Karel Poborsky – A Gazela

Os cabelos longos e dourados não deixavam margem para dúvidas. Pela frente, os relvados sempre encarados como verdadeiras savanas onde “fugia” literalmente aos adversários. A camisola 7 nunca mais foi a mesma na Luz, desde que Karel Poborsky a perfumou com o seu perfume, estilo e habilidades invejáveis. As “arrancadas” entre as tantas fintas geniais, inúmeros pormenores sublimes, dezenas de assistências e exibições colossais na ala direita encarnada que foi durante 4 épocas, sinónimo de estilo… é Poborsky.

Corria o ano de 1997 e o Benfica estava afundado numa profunda crise económica e desportiva. Na sombra do seu penúltimo Campeonato Nacional até hoje e na época de 1993/94, a Luz rejubilava com um plantel “recheado” de jogadores experientes, como os casos de Neno, Hélder, Mozer, Veloso, Rui Águas, Isaías, João Pinto, Rui Costa, Vítor Paneira, Schwarz, entre outros. Fruto de uma péssima gestão de Manuel Damásio e seus pares, as contas «encarnadas» estavam de rastos, e ansiava-se pela chegada do novo presidente em 1997. Vale e Azevedo prometeu ao fechar das urnas, a contratação de Rui Costa e venceu as eleições, derrotando Luís Tadeu e Abílio Rodrigues.
Kandaurov e Luís Carlos eram apresentados com o novo presidente a prometer um jogador de classe Mundial e essa ainda hoje à vista como a única promessa “cumprida” pelo ex-presidente encarnado. Os noticiários abriam com a chegada à Luz do grande responsável pela eliminação de Portugal no EURO 2006, levando à tristeza nacional com aquele extraordinário “chapéu” a Vítor Baía. Era Karel Poborsky, que havia sido contratado pelo Manchester United após se ter sagrado vice-campeão da Europa naquela que foi considerada a grande equipa de ouro da Rep. Checa. A imagem de carrasco poderia ser vista como algo complicado de limpar, mas cedo Karel tratou de mostrar um grande carisma e força dentro e fora de campo, algo que não o abalou quando se verificou que Poborsky não tinha sido pago ao Manchester United. O clube inglês chegou mesmo a apresentar queixa à FIFA e colocou-se a hipótese do Benfica não participar nas competições europeias, mas ficou acordado e cumprido o devido pagamento da transferência com o dinheiro proveniente da Liga dos Campeões.

Karel Poborsky   A GazelaNascido a 30 de Maio de 1972 em Trebon na Rep. Checa, Poborsky cedo começou a mostrar talento e sobretudo temperamento de campeão. Destacou-se no Slavia de Praga o que lhe valeu a chamada ao EURO 2006 prova que viria a impulsionar não só toda a selecção checa como Karel que rumaria ao poderoso Manchester United numa transferência record para o clube checo – cerca de 5,9 milhões de euros. Muitos são os adeptos dos red devils que ainda hoje se questionam como Karel rumou a Portugal sem grandes entraves por parte de Alex Ferguson que ainda hoje lamenta o erro de não ter protegido o checo que viveu na sombra de David Beckham. Numa manobra que ainda hoje é encarada como a única brilhante da então Direcção encarnada, Poborsky chega à Luz a troco de 2.9 milhões de euros. Com “apenas” 24 anos, no melhor dos seus 1,75m e 71 kg, mostrou-se um médio/extremo direito nato, com uma técnica invejável, sentido de oportunidade para cruzar ou assistir os companheiros e sobretudo uma garra que ainda hoje é relembrada, tal é a actual ausência de referências no sector. O certo é que Poborsky esteve num período mais negativo do clube, talvez mesmo o período mais negro da História Centenária do Sport Lisboa e Benfica, mas o checo cedo se tornou num dos favoritos dos benfiquistas a par de João Vieira Pinto e Nuno Gomes. O clube passava por uma constante mudança de jogadores e de treinadores, casos de Sounness e Jupp Heynckes. O então presidente acabaria por protagonizar um dos maiores atentados à nação benfiquista quando despediu o n.º 8 “encarnado”, mandando-o literalmente embora, com o clube a não receber nenhum dinheiro em troca e ainda a ter de pagar… O menino da Luz acabaria por rumar para o rival Sporting, Nuno Gomes para a Fiorentina e o Benfica perdia assim dois dos seus grandes trunfos, restando apenas a gazela Poborsky, que chegou mesmo a ser eleito, como melhor jogador do ano de 1997, numa sondagem A Bola/SIC. Este foi o período, em que se ouviu falar do Benfica, sempre pela negativa, devido à gestão do anterior presidente.

Poborsky que encantou os adeptos e elevaria para sempre a fasquia da qualidade de um 7 à Benfica, não recebeu qualquer proposta de renovação, o que o levou mais tarde em 2001 a abandonar Portugal, após 4 épocas de águia ao peito, para a poderosa Lazio de Roma, valendo ainda cerca de 1,5 milhões de euros aos cofres encarnados, quantia essa que em 2002 ainda não estava liquidada pelo Benfica aos romanos, tal era a desorganização na gestão do clube. Em Itália não conheceu a fama que alcançou por terras lusas muito pela maior severidade táctica do próprio campeonato transalpino onde “galgou” durante apenas 2 épocas antes de rumar ao Sparta de Praga onde actuou até 2005 até ingressar no clube onde se formou – Ceske Budejovice, terminando a carreira em 2007 com 35 anos de idade.

Para trás, ficam os momentos deliciosos que vimos sair daquela mítica camisola 7, já envergada por históricos como José Augusto e mais recentemente, Vítor Paneira. Em concreto, Karel não era um goleador, mas sim um jogador de levantar qualquer estádio tal era a forma como abordava cada ataque procurando sempre os golos mais suberbos, 11 em 61 jogos, como o famoso golo de baliza a baliza frente ao Braga, as várias arrancadas na estrondosa vitória frente ao FC Porto por 3-0, o golão ao já despromovido Alverca e o não menos estrondoso golo ao Liverpool. É muitas vezes relembrado com orgulho pelos benfiquistas como o homem que à partida de Lisboa revelou ter sido interpelado por pessoas com ligações aos 2 principais rivais, aos quais apenas disse: “- Em Portugal só jogo no Benfica.” A nível internacional, Poborsky é actualmente o jogador na Selecção Checa recordista de internacionalizações (118) e conta com participações em 3 Campeonatos da Europa – 1996, 2000 e 2004 e ainda no Mundial 2002.

Apesar de não ter ganho qualquer título com o emblema da águia, a verdade é que foram vários os momentos que Poborsky marcou a ouro nas memórias dos Portugueses e não só. As suas verdadeiras incursões face ao adversário acabariam por pintar para sempre o checo como um dos grandes extremos que actuaram no futebol nacional e um dos melhores jogadores oriundos da Europa Central.



Um grande golo de Poborsky pelo Benfica

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