização, temo que quer a selecção nacional como os clubes tardarão a sair da cauda do Mundo no futebol feminino. Prova disso é o facto da selecção feminina nunca ter marcado presença em qualquer fase final quer de Campeonatos da Europa como do Mundo. A sua estreia oficial chegou mesmo a ser auspiciosa com um empate a zero, em Le Mans contra a França a 24 de Outubro de 1981. Actualmente, encontra-se no último lugar do grupo 5 da qualificação para o EURO 2009, com apenas 1 ponto fruto do empate (1-1) com a Escócia e de duas derrotas face à Eslováquia (1-2) e a poderosa Dinamarca (5-1) num grupo liderado pela Ucrânia que com 3 vitórias e 11 golos marcados e nenhum sofrido, se assume como a grande revelação do grupo. O Ranking FIFA é bem claro, com a Alemanha, EUA e Brasil a assumirem e disputarem as 3 primeiras posições, Portugal é “apenas” 47º em termos internacionais.
Ao nível de competições internas, a Suécia é sem dúvida um dos países que formam a elite do futebol feminino. Como selecção sagrou-se vice-campeã do Mundo em 2003, quarta classificada nos Jogos Olímpicos de 2004 e campeã Europeia em 1984. A nível de campeonato assume-se como o melhor campeonato do Mundo, ombreando com os outros países escandinavos em que a “emancipação” da mulher foi bem mais rápida e visível que no resto do Mundo. Prova disso é a capacidade de “importarem” os melhores talentos do Mundo, como o grande fenómeno e nome actual do panorama feminino – a brasileira Marta Vieira Silva. Com apenas 21 anos, Marta é o grande rosto do futebol feminino. Os seus 1.62 cm e 56 kg são a combinação perfeita aliada a um talento inigualável capaz de deixar o público masculino menos céptico, no mínimo, rendidos à sua classe em campo. Actualmente a representar o Umea da Suécia, os números falam por si: 39 internacionalizações com 40 golos marcados e um punhado de jogadas e momentos fenomenais. A beleza futebolística feminina tem um 10 nas costas e em cima o nome Marta. O poder de sedução está quanto a mim na forma como dança com a bola e depois dá-lhe verdadeiros carinhos quase maternais. Chegou mesmo a ser referenciada pelo próprio rei do futebol canarinho – Pelé, que a apelidou como o “Pelé de Saias” tal é o seu brilho dentro e fora no relvado, levando a FIFA a atribuir o troféu de melhor do Mundo em 2006 e 2007.
Pessoalmente, considero-me (ainda) um espectador por conquistar pelo futebol feminino, mas partilho a opinião recentemente divulgada por Luis Freitas Lobo que considerou Marta como a primeira grande excepção para mudar de atitude – “é o esplendor do «sexy football»”!
Marta – Um vídeo para ver até ao último segundo, onde destaco o magnífico golo do último minuto… genial!



